Você está aqui: Página Inicial / Revista / Terror à brasileira / HIV: Prevenção da transmissão
Número 912,

Saúde

Opinião

HIV: Prevenção da transmissão

por Drauzio Varella publicado 08/08/2016 04h53
Medicamentos anti-Aids diminuem o risco do vírus também para os parceiros de quem já foi infectado
iStockphoto
HIV

Em 1995, a prevalência do HIV no Brasil era semelhante à da África do Sul

Alguns estudos levantaram a suspeita de que os medicamentos anti-HIV reduzem o risco de transmitir o vírus para parceiros sexuais.

O estudo multinacional HPTN 052 foi desenhado para avaliar o impacto dos antirretrovirais na transmissão do HIV. Nele, 1.763 casais discordantes (um infectado, o outro não), matriculados em 13 centros de nove países, foram divididos em dois grupos.

1. Intervenção precoce (886 casais): grupo que recebeu antirretrovirais assim que o participante entrou no estudo.

2. Intervenção tardia (887 casais): quando eles foram prescritos somente depois de a contagem de células CD4 no sangue cair abaixo de 250 ou ao surgirem as doenças típicas da Aids.

As primeiras análises mostraram que, em relação ao grupo de intervenção tardia, o tratamento precoce reduziu em 96% o risco de transmitir o HIV para o(a) parceiro(a) sexual.

Com base nesse achado, em maio de 2011 os organizadores decidiram prescrever os medicamentos para todos os participantes que ainda não os recebiam.

A atualização dos dados do HPTN 052 acaba de ser publicada no The New England Journal of Medicine. Até agora estão documentadas 78 novas infecções pelo vírus, número ao qual corresponde uma incidência de 0,9%.

Foram 19 transmissões no grupo de intervenção precoce ante 59 no de intervenção tardia.

Os pesquisadores conseguiram analisar os genes dos vírus em 72 dos 78 casais infectados. A comparação deixou claro que em 26 casos, o vírus apresentava padrão genético não compatível com o do(a) parceiro(a) participante do estudo. Em outras palavras, cerca de 30% tinham contraído o HIV em relações extraconjugais.

Entre os 46 infectados em que houve compatibilidade genética, três pertenciam ao grupo de tratamento precoce e 43 ao tardio. 

No final, os dados atualizados revelaram que a intervenção precoce reduziu 93% do risco, quando comparada à tardia.

No decorrer do acompanhamento aconteceram oito transmissões quando o parceiro infectado ainda não tinha completado três meses de tratamento, fase em que a carga viral não estava indetectável.

Como seria de esperar, participantes que apresentavam cargas virais elevadas no início do seguimento transmitiram o HIV com mais facilidade.

Os resultados finais do HTPN 052 confirmam definitivamente que a medicação antirretroviral é capaz de reduzir a transmissão do HIV tanto em casais heterossexuais quanto em homossexuais.

Em 2015, a Organização Mundial da Saúde revisou as recomendações anteriores, para incluir o teste universal anti-HIV e instituir o tratamento antirretroviral imediato em todas as mulheres e homens HIV-positivos, independentemente da contagem de células CD4. 

Em 1995, quando surgiram os primeiros antirretrovirais de alta eficácia, a prevalência do HIV no Brasil era semelhante à da África do Sul. Nós adotamos a política de distribuição gratuita de medicamentos, eles não. Hoje, 10% dos sul-africanos adultos são HIV-positivos, ante 780 mil brasileiros. 

Se estivéssemos na situação deles, teríamos de 17 milhões a 18 milhões de infectados. 

registrado em: , ,