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Número 913,

Cultura

Música

Baden Powell, das entranhas

por Ana Ferraz publicado 12/08/2016 11h58
Cinco gravações inéditas do músico, num sarau de 1959, mostram que aos 23 anos ele já era um grande talento
Acervo Baden Powell/Instituto Moreira Salles
Baden

Baden, um músico visceral, cujo violão é um prolongamento dos braços, definiu Vinicius

Na década de 1950, as noites de sexta-feira eram animadas no amplo apartamento do casal França na carioca Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema. Neusa, pianista de prestígio, ex-assistente de Magda Tagliaferro e pioneira no ensino de música em Brasília, e o marido, o advogado Oswaldo, promoviam concorridos e vibrantes saraus que só terminavam no café servido às 9 horas do sábado. Juristas, poetas, ministros, músicos, diplomatas, romancistas, novos artistas e veteranos eram ali recebidos com entusiasmo e generosidade. Jacob do Bandolim, Pascoal Carlos Magno, Francisco Mignone, Claudio Santoro, Nelson Freire e Tia Amélia estavam entre os muitos frequentadores assíduos.

Numa dessas históricas soirées, Lamartine Babo trouxe como convidado um violonista extremamente tímido, que quase ninguém conhecia, considerado pelo compositor de inesquecíveis marchinhas um intérprete de enorme qualidade. O jovem chegou discreto, o corpo meio encolhido a denunciar o desconforto diante de seleta plateia, a fala monossilábica.

Coube a Lamartine encorajar o novato a estabelecer uma conversação mínima e dedilhar o violão. A audição começou por Serenata do Adeus, de Vinicius de Moraes, prosseguiu com Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso, continuou com a valsa Insônia, composição própria, passou por uma música cuja autoria ainda é um mistério e foi encerrada com a Valsa Op 8 nº 4 de Agustín Barrios. O preciosismo da interpretação personalista do jovem arrancou um bravo da anfitriã e calorosos aplausos dos convivas. O novato acanhado era Baden Powell

O registro daquela noite em 1959, única passagem do violonista pela casa dos França, acaba de vir à tona graças ao empenho do pianista, pesquisador e diretor do Instituto Piano Brasileiro, Alexandre Dias, curador do acervo de Neusa França. “São aproximadamente 45 fitas de rolo e cerca de 500 fitas cassete em fase de digitalização. Esse material precioso foi gravado a partir de 1957 pelo marido da compositora. O apartamento do casal era um polo agregador de cultura, onde eram recebidos semanalmente músicos de convívio da família, incluindo pianistas concertistas e populares, cantores, violonistas, sambistas e chorões.” 

Mesmo habituado a trazer tesouros à luz, Dias considerou surpreendentes as gravações inéditas de Baden, cuja divulgação deixou a cargo do curador do Acervo Digital do Violão Brasileiro, Alessandro Soares. “É uma descoberta superlativa de um artista superlativo”, avalia o criador do acervo, violonista e garimpador musical há 25 anos.

Soares acredita que a interpretação de Serenata do Adeus já revela a maneira muito própria de Baden tocar. “É valioso ouvi-lo aos 23 anos, em gravação caseira num sarau. Acho incrível ele ter registrado essa linda valsa numa fita de rolo antes de gravar o primeiro LP.” Àquela altura, bossa nova consolidada, Baden já tinha acompanhado muita gente e habitava uma dimensão própria, à prova de classificações. 

“Baden é um mão forte, ele não é um-cantinho-e-um-violão. Embora tenha popularizado muitas músicas da bossa nova, sempre esteve ligado a muitas coisas, nunca coube numa definição”, diz Soares. Sua impressão ao ouvir Na Baixa do Sapateiro é de que a interpretação doméstica é melhor que a registrada no disco de estreia, Apresentando Baden Powell e Seu Violão (1960). “O Jorge Mello diz que ali tem até um pouco de Garoto”, afirma, em referência ao biógrafo do excepcional instrumentista e compositor Aníbal Augusto Sardinha.

Neusa França 4 - crédito Rodrigo Oliveira.jpg
Neusa França, anfitriã de saraus memoráveis. (Rodrigo Oliveira)

Outra boa surpresa emergida do baú dos França é a pouco conhecida Insônia, de autoria do violonista, e a execução da valsa de Barrios. “Trata-se de um dos melhores compositores de todos os tempos, tardiamente redescoberto. Era paraguaio e veio muito ao Brasil, influenciou muita gente, conviveu com João Pernambuco e Jaime Florence, o Meira.”

