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Número 910,

Cultura

Exposição

Em imagens, a Guerra Civil Espanhola

por Rosane Pavam publicado 25/07/2016 02h07
O Brasil recebe pela primeira vez as fotos perdidas tiradas por Robert Capa, Gerda Taro e Chim durante o conflito
Robert Capa
Robert Capa

Refugiados andam na praia, março de 1939

Os cabelos crespos e curtos vinham domados em um topete. As sobrancelhas espessas antecipavam os lábios carnudos, solicitados pelas adolescentes. Tinha seis dedos em uma das mãos delicadas, fenômeno a sinalizar, segundo a mãe, que seu filho fora eleito por Jeová.

Esquerdista forjado em Budapeste, cidade que trocaria por Berlim, aos 18 anos, após mais um confronto com facções rivais, o húngaro falaria sete línguas, nenhuma delas bem. Talvez para rebater as traquinagens que ele aprontava em meio a situações extremas, os amigos tenham comparado seus olhos obsequiosos aos de um cocker spaniel.

Via beleza geométrica na adversidade, a humanidade sob o aniquilamento. Morto aos 40 anos ao pisar em uma mina terrestre na Indochina, em 1954, o fotógrafo Robert Capa, sobre cuja lápide a mãe chorou pesados infortúnios, inventou a imagem do século XX.

Não nasceu Robert Capa, mas André Friedmann, indesejado nome judeu em uma era de pogroms. O pseudônimo surgiu em Paris, depois que ele desistira de estudar jornalismo em Berlim, obcecado por virar escritor.

Toda a ironia de Friedmann, contudo, desandava em oceanos gélidos quando transposta ao alemão, motivo pelo qual ele se trancaria num laboratório para aprender a revelar filmes. Aos 19 anos, fotografou um amargo Leon Trotski na Dinamarca e, desde então, pretendeu aproximar-se mais e mais de seus personagens em Paris.

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Gerda Tato. Multidão na porta do necrotério. Valência, Espanha, maio de 1937

Robert Capa não fora ideia sua. Uma ruiva alemã de esfuziantes olhos verdes e cabelos curtos, três anos mais velha que ele, encontrara no pseudônimo um modo para garantir a sobrevivência do casal (ela recusaria o matrimônio com aquele que chamava de companheiro, interessada em se ver livre, dizia, para um partido rico).

Ao adicionar o prenome Robert, que evocava o astro das telas Taylor, a Capa, releitura do sobrenome do diretor Frank Capra, a impetuosa Gerda Taro, nascida Gerta Pohorylle, inventava um fotógrafo americano sob o qual os dois poderiam assinar suas imagens e por elas cobrar três vezes mais dos franceses. 

O destino espanhol fora decidido pelo casal. Começava a Guerra Civil em 17 de julho, 80 anos atrás, e os jovens imaginavam erroneamente que, findo o conflito, celebrariam a vitória republicana. Em Barcelona, na companhia de Gerda, Capa fotografou as combatentes que atiravam de saltos, calças compridas e lenços no pescoço na direção dos golpistas de Francisco Franco.

Os fiéis do general eram apelidados de “mouros” por sua violência, especialmente cometida contra as mulheres. Nas fotos de Taro, embora se vejam os combates (certa vez, em uma trincheira, a luz de seu flash alertou um bombardeiro), há um apreço por congelar a cena no ápice dramático. A solidariedade à luta feminina está descrita em muitos momentos.

Durante o funeral do general Pavol Lukács, em Valência, junho de 1937, três espectadoras erguem os braços esquerdos com os punhos fechados. As fotos de Taro vêm carregadas de empatia humana, como aquela em que uma multidão se aperta entre as grades do necrotério.

A novidade vinha afinada por um terceiro fotógrafo ao qual se juntaram no país, o polonês de idêntica origem judaica Dawid Szymin, o Chim. Na companhia de Capa, do francês Henri-Cartier Bresson e do inglês George Rodger, ele fundaria a agência Magnum em 1947.

Na Espanha, favorecidos pelo surgimento das ágeis câmeras de 35 milímetros, Chim, Taro e Capa transformariam a cobertura de conflitos bélicos. Não se resumiriam às trincheiras, à ação dos combatentes ou às chamas, segundo uma imagética tão peculiar até a Primeira Guerra. Agora o confronto seria visto nos rostos desolados dos homens.

