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Número 915,

Internacional

Europa

O "burquíni" e a batalha da praia

por The Guardian — publicado 26/08/2016 09h28, última modificação 28/08/2016 06h17
Os maiôs das muçulmanas tornam-se alvo da islamofobia. Assediá-las substitui a luta contra o terror real?
Fethi Belaid/AFP
Burquíni

Antes se condenavam maiôs curtos. Agora indecentes e proibidos são os longos

O governo francês defendeu as proibições municipais ao traje de banho apelidado de “burquíni”, que cobre o corpo, destinado às mulheres muçulmanas, mas pediu que os prefeitos tentem esfriar as tensões entre as comunidades.

Três cidades mediterrâneas – Cannes, Villeneuve-Loubet e Sisco, na ilha da Córsega – chegaram a proibir o burquíni. Os prefeitos que impuseram a proibição, em geral conservadores, dizem que a vestimenta, que deixa só o rosto, as mãos e os pés expostos, desafia as leis francesas que definem o caráter secular do Estado.

O debate sobre o burquíni é especialmente delicado na França, diante do número de ataques mortais de extremistas islâmicos, incluindo atentados à bomba e tiroteios em Paris, onde 130 pessoas foram mortas em novembro do ano passado, que acirraram as tensões entre as comunidades e deixaram a população temerosa de locais públicos.

A ministra para Assuntos das Mulheres do governo socialista, Laurence Rossignol, disse que a proibição municipal ao burquíni não deve ser vista no contexto do terrorismo, mas que ela aprova a decisão.

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“O burquíni não é uma nova linha de traje de banho; é a versão de praia da burca e tem a mesma lógica: esconder o corpo das mulheres para poder controlá-las melhor”, disse Rossignol ao jornal Le Parisien.

A França, que tem a maior minoria muçulmana da Europa, estimada em 5 milhões de pessoas, aprovou em 2010 uma proibição ao uso em público do nicab e da burca.

Rossignol disse que o burquíni causou tensões nas praias francesas por causa de suas dimensões políticas. “Não é apenas um assunto das mulheres que o usam, porque é o símbolo de um projeto político hostil à diversidade e à emancipação da mulher”, disse ela.

No sábado 13, houve uma discussão entre famílias muçulmanas e um grupo de jovens corsos em uma praia em Sisco. Não houve confirmação da polícia ou da promotoria local sobre se alguém na praia estava usando um burquíni no momento, mas o prefeito proibiu o traje na segunda-feira.

 Em outros ataques recentes na França, um tunisiano atirou deliberadamente um caminhão contra a multidão em Nice no dia 14 de julho, matando 85 pessoas, e um padre católico foi degolado na igreja por dois franceses muçulmanos.

Os ataques deixaram muitas pessoas ansiosas. No sábado, 41 ficaram feridas em uma correria na cidade de Juan-les-Pins, na Riviera francesa, quando turistas confundiram o som de fogos de artifício com tiros.

O prefeito de Villeneuve-Loubet, Lionnel Luca, que é membro da facção linha-dura Droite do partido Os Republicanos, disse que o burquíni é uma provocação ideológica.

“Desde o ataque em Nice, a população está especialmente sensível”, disse ele a Le Parisien. Luca afirmou que o traje de banho apresenta problemas de higiene e pode dificultar o salvamento no mar.

Na terça-feira 16, o Coletivo Contra a Islamofobia na França (CCIF) depositou uma queixa sobre as proibições junto ao Conselho de Estado, o tribunal administrativo superior do país. Na sexta-feira 26, a corte decidiu frear o ímpeto contra o burquíni, dizendo que a proibição é um "atentado grave contra as liberdades", na ausência de "risco evidente" para a ordem pública.

O porta-voz do CCIF, Marwan Muhammad, disse que as proibições restringem as liberdades fundamentais e discriminam as mulheres muçulmanas. “Neste verão estamos presenciando uma islamofobia política histérica que joga cidadãos uns contra outros”, disse ele.

*Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves