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Número 909,

Cultura

Música

Na música, uma jornada ancestral

por Ana Ferraz publicado 15/07/2016 10h57, última modificação 17/07/2016 09h41
Amoy Ribas, Antonio Loureiro, Ari Colares, Höröyá e Mariá Portugal levam a percussão à linha de frente
Lou Gaioto
Höröyá

André Ricardo, à frente do Höröyá, invoca a força da ancestralidade

Quando as mãos jovens e já calejadas de André Ricardo tocam a cabaça, ecoa um som ancestral, o som dos primórdios da humanidade. Fundador do grupo Höröyá, ele faz da percussão uma profissão de fé.

Coloca a força dos tambores no centro do palco, reverencia mestres como Famoudou Konate e Mamady Keïta, ambos da Guiné, valoriza o fazer artesanal milenar e o conhecimento dos instrumentos passado de geração a geração e combate aguerridamente o preconceito.

“Chamam a percussão de cultura popular por ser feita em geral por pessoas mais pobres, mas trata-se de música profunda, de alta complexidade. Dentro do pacote do racismo brasileiro, percussão é algo muito fácil, mas levei quatro anos só para começar a tirar som do djembê”, diz sobre o tambor africano em formato de cálice.

O Höröyá, palavra que na origem Mandeng significa um grito de liberdade a ecoar algo como “ninguém me comanda, sou livre”, reúne 12 músicos, repertório autoral e voraz criatividade. “Nenhum ritmo produzido aqui existe. Colocamos instrumentos tradicionais em formações não tradicionais”, explica o líder da banda nascida há dois anos, cujo primeiro disco Höröyá (ybmusic) é uma mágica jornada transcendental.

Ribas
Ribas vai do choro árabe ao maracatu jazzístico (Foto: Lou Gaioto)

A combinação entre os tambores africanos sabar, os melodiosos dununs, as surpreendentes kora e ngoni, cujas cordas fazem lembrar a harpa, e os metais (sax, saxofone, trompete, trombone e clarone) soa tão original quanto arrebatadora. A África mãe pulsa ao lado da brasilidade de atabaques, berimbau e cuíca, um caldo capaz de nutrir as mais altas expectativas.

A magia da percussão chegou para o brasiliense Amoy Ribas na figura da avó, Dolores. Na infância pobre sem brinquedo, a menina filha de português com índia laçada na tribo usava o corpo como caixa de ressonância.

Cantava e batucava um ritmo com cada mão, tudo tão natural naquele interior da mineira Pirapora, onde o São Francisco começa a ser navegável, que ela própria não dava valor. Mas quem ouvia se impressionava. Foi assim até o ano passado, quando Dolores se foi, aos 90 anos.

Primeira infância transcorrida entre Índia e Alemanha, Ribas aporta em Pirapora aos 10 anos. E ali absorve a rica cultura local, salada rítmica com resquícios de maracatu, coco, marabaixo, cavalgada, lundu, samba, marujada e carneiro, variante da umbigada, na qual o contato é de ombro com ombro. Aprende a tocar caixa, pandeiro, bateria, piano, flauta, tudo uma grande brincadeira até perceber ter sido fisgado por esse “mundo sonoro de horizonte eterno, uma coisa que nunca acaba”.

Vinte anos como acompanhante de outros músicos e dez na condição de solista, Ribas construiu uma carreira sólida, valorizada pelos cultores da música instrumental, reconhecida na Europa, elogiada por grandes nomes, como o modelar Hermeto Pascoal, que se encanta com o talento do novato de 19 anos e o chama de volta ao palco após breve apresentação em Brasília, mas ainda a ser descoberta pelo grande público. O primordial bongô marroquino de porcelana azul e branca, que ganhou aos 7 anos, retratado na capa do disco Tambores de Apuama (2008), multiplicou-se em mais de cem instrumentos.

Didjeridu de vidro, marimba, vibrafone, caxixi, berimbau, pandeiro quadrado, cajon, alfaia, djembê, balafon, xequerê, tama e muitos mais entram na alquimia de raiz brasileira, harmonia erudita e molho jazzístico tecida por Ribas. “Bebo na música africana, cubana, argentina, venezuelana, uruguaia, mas minha principal influência vem da liberdade de improvisação do jazz.” No trabalho que busca desafiar rótulos, vai do choro árabe com pandeiro e derbak ao samba entremeado de momentos eruditos e maracatu de harmonia costurada no jazz.