Chim, que adotou o pseudônimo David Seymour, era o mais afastado da ação entre os três. Com um background fundado na pintura, integrante de uma família proprietária de uma editora de títulos em hebreu e iídiche, fotografou o inventário de telas na coleção do convento de Las Descalzas Reales, em 1936. Morreu metralhado 20 anos depois, durante a cobertura do armistício em Suez.

Se agora sabemos sobre a produção dos três fotógrafos na Espanha, isto se deve a um achado no México. Há nove anos, o país informou ter encontrado, em três caixas depositadas na valise do espólio do diplomata Francisco Aguilar Gonzalez, 4,5 mil negativos perdidos sobre o conflito.

Em Marselha, o general Gonzalez ajudara milhares de refugiados espanhóis a fugir para o México. A maleta pode ter-lhe sido entregue por um laboratorista alemão de Capa, a quem o fotógrafo confiara o material.  

A exposição A Valise Mexicana viaja internacionalmente desde 2010 e chegou ao Brasil dia 23. A Caixa Cultural São Paulo, em parceria com a produtora Rua 34, mostrará 175 imagens em preto e branco com o tamanho padrão de época, 20 por 25 centímetros.

A seu lado, os contatos conterão a sequência das imagens, impressa em papel fotográfico. Cerca de 90 revistas do período, cartas e livros comentarão essa produção, que recebeu a curadoria do International Center of Photography (ICP), centro de estudos fundado em 1999 pelo irmão mais novo de Capa, o fotógrafo Cornell Capa (1918-2008). Dois filmes, March of Time − The Rehearsal for War (de Capa) e With the Abraham Lincoln Brigade in Spain (de Cartier-Bresson, Jacques Lemare e Herbert Kline), detalharão a cobertura da guerra.

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Chim. Mulher faz o inventário de pinturas na coleção do convento de Las Descalzas Reales, com dois soldados republicanos.

Não estará presente em A Valise Mexicana a controversa foto da morte do soldado republicano desconhecido. A curadora Cynthia Young diz a CartaCapital que os negativos não se encontravam na maleta, como em lugar algum. A imagem que restou hoje veio da reprodução de revistas.

É a foto mais famosa de Capa e da guerra. “Ele estava com Taro quando foi feita, mas não há evidências de que tenha sido realizada por ela.” Depois de sair ilesa da cobertura da perigosa Batalha de Brunete, em 1937, a jovem morreu em uma região próxima aos combates. Tinha 26 anos. Um tanque russo dera a ré desavisadamente sobre o estribo do carro que ela ocupava como caronista.

Capa soube de sua morte dois dias depois, ao ler o jornal em um consultório de Paris, e jamais se perdoou por ter estado distante. Ela cumpria seu último dia na cobertura da guerra e colocara champanhe para gelar. À enfermeira que lhe ministrou morfina, perguntou tranquilamente onde teriam ido parar suas Leicas novas, desaparecidas no atropelamento.

Àquela altura, a fotógrafa ganhara fama e começava a assinar as fotos com o próprio nome, seus personagens em primeiro plano. Quanto a Capa, diz Young, as melhores fotos são físicas. “Há movimento, emoção e empatia nas imagens. Ele levava a profissão a sério.

Sempre sabia quais histórias poderiam interessar às revistas e como compor cada pose. São poucos os instantes em que rompe essa rigorosa autoconsciência, como na foto em que o escritor Ernest Hemingway está ao lado do major Malcolm Dunbar, do jornalista Herbert Matthews e de outro oficial.”

A foto de 1937, contudo, equilibra-se de maneira divertida sobre as linhas dos cigarros. “Seus sorrisos são anômalos. Há muito poucas imagens bem-humoradas da Espanha. Capa era um brincalhão, mas o humor está mais presente em suas fotos depois da Segunda Guerra.”

Ele raramente comentava os combates com a família. Contudo, suas palavras foram agudas ao observar os refugiados na Catalunha em janeiro de 1939. “Uma garota se deita sobre um par de sacos, uma garotinha bonita”, escreve à mãe.

“Deve estar muito cansada, porque não brinca com outras crianças. Não se mexe, mas seus olhos me seguem, um grande olho atrás de cada movimento. Duro demais trabalhar sob tal contemplação. Não é fácil estar em um lugar como este e nada poder fazer, exceto registrar o sofrimento que os outros devem suportar.”

*Publicado originalmente na edição 910 de CartaCapital, com o título "Demasiado humano"

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