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Número 913,

Economia

Opinião

Os doutores da grana e a taxa de câmbio

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 12/08/2016 04h57
A doença da valorização do real deve seguir seu curso natural sem a interferência nociva do governo, dizem eles
Arnaldo Alves / ANPr
Industria

Os benefícios da abertura da economia dependeram fundamentalmente de políticas nacionais de fomento industrial

Sujeitos às mudanças de humor dos capitais vagabundos, os emergentes sacodem o esqueleto entre as ilusões do otimismo e as decepções das “paradas súbitas”. Na euforia, as bolsas comemoram e a taxa de câmbio detona a competitividade da manufatura. Quando sobrevém o pessimismo, as consequências são funestas: desvalorizações agudas do câmbio, balanços “avermelhados” das empresas e bancos que se endividaram em moeda estrangeira, choque inflacionário, queda de salários reais e recessão.

Certa vez, registrei num artigo publicado em CartaCapital as observações de Machado de Assis sobre o câmbio. Na crônica de 8 de março publicada em A Semana, no ano da graça de 1896, Machado contava que “um economista apareceu lastimando a sucessiva queda do câmbio e acusando por ela o ministro da Fazenda. O grande escritor logo se indispõe com o câmbio, “inimigo sorrateiro e calado, já está em oito e tanto e ninguém sabe onde parará; é capaz de nem parar em zero e descer abaixo dele uns oito graus ou nove...

O mal do câmbio parece-se um pouco com o da febre amarela, mas para a febre amarela, a magnésia fluida de Murray, que até agora só curava dor de cabeça e indigestões, é específico provado neste verão, segundo leio em placa de ferro. Que magnésia há contra o câmbio?”

Money Doctors: assim eram chamados os conselheiros a serviço da haute finance que perambulavam pela periferia entre o último quartel do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Nesse período, a finança internacional dedicou-se com esmero aos solavancos cíclicos nos países periféricos. A presença dos doutores era mais ostensiva nos momentos, nada raros, de queda nos preços dos produtos primários, crise do balanço de pagamentos e estrangulamento cambial.

In illo tempore, os doutores da grana eram estrangeiros ligados aos grandes bancos europeus, ingleses em sua maioria. Hoje progredimos: os Esculápios da finança contemporânea que aconselham os emergentes são nativos treinados na academia americana. Uma vitória do Novo Mundo sobre o Velho. 

Leio e ouço na mídia tupiniquim as opiniões de conhecidos e reputados money doctors da nova geração, aviando receitas para os achaques do câmbio. Recomendam que a doença da valorização da moeda local siga seu curso natural, sem interferências daninhas do governo. Outros facultativos do dinheiro poderiam redarguir que, a despeito das mezinhas ministradas em doses razoáveis nos últimos tempos, o doente não apresenta sinais de melhora. Muito ao contrário, alguns órgãos, para júbilo dos money doctors, já emitem sinais de falência, como é o caso da indústria manufatureira.

Entre os dissidentes há quem atribua o surto recente de valorização das moedas inconversíveis aos investidores encharcados de liquidez em moeda forte que buscam escapar dos baixos rendimentos oferecidos nas economias centrais. Na opinião desses amaldiçoados, em tais circunstâncias os gestores da riqueza líquida aceleraram o carry-trade entre as ínfimas taxas de juro dos países desenvolvidos e as confortáveis e recompensadoras remunerações oferecidas pelos mercados brasileiros.

Os doutores mais ousados da corrente dominante chegam a diagnosticar a inexistência de relações entre os juros e o câmbio numa economia aberta e exposta aos movimentos de capitais. Arautos da boa morte, os cientistas ignoram os custos das paradas súbitas e advertem que os juros têm de estar estritamente apontados para a inflação.

O Brasil tem uma combinação câmbio-juro favorável às formas estéreis e socialmente perversas de arbitragem e de especulação com os preços dos ativos. Além de outras inconveniências óbvias, a valorização do real é um chute no traseiro dos empresários brasileiros, convidados a mover suas fábricas para outras paragens. Assim, é cada vez maior o risco de regressão da estrutura industrial.

Os arraiais da mesmice clamam pela maior abertura da economia, como a receita infalível para os ganhos de produtividade. Porém, as estratégias de localização espacial das empresas dominantes e a formação das celebradas cadeias globais de valor sugerem: os benefícios da abertura da economia – tais como absorção de tecnologia, adensamento de cadeias industriais, crescimento das exportações – dependeram fundamentalmente de políticas nacionais de fomento industrial.

Dentre os emergentes, cresceu mais e exportou ainda melhor quem conseguiu administrar uma combinação favorável entre câmbio real competitivo e juros baixos, acompanhada da formação de redes domésticas entre as montadoras e os fornecedores de peças, componentes, equipamentos, sistemas de logística. 

*Publicado originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "Os doutores da grana"