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Número 912,

Sociedade

Projeto

O sonho coletivo da volta à África

por René Ruschel — publicado 04/08/2016 04h02
Angolanos cegos alfabetizados no Brasil há 15 anos planejam voltar ao país de origem e fundar escola para deficientes visuais
René Ruschel
Wilson

"Éramos crianças, cegos, indo sozinhos para um país que não conhecíamos"

De Curitiba

Em 2001, em plena guerra civil, o governo de Angola, na costa ocidental da África, criou um projeto para um grupo de deficientes visuais analfabetos e sem perspectivas sociais. A iniciativa era modesta, mas para uma nação arrasada pela violência valia qualquer esforço. Dezoito angolanos com idades entre 7 e 15 anos foram escolhidos para viver no Brasil.

Além de fugir da guerra e ter a esperança de encontrar uma possível cura para a cegueira, o objetivo do grupo era aprender o método Braile, até então desconhecido no país, técnicas de informática adaptada e educação especial, como a capacidade de caminhar sozinhos pelas ruas com auxílio de bengala. Dos selecionados, 11 ficaram em Curitiba e 7 foram para Florianópolis.

Entre os escolhidos estava Wilson Antonio Capingana André Madeira Bantu, ou simplesmente Wilson Bantu, natural de Sumbe, capital da província de Kwanza-Sul, o mais velho do grupo, então com 15 anos.

“A escolha foi aleatória. Eu era conhecido na cidade porque aos domingos cantava na rádio comunitária local e nos outros dias, na falta do que fazer, caminhava pelas ruas”, lembra Bantu. A princípio seus pais resistiram à viagem, mas ele insistiu até convencê-los. “Meu sonho era aprender a ler e escrever. Viver como analfabeto seria terrível. Aceitei na hora vir para o Brasil.”

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Bantu, Maurício e Jacob, acolhidos em um abraço ao chegar (Foto: Arquivo Pessoal)

Bantu ficou cego aos 4 anos, vítima de um estilhaço de granada. Seu pai, militar, era do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA). Um integrante do grupo rival União Nacional para Independência Total da Angola (Unita), residente no mesmo bairro, deu aos filhos de simpatizantes do MPLA uma granada como brinquedo. “Tive mais sorte, pois ao me afastar do grupo a bomba explodiu. Morreram diversos amigos, inclusive adultos.” 

O grupo selecionado encontrou-se no aeroporto no dia do embarque. Os custos com traslado e manutenção no Brasil foram de responsabilidade do governo de Angola. “Éramos crianças, cegos, indo sozinhos para um país que não conhecíamos. Lembro que alguém disse: ‘Agora vocês são uns pelos outros. Uma família. Não se dispersem’.” Eles seguiram o conselho à risca.

Em Curitiba, foram morar em uma instituição filantrópica voltada a cegos ou pacientes com baixa visão. O primeiro contato com o mundo exterior foi a escola. Matriculados no ensino regular, enfrentaram a difícil situação de conviver com uma realidade muito distante de suas origens. “A começar pelo clima. Saímos da África para enfrentar o frio de Curitiba.”

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Maurício, Bantu e Jacob, 15 anos depois (Foto: René Ruschel)

Em 2011, deixaram a instituição para dividir uma casa. Em 2014, o governo angolano parou de subsidiar o projeto, mas o grupo decidiu permanecer no Brasil. Dos 11 restam 9, um morreu e uma moça se casou, todos com formação universitária em Direito, Jornalismo, Computação, Pedagogia, Psicologia e Educação Física.  

Desde que chegaram, há 15 anos, não reencontraram os familiares. Em 2005, o coral criado no Brasil foi se apresentar em Luanda, capital de Angola, mas em razão da guerra civil não obtiveram notícias dos parentes.

“Soube depois que, no dia em que estávamos cantando, meu pai era velado em minha cidade”, conta Bantu. Agora o grupo se comunica pela internet e apenas um dos integrantes não teve notícias da família. O sonho coletivo é retornar à África. Vieram juntos, querem voltar juntos e fundar uma escola especial para cegos. “Como uma família, construímos nossa história no Brasil.

No futuro, vamos devolver aos nossos irmãos angolanos o que aprendemos. Seremos eternamente gratos aos brasileiros.” Em razão do projeto, Bantu trocou o terceiro ano de Psicologia pelo curso de Pedagogia. 

Para ele, o milagre da vida é a capacidade de se sobrepor às dificuldades de quem veio de longe em busca de esperança. A maior delas é superar o duplo preconceito, contra a raça e a deficiência. “Somos felizes”, garante o porta-voz da trupe. Permanecem unidos porque acreditam que assim são mais fortes.

O grupo educacional Uninter, em Curitiba, acolheu-os com bolsas de estudo e trabalho. Enquanto isso, Bantu sonha em voltar à terra natal, caminhar pelas ruas, nadar nos rios e no mar, como fazia há 15 anos. Guarda lembranças da infância, da cidade, dos amigos. Mas a que permanece mais viva é a imagem de seus pais, que enxergou pela última vez quando tinha 4 anos. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 912 de CartaCapital, com o título "Um sonho coletivo". Assine CartaCapital.

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