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Número 915,

Sociedade

História

Bernard Vassas, o homem dos equinócios

por Alvaro Machado, de Alcântara — publicado 24/08/2016 04h08
Entre o Brasil e o Vietnã, o francês propõe modelo cubano de preservação do patrimônio histórico
Alvaro Machado
Alcântara

A vislumbrar o País distante dos clichês turísticos

A moda de ilustres compatriotas precedentes, o francês Bernard Vassas aportou no Brasil, há 29 anos, necessitado de revigorar-se. No Rio de Janeiro, viveria um ano sabático, possibilitado por bolsa do Ministério das Comunicações de seu país. “Àquela época, o Brasil era muitas vezes confundido com a África”, diz, o riso solto ao ver sua trajetória comparada à do personagem de Jean-Paul Belmondo no filme O Homem do Rio, de 1964. Vassas, contudo, não se visualizava em enredo no qual havia caça de tesouro entre índios, antes estudava as mecânicas de produção do telejornalismo nos trópicos tristes. Enquanto isso, embebia-se da “civilização carioca” e decidia ficar.

Passou a intermediar internacionalmente transmissões de documentários e jogos. “O patrimônio natural e histórico, e aquele dos esportistas brasileiros, é muito admirado no exterior, fator de conquista sempre subaproveitado.”

Sua vida caminhava entre Rio, Miami e Londres, a abastecer canais de tevê europeus e norte-americanos com a produção de documentários sobre craques e belezas sul-americanas, quando, no alvorecer do século XXI, aportou no Maranhão. São Luís, fundada por franceses em 1612, tomada pelos portugueses dois anos depois, e Alcântara ascenderam-lhe o espírito desbravador.

“Havia potencial turístico nesse enorme conjunto pombalino, semelhante ao de Havana Velha, onde trabalhei em 2001. Alcântara é uma Paraty em lugar protegido como Paquetá. Um pequeno paraíso.” Contudo, tombados pela Unesco, os conjuntos maranhenses exibiam ocupações residenciais e comerciais predatórias, ruas inseguras e omissão de fiscalização, a permitir carga pesada junto a muros centenários, e esgoto a céu aberto próximo à maior construção barroca do Maranhão, a Igreja do Carmo, em Alcântara.

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'Gostaria de ver mais atitudes de luta no Brasil. A cultura do medo leva ao fracasso'

Na rua aos fundos do templo, adquiriu um edifício onde abriu pousada e agência de turismo, enquanto aguardou um tráfego crescente para a base local de lançamento de foguetes. Mas, em 2003, uma explosão matou ali 21 profissionais, vítimas da degradação de condições de trabalho e segurança. Desistir como, se agora se sentia mais brasileiro que francês? Junto aos órgãos de preservação reivindicou implementar a proposta de turismo qualificado que viu vitoriosa em Cuba, capaz de autofinanciar restauros e conservação das belas construções azulejadas.

Isso, raciocinava, atrairia a classe média, que, ao não encontrar nada mais que fotos de cartão-postal, nem mesmo um bom café, não voltava ao lugar. Mas ninguém se interessou por autossustentação dos edifícios históricos no estado dos latifúndios. “O patrimônio é visto como problema, mais do que vantagem”, reflete Vassas. “Depende-se de pareceres do instituto do patrimônio federal, contrariados pelo congênere estadual, que por sua vez se confronta com o respectivo órgão municipal, já que os partidos políticos são diferentes.”

O francês recomeçou então por outro caminho. Em Alcântara, com ramificações nos teatros e igrejas de São Luís, Bacabeira e Rosário, criou um festival anual de música clássica e antiga, financiado pelo BNDES e pela Lei de Incentivo à Cultura. Protagonizado por grupos brasileiros e estrangeiros de primeira água, o evento cumpriu seu quinto ano em julho.

E Vassas abriu um novo escritório de negócios com esporte e cultura brasileiros em setembro do ano passado. Desta vez, em outro clima tropical úmido, na maior cidade da República Socialista do Vietnã, Ho Chi Minh. Passou a dividir-se entre a ex-Saigon, o Rio e a outrora gloriosa França Equinocial, onde, em 1945, o etnólogo Pierre Verger testemunhou o rei São Luís de França “reencarnar”  em uma filha de santo da Casa dos Nagôs. 

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As ruas de São Luís que também abrigam o festival conduzindo há cinco anos por Vassas.

De nacionalidade francesa, Vassas nasceu na costa argelina, como o escritor Albert Camus, mas, em 1962, o movimento pela independência do país provocou o êxodo de sua família de vinheiros para Nîmes, no sul da França. “Aos 14 anos, eu já havia feito sozinho toda a Europa. Aos 16 fui à Turquia e ao Irã. Aos 19, à Índia e ao Nepal.”

Pós-graduou-se em jornalismo em Paris, foi correspondente do Le Figaro, mas acabou como o primeiro empresário de uma família de funcionários públicos.  Aos 58 anos diz-se impregnado da “energia positiva” da época de sua migração.

“Com o fim do regime autoritário, vi que o Brasil merecia ser conhecido para além dos clichês turísticos. Não estava de moda, mas já era emergente. Hoje minha relação é de amor e ódio, e tento devolver algo ao país que me permitiu reerguer, especialmente à gente carinhosa e sensível do Maranhão. Ao mesmo tempo, gostaria de ver mais atitudes de luta, de menos medo ante a pobreza e a violência na qual vive mergulhada essa gente. A cultura do medo e do não risco conduz ao fracasso.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 915 de CartaCapital, com o título "O homem dos equinócios". Assine CartaCapital.