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Número 912,

Cultura

Papinho Gourmet

Café é com japonês

por Marcio Alemão publicado 05/08/2016 12h08
É sabido que japonês é o povo que mais entende de café no planeta
Ilustração: Milena Branco
Papinho Gourmet

Admitir devemos que todo esse movimento nos trouxe melhores pós, melhores blends

- Vivendo e aprendendo, até na hora de tomar café.

– Café, pois é. É outra coisa que os professores, os mestres do paladar apuradíssimo, estão conseguindo arruinar com suas regras.

– Já falei centenas de vezes, mas não resisto em repetir: tudo marketing. Agregar valor, agregar mentiras, desconstruir séculos, impor regras.

– Perturba-me sobremaneira a revelação de que minha avó e minha mãe, que faziam um café delicioso, nunca souberam fazer café. 

– Por tabela, você nunca passou de um ignorante boca de cabra que apreciava aquele equívoco.

– Nesse tema já me acostumei. Meu passado gastronômico de nada vale ou serve. Nunca soube comer macarrão, tomar cerveja, vinho, feijão, carne de porco. Sempre estivemos errados, fazendo asneiras. 

– Pois, eu te digo que me cobraram 10 reais por uma xícara de café coado no coador Hario.

– Não conheço.

– Porque você é um desinformado que não faz a menor ideia de como preparar e tomar café. Hario, em japonês, significa O Rei do Vidro. Fazem coadores de vidro, o receptáculo, e um papel que filtra mega, extra, blaster especial.

– Agora tudo se esclareceu. É sabido que japonês é o povo que mais entende de café no planeta. Mas e aí? Gostou?

– O café fica gostoso. Mas por ele eu não teria pago mais que 2 reais.

– Pagar 10 reais numa xícara de café, ainda que tivesse sido coado no bojo do sutiã da Mona Lisa ou, que Deus me perdoe, no Santo Sudário, não faz sentido.

– Até isso conseguiram, repetindo o que já dissemos: tomar café tá ficando chato.

– Admitir devemos, usando a linguagem de Mestre Yoda, que todo esse movimento nos trouxe melhores pós, melhores blends.

– Quanto a isso não tenho dúvida. Andamos milhares de milhas nesse assunto. Cuidamos de conseguir tirar da terra o muito que ela pode oferecer.

– Quer saber? Vou comprar o coador e o papel Hario, vou fazer uns testes e vou escrever a respeito.

– Vai além. Faz o café como faziam nossas avós. Fazemos juntos.

– E se a gente gostar mais do Hario? 10 reais por xícara eu não aguento.

– Acabei de arrematar o suporte para o coador e o papel coador, 100 unidades, por 116 reais. Cada café vai sair por 1,16 real.

– Ainda bem que você não decidiu ser engenheiro ou economista. E o pó de café?

– Ainda assim vai ficar bem longe dos 10 reais.