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Número 916,

Cultura

Exposição

Lily Sverner e a eternidade em um instante

por Rosane Pavam publicado 02/09/2016 04h41
A fotógrafa expõe suas formas do inconsciente em imagens captadas por três décadas
Lily-Sverner

Um ambiente onírico em Troncos e Sombras, Martigny, França, 1985.

câmera baixa muda a perspectiva dos troncos retorcidos que protegem como grades a casa assombrada. Um braço feminino sai pela moldura. A mulher surge à janela, mas talvez não seja uma mulher. São imagens de grande força, que a crítica não resistiu, desde a década de 1980, em intitular surrealistas.

Sua autora, Lily Sverner, vê nos rótulos que lhe aplicam apenas a necessidade de acalmar uma estranheza. Porque ela está atrás de algo muito difícil. De tudo o que não conhece, daquilo que, desde o século passado, descobrimos localizar-se dentro de nós mesmos. De um almejado inconsciente, desejoso de explodir na imagem instantânea. Suas fotos, como ela diz, percorrem um caminho no bosque sem saber o nome de todas as árvores. “Dentro do limite de uma imagem, acredito ser preciso transmitir o momento”, assegura, o sorriso constante. “Primeiro você acha, depois procura o que achou.”

Aconteceu em 1987, enquanto fotografava o Monte Saint-Michel, na Normandia. Um casal apareceu diante dela, a posar para um segundo fotógrafo. Ela “achou” a cena e a clicou. Mas somente percebeu que um menino a encarava quando revelou a imagem. Foi a hora de “procurar” o que havia achado. “Eu olhava para o fotógrafo. O fotógrafo, para o casal. De repente, pinta o inesperado. O menino não está mais interessado na cena. Ele se vira para mim. E eu involuntariamente apareço na foto.”

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O manequim encoberto em Siena, Itália, 2006

Ela acredita que a imagem cresça quando quem fotografa se torne o objeto do interesse, a expor um universo de relações. “Toda a coisa que se funda na imagem muitas vezes se estabelece na vida. João gosta de Maria, que gosta de Augusto, enquanto Augusto... Nós estamos todos ligados a uma certa cadeia.”

Suas 25 imagens em preto e branco, exibidas na exposição Para Ver sem Pressa, até dia 17 de setembro na galeria Fass, em São Paulo, evocam desejos e humores que não parecem pertencer ao rosto suave da artista. São como pinturas a revelar o que não pode ser visto, como ensinava Man Ray, artista do século XX com o qual sua obra guarda um parentesco.

“O fotógrafo recupera a pintura. Sempre, porque não há nada novo. A gente está sempre recuperando coisas.” Nascida em Antuérpia, na Bélgica, Lily veio ao Brasil com a família naquele difícil ano de 1941 em que a Segunda Guerra Mundial não mais parecia ter fim. E fez da fotografia um sustento, depois de ter estudado decoração no Instituto Nacional das Artes, no Rio de Janeiro. Até entender que escreveria pelas imagens, fez suas perguntas à história da arte e à literatura.

Nos anos 1970, descobriu a escola paulistana Enfoco, em que Maureen Bisilliat dava aulas. E se postou junto aos grandes, como David Drew Zingg e Cristiano Mascaro. Talvez não estivesse certa de que a exposição de seu trabalho fosse o melhor caminho nesse bosque de árvores ilustres.

Criou então, em 1987, a primeira editora brasileira dedicada à fotografia, a Sver & Boccato, e uma galeria para as exposições dos outros, a Gabinete da Imagem. Somente em 1989, aos 55 anos, publicou o primeiro livro, Fragmentos de uma Paisagem Urbana. Seu ensaio Nomes, realizado entre 1989 e 1991, hoje no arquivo do Instituto Moreira Salles, provocou uma discussão em torno do isolamento social a que está sujeita a velhice nos asilos. Belos retratos que, diz, auxiliam-na a compreender o momento atual. Lily viu também seu trabalho incluído em acervos internacionais importantes, como a Fototeca de Cuba, a New York University e a Maison Française.

