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Número 909,

Sociedade

Brasiliana

Paulo Vanzolini, um menino de moral

por Carlos de Oliveira — publicado 18/07/2016 03h57
Na biblioteca infantil, o doutor em samba ensaiou carreira jornalística
Reprodução
A Voz da Infância

Os repórteres mirins imprimem o jornal A Voz da Infância

Naquele 2 de abril de 1936, Paulo Emílio, de 12 anos, chegou apressado ao casarão de número 638 da Rua Major Sertório, decidido a retirar um livro de aventuras. Lenyra Camargo Fraccaroli, de 29 anos, figura doce, mas educadora exigente, estava agitada com os preparativos para o dia 14, quando Mário de Andrade, diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, declararia oficialmente aberta a Biblioteca Infantil Municipal, a primeira do Brasil, embrião de todas as demais.

Apesar do corre-corre, Lenyra pegou uma das fichas que criara e anotou a retirada. Uma Cidade Flutuante, de Júlio Verne, para Paulo Emílio Vanzolini. Garoto esperto, do tipo decidido, morava na Alameda Tietê, 71. Estudava no Instituto Rio Branco. Era criança bem assistida, residira no Rio. Escrevia bem, fazia versos, gostava de bichos. Havia algum tempo Lenyra observava aquele menino.

Ela dizia que uma biblioteca deveria ter tripla função: socializar o conhecimento, cultivar valores morais e estimular o desenvolvimento intelectual. Dois meses depois, esse tripé frutificou também na forma de um jornal. O primeiro número de A Voz da Infância circulou em 10 de junho e lá estava o menino Vanzolini no cargo de “primeiro-repórter”.

O Voz era escrito, ilustrado e impresso pelas crianças. Na capa do número de estreia, uma homenagem ao compositor campineiro Carlos Gomes. No dia 11 de julho, um grupo de seis meninos e duas meninas liderado por Lenyra faria uma excursão a Campinas para conhecer mais sobre o músico e divulgar o trabalho da biblioteca. Paulo Emílio era um deles. 

Biblioteca
Na excursão escolar, recebido pelo prefeito de Campinas (Foto: Reprodução)

Como “primeiro-repórter”, na edição de agosto do Voz o garoto relatou, gongórico: “Estamos atravessando os subúrbios de Campinas. Chegamos à estação. Aí nos esperam figuras representativas. Estão presentes: Dr. Artur de Freitas Leitão, ilustre prefeito interino, Drs. Camilo Vanzolini e Ernesto Kullmann, que representam condignamente a classe professoral.

Salve Campinas! Salve Princesa do Oeste! Salve Terra de Carlos Gomes!” A excursão foi um sucesso para a biblioteca e Vanzolini, logo promovido a diretor do jornal. O escritor Monteiro Lobato, que conhecia o trabalho de Lenyra, aproximou-se dela mais ainda e fez visitas ao casarão da Major Sertório, onde, para encanto das crianças, respondia a perguntas sobre seus personagens.

Por falar em personagens, é preciso voltar ao 2 de abril de 1936, quando Vanzolini pegou o livro de Júlio Verne. Lenyra anotou que ele deveria devolver a obra em cinco dias. Devolveu depois de um mês. Seja como for, leu e comentou o texto.

O atrevimento de suas opiniões pode ter sido a melhor indulgência para seu atraso. A ficha de leitura criada por Lenyra tinha duas faces. Uma delas, burocrática: nome do consulente, endereço, idade, obra retirada, autor. No verso, o mais importante, o resumo do tema, o que achou do livro, realidade ou ficção, personagem que mais impressionou e por quê? 

Vanzolini achou o livro “ótimo”. Disse mais: “Júlio Verne descreve nesta obra, com estilo leve e bem humorado, uma viagem num transatlântico do seu tempo, creando (na grafia da época), como em todas as suas obras, tipos originais e burlescos”.

Lenyra e Monteiro Lobato
A diretora Lenyra Fraccaroli com Monteiro Lobato (Foto: Reprodução)

Apegou-se ao personagem Dean Pitferge. Num misto de graça infantil e insolência dos destemidos, explicou o porquê: “Por ser um tipo real, obsecado (sic) pela idéa (sic) de naufragar, francês até a medula dos ossos, isto é, mentiroso, jovial, fanfarrão e excêntrico”.

Não se sabe se Monteiro Lobato leu esse comentário. O fato é que o escritor, um entusiasta da biblioteca, se deliciava com as tiradas das crianças. Muitas exigiam detalhes sobre passagens de seus livros. Outras eram formais demais e ele pedia que falassem “sem gramáticas”.

 Algumas vezes Lobato participou da Hora do Conto, uma das atividades criadas por Lenyra. Autores eram convidados a falar com as crianças em conversas descontraídas. Requisitado, Lobato deu pelo menos duas entrevistas ao Voz, uma em 1936 e outra em 1948, poucos meses antes de morrer. 

Ficha
Destemido, Vanzolini descreve um personagem de Verne como francês até a medula, 'isto é, mentiroso, jovial, fanfarrão e excêntrico' (Foto: Reproduçã)

Antes disso, em 1945, a biblioteca deixou o casarão da Major Sertório e mudou-se para o palacete do senador Rodolfo Miranda, na Rua General Jardim. Em 1950 foi definitivamente para o endereço atual, na mesma General Jardim, 485, em meio a uma grande praça arborizada, no prédio projetado por William Hentz Gorham.

A educadora pioneira Lenyra Camargo Fraccaroli morreu em janeiro de 1991, aos 85 anos, tendo cumprido sua missão de espalhar bibliotecas pelo País. Paulo Vanzolini morreu em abril de 2013, aos 89 anos, doutor em bichos e samba. O casarão de número 638 da Major Sertório não existe mais. Suas histórias e feitos de 80 anos ficaram e ficarão. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 909 de CartaCapital, com o título "Um menino de moral"