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Número 909,

Economia

Opinião

Pesadelos lúdicos na economia

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 19/07/2016 02h43
Alguns economistas ainda sonham com modelos reversíveis e atemporais de equilíbrio geral do tipo Lego
Rainha Elizabeth

A rainha Elizabeth II, em visita à London School of Economics, perguntou aos economistas por que não previram a crise

Em todos os cantos do planeta brotam sintomas de esgotamento da desordem econômica armada nas últimas quatro décadas. As políticas econômicas pós-1980 se afogaram no maremoto financeiro de 2008, mas os náufragos do pensamento econômico inspiradores da tragédia tentam nadar até a praia em um esforço para salvar o que restou de seu “capital intelectual”.

Desvalorizados nos continentes do saber, os cabedais da assim chamada corrente principal buscam refúgio e revalorização em ilhas tropicais, hoje reconhecidas por sua estreiteza de horizontes e subordinação às avaliações dos brechós que negociam as curiosidades e absurdos do pensamento defunto.

Como assinala meu companheiro de inconformismo Gabriel Galípolo, a postura dos nativos da ilhota assemelha-se à dos rapazes do filme Um Morto Muito Louco, reprisado à exaustão nas sessões da tarde dos anos 1980 e 1990. Buscam esconder que seu chefe golpista e trapaceiro foi assassinado para desfrutar do luxo proporcionado pelo seu dinheiro. Para tanto, carregam o morto aonde vão, de festas a passeios de barco, simulando que o velhaco ainda está vivo.

Os riscos do apego ao cadáver não são desprezíveis. Entre tantos percalços possíveis, o mais ameaçador é a segunda morte pelo grotesco. “Grotesco é o ridículo tomado a sério”, sentenciou Machado de Assis. Pois Machado teria encontrado mais razões para sua sabedoria nas elucubrações metodológicas do economista nobelizado Thomas Sargent, um dos corifeus das expectativas racionais.

Sargent nos oferece uma obra-prima da teologia da racionalidade dos agentes e dos mercados perfeitos e competitivos: “As pessoas dentro do modelo têm muito mais conhecimento sobre o sistema que estão operando do que os economistas ou econometristas que estão usando o modelo para entender seu comportamento. Em particular, os econometristas enfrentam problemas de estimar a distribuição de probabilidades e as leis de movimento que são presumidas de conhecimento dos agentes. As estimativas e técnicas de inferência das expectativas racionais presumem que os agentes no modelo conheçam o que os econometristas estão estimando”.

A rainha Elizabeth II, em visita à London School of Economics, perguntou aos economistas por que não previram a crise. O também nobelizado e sumo sacerdote das expectativas racionais, Robert Lucas, respondeu em um artigo publicado, em 2009, na revista The Economist: “A crise não foi prevista porque a teoria econômica prevê que esses eventos não podem ser previstos”. Os mercados são eficientes, a crise que aconteceu não poderia ter acontecido.

 A matriz intelectual dessa impossibilidade repousa nos fundamentos do individualismo metodológico que sustentou certezas econômicas e políticas nos últimos 40 anos. Aviada em universidades e consultorias, essa coleção de crenças engalanadas com matemática de segunda categoria apoia-se em esquemas conceituais grotescos, no sentido machadiano.

A turma das expectativas racionais entregou a chamada ciência econômica às forças do pensamento mítico, em nome da despolitização e da “limpeza ideológica”. A consequência dessa empreitada não foi apenas o irrealismo descuidado, mas as sucessivas e persistentes escaramuças para esconder o funcionamento concreto das economias capitalistas, um organismo em permanente transformação ao longo da história, na efetivação de suas leis de movimento.

Entre as reações ao “descolamento” da teoria dominante diante do movimento concreto das economias contemporâneas, é interessante observar o desenvolvimento da Econofísica, que se utiliza das teorias da complexidade e da álgebra relacional para (re)colar as estruturas e os processos econômicos na avalanche de dados acumulados pela ciência da computação.

No livro Decoding Complexity. Uncovering Patterns of Economic Complexity, o físico James Glattfelder escreve: “A característica dos sistemas complexos é de que o todo exibe propriedades que não podem ser deduzidas das partes individuais. Em suma, a teoria da complexidade trata de investigar como o comportamento macro decorre da interação entre os elementos do sistema”.

Ilya Prigogine e Isabelle Stengers mostram que a termodinâmica, a física das partículas e a teoria da relatividade “nos conduzem a compreender... um mundo onde a ‘emergência do novo’ reveste um significado irreversível”. No movimento histórico das economias concretas estão abrigadas a irreversibilidade e a emergência do novo nas estruturas complexas, pesadelo dos economistas que dormem e sonham com modelos reversíveis e atemporais de equilíbrio geral, símiles de joguinhos de Lego. 

*Publicado originalmente na edição 909 de CartaCapital, com o título "Pesadelos lúdicos"