Você está aqui: Página Inicial / Revista / Que festa é esta? / A ressaca da festa olímpica
Número 915,

Sociedade

Jogos

A ressaca da festa olímpica

por Miguel Martins, com Rodrigo Martins — publicado 21/08/2016 22h22
Fuga para as frustrações de 2016, as Olimpíadas chegam ao fim e o Brasil volta para sua triste rotina, no esporte e na política
Shannon Stapleton / Reuters
Rio01.jpg

Acostumados a torcer para esportes coletivos, os brasileiros exageraram nas vaias e trataram atletas adversários como inimigos, uma postura reveladora do atual estado do País

A pira se apagou neste domingo 21, mas o Brasil segue ardendo. No dia seguinte à cerimônia de encerramento das Olimpíadas do Rio de Janeiro, o País volta à sua trágica rotina. Os esforçados atletas brasileiros e suas medalhas, conquistadas mais por abnegação pessoal e menos por apoio e estrutura, dão lugar aos surfistas da política e suas manobras, jogadas e golpes nada olímpicos.

Em 25 de agosto, o julgamento definitivo do impeachment de Dilma Rousseff terá início no Senado. A provável consumação de seu afastamento deve deixar em segundo plano os louváveis Jogos Paralímpicos e acelerar reformas impopulares, entre elas, a previdenciária e a trabalhista.

As eleições municipais serão marcadas por discursos falaciosos de quem ajudou a sequestrar a soberania popular do País. Mais de 11 milhões de brasileiros seguirão desempregados no aguardo da retomada do crescimento econômico, prometido pela mídia e pelo mercado, apesar da ausência de indicadores positivos.

Em um ano traumático como o de 2016, o brasileiro procurou nas Olimpíadas um meio para fugir à rotina desastrosa. Na vaia, um velho recurso das torcidas de futebol, encontrou sua válvula de escape. Os apupos e xingamentos revezaram-se entre o protesto legítimo e a descompostura, reveladora dos ânimos pouco cordiais do brasileiro na atualidade, cada vez mais distante do estereótipo pacífico aventado por Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre. 

Alvo de ensurdecedoras vaias na abertura do megaevento, o presidente interino Michel Temer não mereceria tratamento diferente. A comemoração de erros de ginastas ou o bullying ao saltador francês Renaud Lavillenie revelaram, porém, um ufanismo radical pouco comum em Jogos Olímpicos, surpreendente para atletas e dirigentes afeitos a torcidas menos egoístas.

Acostumados a acompanhar esportes coletivos e insensíveis em relação ao esforço de atletas estrangeiros, os brasileiros transferiram para as provas individuais as grosserias e xingamentos, muitos deles homofóbicos, comuns aos estádios de futebol. O afã de vencer ao tratar o adversário como inimigo é revelador do atual estado do País.

Talvez os resultados tímidos do Brasil na história olímpica tenham favorecido a pressão exagerada da torcida por conquistas em casa. Nesse caso, cabe mais vaiar os responsáveis pelo Esporte no País: Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, e os ministros da pasta que passaram pelo cargo nos últimos governos.

Apadrinhado por João Havelange, morto na terça-feira 16, o cartola e o governo federal pouco se esforçaram para estabelecer uma política esportiva de longo prazo para democratizar o acesso da população ao esporte como forma de promover o bem-estar e a saúde. “A Rio-2016 é fruto de uma megalomania”, afirma o jornalista esportivo Juca Kfouri. “Não faz sentido pensar apenas em ganhar medalhas. O Ministério do Esporte deveria investir na democratização da prática esportiva.”

Vôlei
Com o apoio da torcida, a equipe de vôlei conquistou o último ouro do Brasil na Rio 2016 (Johannes Eisele/AFP)
Os investimentos prioritários em esportistas de alto rendimento apresentaram resultados positivos, mas nada impressionantes. A participação brasileira foi a melhor de sua história, mas a base de comparação é baixa. Bastariam seis ouros para o País superar sua melhor participação, registrada nos Jogos de Atenas em 2004, quando ficou em 16º lugar no ranking. Com o inédito ouro no futebol e o tricampeonato olímpico no vôlei, ambos na categoria masculina, o Brasil terminou os Jogos do Rio na 13ª colocação, tanto no critério de ouros conquistados quanto no total de medalhas. Foram 7 ouros, seis pratas e seis bronzes.

 

Sem levar em conta a cor das medalhas, foram 19 conquistas - resultado pouco superior ao de Londres 2012, quando o Brasil chegou ao pódio 17 vezes. O objetivo estabelecido pelo COB, de posicionar o País entre os dez primeiros do ranking, não foi alcançado. E nada garante um desempenho superior ou mesmo similar nas Olimpíadas de Tóquio, em 2020.