Coube ao pernambucano Meira dar as primeiras aulas a um Baden ainda tão pequeno e franzino que o dedo tinha de ser conduzido pelo mestre para alcançar determinadas cordas, conforme conta Dominique Dreyfus em O Violão Vadio de Baden Powell. “Meira adorava esse aluno cuja fome de aprender não tinha limites e que, ‘ao contrário dos outros alunos, não se contentava com o que sabia’.”

Companheiro de arte e copo e anfitrião do violonista em Paris, Vinicius de Moraes considerava-o “um músico absolutamente visceral. O violão é um prolongamento de seus braços e tudo o que ele toca vem-lhe da carne, do sangue, das entranhas”, escreveu o poeta em 1964, no Diário Carioca. Em outra crônica, revela a alma abalada do intérprete diante de proposta de um empresário. “Poeta, não deixa eu ser um concertista não... Eu não quero esse troço não... Eu quero é fazer isso que faço, misturar popular com erudito, tocar Bach em forma de jazz, compor com você, escutar o Tonzinho, essa coisa...”

Soares realça ao menos três características fortes de Baden, técnica apuradíssima, estilo único, “umas pegadas de mão direita, fazer uma corda solta que influenciou muita gente”, e grande talento para criar melodias, realçado pelos afro-sambas, muitos produzidos durante as periódicas internações de Vinicius, quando o violonista levava escondido o “divino centeio”.

O pesquisador empolga-se com o desafio imposto pela quarta canção tocada no sarau em Ipanema, “música de viés meio clássico, meio uma balada. Não se sabe o título nem a autoria. Mostramos ao Marcel Powell, filho de Baden, ele não conhece a música, mas acredita ser do pai”. 

Testemunha privilegiada desse e de inúmeros outros saraus, Magda França, filha de Neusa e Oswaldo, tinha 13 anos quando presenciou a apresentação de Baden. “Era timidésimo, uma coisa bárbara, com aquele violão discretinho. Naquela noite havia muita gente em casa. Quem registrou foi papai, ele tinha mania de gravar tudo. O acervo é enorme e foi confiado a Alexandre Dias, ex-aluno de mamãe. Há muita coisa ainda para classificar, cada fita de rolo tem quatro trilhas.” 

Dias e Soares, ardorosos militantes da causa da música brasileira, nutrem-se mutuamente de informações. Nesta semana, o Instituto Piano Brasileiro tirou do baú dos França um choro inédito de João Pernambuco. A colaboração ajuda a enriquecer o portal que Soares colocou no ar em 2014. A plataforma é a concretização de um trabalho de pesquisa iniciado na juventude, cuja semente brota na infância em Pernambuco, em que o patriarca cantor de rádio e violonista acompanhava astros como Dolores Duran e Blecaute. 

Antes de lançar o acervo, muitos foram os fatos a lhe iluminar o caminho certo. O encontro com o violonista Henrique Annes, dono de vasto material, e Conceição Dias, uma das poucas, senão a única mulher a tocar violão no rádio em Recife, cujo marido mantinha um acervo de gravações em fitas de rolo, alvoroçou-lhe mais o apetite pela pesquisa. Em Brasília, Soares aproximou-se da turma do Clube do Choro, onde conheceu Marcos Pereira, Guinga, Paulo Bellinati e outros bambas. 

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Soares faz suas as palavras de Gilberto Gil: "O povo também quer o que não sabe" (Gustavo Moreno/D. A. Press)

A quantidade de material recolhido e a perspectiva atroz de ver se perder uma fatia da história da música aceleraram os esforços para concretizar o Acervo Digital do Violão Brasileiro. A urgência implicou adiar a conclusão do livro Acordes do Rádio, ampla pesquisa sobre violonistas do Nordeste, com lançamento previsto para 2017. 

O acervo reúne partituras exclusivas, um inédito e primoroso Dicionário do Violão Brasileiro, fotos, vídeos e gravações históricas de rádio. À espera de verba para publicação está o registro bruto de importantes violonistas pouco conhecidos.

O pesquisador frisa ter o cuidado de não se restringir a um museu do violão e para tal provocar coisas novas. Entre elas, um concurso de composições, cujo resultado é a produção de CD e álbum de partituras. “O Gilberto Gil tem uma frase que gosto muito, ‘o povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe’.”

*Reportagem publicada originalmente na edição 913 de CartaCapital, com o título "Das entranhas". Assine CartaCapital.