Mariá
Mariá faz parecer simples a complexidade da bateria (Foto: Jean Vidoulos)

Ribas divide-se e se completa em várias formações. Com Pedro Vasconcelos (cavaquinho), Fernando César (violão de sete cordas) e Ariadne Paixão (flauta) forma o Choro & Companhia, que no CD Nazareth: Fora dos Eixos borda clássicos do mestre Ernesto Nazareth com marimba e pandeiro.

Ao lado do tarimbado e talentoso Gilson Peranzetta acaba de lançar Repercutindo, no qual piano e percussão interpretam peças autorais de ambos. Na Alemanha, integra o Ral 3 com Lutz Häfner (sax e clarinete) e Rainer Böhn (piano).

Discípulo de Naná Vasconcelos, deixa-se arrastar pelo fascínio exercido pelo leque de possibilidades estilísticas e às vezes compra um balde ou uma enxada só pelo timbre produzido.

Na definição de Antonio Loureiro, o percussionista é um multi-instrumentista que escuta ritmo em todas as coisas. Ele foi do inicial piano na primeira infância à bateria a partir dos 9 anos. A forte influência exercida pelo grupo Uakti, “escola de múltiplos timbres, possibilidades e referências”, ajudou-o a optar pelo curso de percussão.

Com Siba, apaixonou-se pelas “coisas maravilhosas que acontecem em Pernambuco”. Deixou-se seduzir pelo tambor de crioula e pelo boi maranhenses e sorveu das fontes essenciais simbolizadas por Mamady Keita, Rumpilezz, Airto Moreira, Doudou Rose, Zakir Hussain e Robertinho Silva.

Ari Colares
Colares, prazer na diversidade rítmica brasileira (Foto: Chema Llanos)

Seu trabalho autoral, em que canta, toca piano e teclados, rendeu os álbuns-solo Antonio Loureiro (2010) e (2012). Do encontro com Ricardo Herz em 2014 nasceu o CD Herz & Loureiro, uma inesperada conversa entre violino e vibrafone definida pelo músico e arranjador André Mehmari como “mágico amálgama de generosas sonoridades, cores resultantes do abraço feliz de dois inspirados artistas”.

Experimentado na lida com a diversidade rítmica brasileira, Ari Colares pesquisa, toca e ensina. Despertou para a percussão aos 17 anos, num grupo teatral voltado também para a dança e a música popular.

A bordo do grupo A Barca percorre comunidades onde a fé motiva a música, “seja a fé das religiosidades populares, não necessariamente ligadas a instituições, seja a fé na festa, na importância da brincadeira, da folia”.

Com o pianista Benjamim Taubkin participa de projetos dentro e fora do Brasil, tais como Co-Bra Project, Al Qantara e Andar, Nadar e Voar. Para o percussionista, ampliar o gosto pela música instrumental é questão de oportunidade. “Teríamos mais público se tivéssemos mais espaços”, pontua Colares, satisfeito por proporcionar a adultos e crianças o encontro com a diversidade rítmica.

Loureiro
Loureiro (à dir.), amálgama de generosas sonoridades (Foto: Élcio Paraíso/Bendita)

Do piano erudito ao popular, da percussão sinfônica à bateria, Mariá Portugal trilhou um caminho natural para quem vivia batucando pela casa e a partir dos 6 anos conheceu o impacto da batida do tambor num terreiro de candomblé.

Profissionalizou-se aos 16 anos e encontrou na música popular o melhor lugar para canalizar talento, ousadia e criatividade. Na bateria, que encara como um conjunto de instrumentos, cada qual dotado de som e alma próprios, faz a complexidade parecer simples.

Acompanhar Arrigo Barnabé nas formações O Neurótico e as Histéricas e Claras e Crocodilos foi a materialização de um sonho. “Ele é um músico contundente, sério, profundo.” Com a banda Sinamantes, de recém-lançado CD, Mariá dedica-se a “um pop experimental de alma latina” e na Quartabê navega do free jazz ao afro-beat.

Ao lado do Pato Fu torna-se Gulliver a tocar liliputianos instrumentos de brinquedo. Com olhar crítico, avalia que a percussão ainda não ocupa o destaque merecido, mas acredita que caminha nessa direção. 

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