Especialistas e atletas alertam para a falta de incentivo às modalidades olímpicas nas escolas e de estrutura esportiva para crianças e atletas amadores se desenvolverem, pilares fundamentais do sucesso olímpico. “Mesmo que tenhamos nosso melhor resultado, não sabemos se conseguiremos manter esse padrão para os próximos Jogos”, alerta a ex-jogadora de vôlei Ana Moser, presidenta da ONG Atletas pelo Brasil.

Os programas Atletas de Alto Rendimento, uma parceria das Forças Armadas com o governo federal firmada no último mandato de Lula, e o Bolsa Atleta Pódio, criado por Dilma, contribuíram para o aumento da diversidade de modalidades que chegaram ao pódio.

O País conquistou medalhas inéditas no boxe, na canoagem e no salto com vara. Os esportistas beneficiários de um soldo de 3,2 mil reais das Forças Armadas, entre eles os medalhistas de ouro Robson Conceição, do boxe, e Rafaela Silva, do judô, foram determinantes para os resultados. O gesto de continência de atletas à bandeira brasileira, recorrente nos Jogos Pan-Americanos de 2015, repetiu-se no Rio.

RobsonConceicao.jpg
Robson Conceição: apoiado pelas Forças Armadas, ele prestou continência (Foto: Fernando Frazão / ABr)

Em um País continental e multiétnico, com mais de 200 milhões de habitantes, não falta capital humano para transformar a nação em uma potência. No atletismo e na natação, modalidades fundamentais para o sucesso nos Jogos Olímpicos, o Brasil teve resultado pífio, apesar da brilhante conquista de Thiago Braz no salto com vara.

Com 2 milhões de habitantes, a Jamaica conquistou mais de 70 medalhas de atletismo em sua história ao aproveitar o enorme potencial e apreço da população por provas de velocidade. Usain Bolt, tricampeão olímpico dos 100 metros e 200 metros rasos, foi descoberto na Champs, competição de divisões de base com grande cobertura da mídia local. No Brasil, há carência de torneios escolares e de divisões de base para a descoberta e amadurecimento de novos talentos.

UsainBolt.jpg
Tricampeão dos 100m e 200m, Bolt foi descoberto em competições de base na Jamaica (Foto: Carl de Souza / AFP)

Alguns surgem graças a projetos sociais e muitos enfrentam dificuldade nessa empreitada. Primeiro brasileiro a conquistar três medalhas em uma única edição das Olimpíadas, o canoísta Isaquias Queiroz fez críticas à política esportiva nacional. Descoberto no projeto Segundo Tempo, do Ministério do Esporte, em Ubaitaba (BA), sua cidade natal, Queiroz teve de se mudar para o Rio de Janeiro após o projeto ser descontinuado.

“Essa medalha tem um significado especial por ter vindo de um projeto social, mas me dá tristeza ver que isso acabou no Brasil. Se vocês tiverem como tirar fotos dessa medalha, mostrem aos nossos políticos no Planalto para que eles parem de brigar entre si e continuem a buscar novos atletas”, disse. “Os EUA são uma potência no esporte porque lá existe incentivo do governo”.

Inacessível a muitos países por sua estrutura complexa, a natação brasileira segue restrita a clubes da classe média e alta, que por vezes nem sequer possuem piscinas adequadas à preparação de nadadores de alto rendimento. No Rio, a delegação brasileira contou com 33 atletas. O país quebrou o recorde de números de finais (esteve em oito delas), mas apenas cinco nadadores conseguiram obter as melhores marcas de suas carreiras durante os Jogos, o que se espera de atletas olímpicos. Pela primeira vez desde 2004, o Brasil não conquistou medalhas nas piscinas, sinal da fragilidade do trabalho do COB e do governo federal em relação à modalidade.

Além da baixa oferta de locais de treino e da desvalorização das divisões de base, a educação física não parece ser uma prioridade. Ao menos 30% das escolas brasileiras não possuem espaços destinados à prática esportiva, segundo pesquisa do Ibope encomendada pela ONG Atletas pelo Brasil em 2012. No Nordeste, metade das unidades não conta com qualquer espaço destinado a atividades físicas. Apenas 55% das escolas têm quadra esportiva, das quais 38% cobertas.

O Reino Unido é um exemplo de como os resultados positivos dependem do incentivo ao esporte nas escolas. Os britânicos adotaram um projeto de legado esportivo sustentado na ampliação da carga horária da educação física nas escolas e na consolidação de uma estrutura voltada para amadores e crianças. O resultado é visível: o Reino Unido ficou em segundo lugar no quadro de medalhas na Rio-2016, embora tenha uma população muito inferior aos Estados Unidos e à China.