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O braço através da madeira entalhada em Renascimento, 1992

O crítico Rubens Fernandes Junior, que reúne sua obra diversa e dispersa, crê que essas imagens façam o raro movimento de eternizar-se em uma fotografia. Ela não nega que, enquanto capte seu cotidiano de iluminações, procure alguma coisa a mais. Gosta de buscar o transcendente, sem desprezar a imanência, o agora. E jamais nega a força das mulheres. Suas modelos, que às vezes surgem em imagens construídas, estão intrigadas, a portar cigarros e anéis, a descobrir as próprias pernas, enquanto o rosto permanece parcialmente encoberto. Mas há um olhar cotidiano amigável aos que a cercam em muitos momentos. “Tenho um olhar, não diria compassivo, mas aberto para as pessoas. Nunca pude fazer uma foto sem que a pessoa diante de mim percebesse que eu a fotografava.”

Ela se sente, portanto, muito distante do perfil de uma caçadora de imagens, embora uma de suas impactantes obras, em lugar de nascer de uma construção, tenha florescido do acaso. Em 1998, encontrava-se em seu sítio de Itatiba, onde gere um centro de meditação zen, o Mandala, quando lhe apareceu Vanessa, a filha do caseiro, orgulhosa por ter capturado uma cobra.

“O vidro apareceu diante de mim. As mãos dela! Eu lhe disse: ‘Pare aí.’ Foi um instantâneo, um momento.” Se ela reconstruísse esse aprisionamento em uma foto posada, talvez não saísse igual. “Eu dizia à menina: ‘Segure sua cobra firme.’ Ela sentia que o animal estava sendo fotografado, não a si própria. Enquanto, atrás do vidro, aparecia aquela coisa toda.”

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Em A Foto (1987), um jogo de relações. Na imagem Vanessa e a Cobra (1998), a evocação de um inconsciente

Para captar expressões como a de Vanessa, evocadoras involuntárias da obra de outros artistas da profundidade, como Francesca Woodman, ela diz precisar da sintonia com a natureza e os objetos. “Quando sentem essa sintonia, os fotógrafos fazem trabalhos maravilhosos. Mas, se não a sentem, aquilo de bonito que produzem se torna vago. Eu acho que minhas fotos têm uma alma. Evocam uma atitude de mais aceitação da vida, das coisas que acontecem.” De seu jardim saem muitas imagens, como aquela de 1980, Para Dalì.

Em meio às rosas que se abriam, Lily visualizou um relógio. Decidiu então colocá-lo entre os galhos, preso a uma hipotética mão. Ali acabava por citar não somente o pintor surrealista, mas um brasileiro conhecido pelas expressões do inconsciente, Boris Kossoy. Ele também trabalha com manequins, à moda do que está visualizado na parede de tijolos de uma das imagens de Lily, feita em Siena, Itália, há dez anos. “O Kossoy foi minha primeira influência. O primeiro fotógrafo a ter me maravilhado.”

Lily acredita que a fotografia possa criar o infinito, embora em pequenas doses. “Alguém como Sebastião Salgado tem maestria, sensibilidade. Mas, como todos nós, não é criativo a vida toda. Se podemos contar com 20 imagens inesquecíveis, são 20 imagens inesquecíveis. Você fotografa coisas bonitas, coisas feias. As que deram certo e as que não deram.” A fotógrafa não sai atrás do clique todos os dias. Mal acha que possa ou deva fazer isso.

“Em relação ao tempo que me resta, quero encontrar o momento verdadeiro, aquele núcleo, e dizer que isto me representa. Estou conseguindo chegar lá, mas precisei desse tempo todo para chegar lá.” Lily não facilita. Parece pouco à vontade na condição de entrevistada, mesmo que aquele a lhe fazer perguntas diga não saber entrevistar. “Que ótimo”, ela sorri. “Porque eu não sei ser.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 916 de CartaCapital, com o título "A eternidade em um instante". Assine CartaCapital.