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Número 913,

Sociedade

Olimpíadas

Rio 2016: as origens olímpicas

por Wálter Maierovitch publicado 10/08/2016 04h15
A propósito do "credo olímpico", um grave esquecimento: São Paulo falou antes do barão de Coubertin
Fernando Frazão/ Agência Brasil
Paes

No anúncio oficial da escolha do nosso país como sede da Olimpíada, o prefeito Paes enriqueceu seu festival de bobagens: " Demos uma chinelada nos paulistas".

Os Jogos Olímpicos nasceram em 776 a.C., com a vantagem de não existir um populista-trapalhão do tipo Eduardo Paes. No anúncio oficial da escolha do nosso país como sede da Olimpíada, o prefeito Paes, na primeira fala, estufou o peito e, em vez de celebrar os jogos no Brasil,  regionalizou e enriqueceu o seu festival de bobagens: “Demos uma chinelada nos paulistas”. 

Bem antes da primeira Olimpíada, as competições empolgavam conforme atestado pela tradição e escritos mitológicos, pois os deuses também imitavam os hábitos esportivos dos mortais. Homero nos conta da corrida de bigas idealizada por Aquiles em homenagem ao falecido amigo Pátroclo.

Não falta o registro da prova em que Antíloco, com cavalos fogosos, deu uma “fechada” em Menelau, rei de Esparta, e cruzou a faixa de chegada em segundo lugar. Os árbitros desse “grande prêmio” de antigamente desclassificaram o desleal competidor e o segundo diadema de folhas de oliveira em importância repousou na cabeça de Menelau.

Na Grécia antiga, os atletas começaram amadores, não existia doping e a vitória conduzia à glória. Era o caminho para a ascensão social e contava apenas o valor atlético. O historiador Plutarco revela ter partido do estadista Sólon, um dos sete sábios da Antiguidade clássica, a iniciativa de premiar o vencedor em moeda: 500 dracmas.

A partir daí, começou o “profissionalismo mascarado” nas Olimpíadas e a falta de paridade, dada a grande quantidade de atletas amadores. Pouco depois, o campeão olímpico passou a ser isento de pagar impostos e teve garantida pensão alimentar perpétua.

Como o vencedor conferia prestígio à sua cidade, ele passava, comparado aos dias atuais de Estatutos e CLT, a um tipo sui generis de funcionário público, com dedicação exclusiva ao esporte, sem preocupações financeiras. Não existia nessa época a dupla cidadania, algo comum de se ver em competições nos séculos XX e XXI.

Em especial no futebol e com seleções nacionais recheadas de jogadores naturais de outros países. E como não existia a dupla cidadania, Ástilo de Crotona, no século V, deu-se mal. Ele participou de três Jogos Olímpicos e venceu três vezes, só que uma por Crotona e duas por Siracusa.

Foi considerado mercenário, ou melhor, que se vendia para participar das disputas com as cores de um lugar. Como consequência, a sua moradia transformou-se numa espécie de prisão domiciliar, uma vez que não podia mais sair às ruas, dada a fúria provocada pela indignação popular.

Substâncias anabolizantes e dopantes não eram conhecidas e a crença, como revelado na Teogonia, de Hesíodo (mesmo período de Homero: 750 a 650 a.C.), era de o atleta vencedor ter a aprovação de Hécate, a deusa da magia: só ganhava quem Hécate quisesse, ou seja, não adiantava ingerir por conta própria as poções das bruxas.

Ao que parece, Hécate mudou para a Rússia de Putin e andou usando as suas magias para ajudar atletas daquele país, que foram desqualificados das disputas da Rio-2016: não há menção a ter o prefeito Eduardo Paes convidado os atletas russos barrados para competir em Maricá, que chamou de “merda de cidade”.

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Na primeira Olimpíada, o competidor com vantagens não naturais era desclassificado. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Na primeira Olimpíada, o competidor com vantagens não naturais era desclassificado. No ano de 720 a.C., no curso da XV Olimpíada, houve um problema com Orsipo de Megara, por ter a sua túnica se aberto e facilitado seus movimentos na corrida. O vencedor não foi desclassificado, mas, na XVI Olimpíada, os corredores se apresentaram nus e assim se deu a prova, mantida a igualdade.

Ainda na Antiguidade, coube ao escritor e poeta grego Píndaro (552-443 a.C.) deixar registrado o fato de ser vergonhoso não vencer, ao contrário do “credo olímpico” proclamado dois milênios e muitos séculos depois pelo barão Pierre de Coubertin, para quem o que importa é competir.

A propósito, ingleses e estadunidenses se estranhavam e litigaram feio nas vésperas dos Jogos de Londres, em 24 de julho de 1908. Na Grafton Gallery foi realizado um banquete comemorativo aos Jogos, e pela primeira vez, Coubertin soltou o tal “credo olímpico”, na origem um discurso conciliador: “O importante nestes Jogos não é vencer, mas tomar parte deles”.

Poucos antes, tinha sido celebrada missa solene na londrina Catedral de São Paulo. Na homilia para os atletas, o prelado Ethelbert Talbot, bispo presbiteriano da Pensilvânia, alertou, com base na Carta aos Coríntios do apóstolo Paulo, “os Jogos em si valem mais do que as provas e os prêmios”.

De todo modo, o “credo olímpico” apareceu pela primeira vez e entre aspas no painel dos Jogos de Los Angeles de 1932 e ficou sendo da lavra de Coubertin. O barão, na sua última Olimpíada, em Berlim (1936) e sob comando do Terceiro Reich, repetiu em sonoro francês, sem menção a São Paulo. 

*Publicado originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "Rio 2016 o tempora, o mores". Assine CartaCapital.