AnaMoser_.jpg
Bronze em Atlanta, Ana Moser aponta a baixa oferta de educação física nas escolas como entrave para o País se tornar potência olímpica (Foto: Edu Moraes)
Medalhista olímpica em Atlanta-1996, Ana Moser afirma que os estudantes britânicos chegam a ter cinco horas de educação física em 100% das escolas, enquanto no Brasil a média é de duas horas. “Em Londres, muitos atletas ganhadores de medalhas vieram do interior da Inglaterra, e não dos grandes centros”, lembra a ex-atleta. “O objetivo principal era ampliar a participação social dos jovens. Com esse formato democrático, o esporte tem um poder transformador. ”

A atleta critica a visão de que a mera realização das Olimpíadas incentiva a prática esportiva no País. “Investir em equipamentos para esportes de alto rendimento ou em programas de apoio tem impacto limitado. E muitas das estruturas olímpicas são temporárias. Digamos que alguém se interesse em praticar rúgbi após os Jogos. Aonde vai treinar, se a arena erguida não será dedicada ao esporte no fim das Olimpíadas?” 

A maioria dos estádios erguidos para a Rio-2016 é provisória. Como legado, restará a piscina do parque aquático, prevista para ser realocada no Parque Madureira, e a promessa da conversão de duas arenas em centros de treinamento e excelência esportiva. O estádio de rúgbi é pretendido pelo Flamengo para a construção de mais um estádio de futebol. A Arena de handebol deve virar quatro escolas. A inciativa privada terá o controle de 75% do terreno do Parque Olímpico, provavelmente destinado a promover o avanço da especulação imobiliária com a construção de condomínios e prédios de luxo.

Maria Tereza Silveira Böhme, professora da USP especializada em detecção, seleção e promoção de talentos, afirma que o País perdeu uma grande oportunidade de ampliar o papel da escola na formação esportiva. Segundo a especialista, grande parte dos clubes tem aberto mão dos chamados militantes, atletas que se associam para competir pela agremiação, em favor de sócios capazes de injetar recursos. “A criançada está morrendo na praia. Assim como a educação está definida pela Lei de Diretrizes e Bases, o esporte deveria ter uma legislação semelhante, que defina competência para as três unidades de governo e as federações.” 

Tereza participou de uma pesquisa com 16 países para avaliar as condições do sistema esportivo brasileiro. Segundo levantamento da USP, o Brasil tem picos de investimentos em esportes de alto rendimento apenas em anos de competições importantes.

Em 2007, quando foram realizados os Jogos Pan-Americanos do Rio, gastaram-se 3,22 reais por habitante para modalidades de alto rendimento. Naquele ano, os atletas de ponta receberam 41% dos recursos destinados ao esporte. Em 2011, o valor caiu para 1,25 real por habitante. 

A pesquisa aponta que o suporte financeiro e o desempenho em competições no Brasil são os pilares mais desenvolvidos do sistema esportivo nacional. O País atende a quase metade dos fatores críticos de sucesso, medida utilizada para avaliar a estrutura, em ambos os quesitos.

Em relação ao esporte de base, apenas 24% dos fatores críticos são observados. As instalações brasileiras atendem em apenas 11% os critérios necessários para o sucesso. Em último lugar, a detecção de talentos não contempla integralmente qualquer requisito para a excelência.

Dono de 28 medalhas, sendo 23 de ouro, Michael Phelps tornou-se o maior vencedor olímpico da história ao usufruir da excepcional estrutura esportiva norte-americana nas escolas e centros universitários. Formado em Gestão Esportiva pela Universidade de Michigan, o atleta desenvolveu seu talento nas piscinas do local.

Os nadadores brasileiros de sucesso costumam construir sua carreira no exterior. Gustavo Borges, dono de quatro medalhas olímpicas, era aluno e atleta na mesma universidade de Phelps. Já César Cielo, único campeão olímpico da história da natação brasileira, estudou e treinou na Universidade de Auburn, no estado do Alabama. 

Phelps.jpg
No Rio, Phelps chegou a 23 ouros e consolidou-se como maior vencedor da história dos Jogos (Gabriel Bouys / AFP)

As conquistas de Cielo e de outros atletas brasileiros não costumam ser acompanhadas de um trabalho para aproveitar seus resultados expressivos, lembra Kfouri. “No tênis, tivemos os fenômenos Maria Esther Bueno e Gustavo Kuerten, com conquistas formidáveis, mas não houve qualquer estímulo à disseminação da prática no Brasil. Quando teremos um novo campeão?” 

A depender do casuísmo dos investimentos esportivos no País e da frágil estrutura, a delegação brasileira seguirá dependente dos centros estrangeiros e, principalmente, da superação individual dos atletas brasileiros.