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Número 907,

Cultura

Papinho Gourmet

Não tá fácil pra ninguém

por Marcio Alemão publicado 03/07/2016 04h01
Eu só queria um negroni
iStockphoto

Cliente entra no restaurante quase vazio e estranha.

– O que tá acontecendo, Gilmar? Nunca vi esse restaurante desse jeito.

– Melhor assim, não é?

– Será? Assim, vazio?

– Não ficou bem mais arejado?

– Isso é verdade. 

– Aposto que o senhor nunca havia notado que havia uma gravura atrás da mesa 5. 

– É mesmo. Bonita.

– O tom de voz, reparou? A gente tá conseguindo conversar sem gritar?

– Também reparei.

– E então? O que vai ser hoje?

– Qual a sua sugestão?

– Sushi de cabra à parmigiana.

– Opa!?

– Pizza de muçarela de pato com confit de balsâmico.

– De pato?

– Prefere de porco?

– Gilmar, calma. Tá tudo bem com você?

– Posso preparar uma saladinha ma-ra-vi-lho-sa se o senhor estiver sem fome. 

– Algumas folhas com uma burrata. Pode ser?

– Nem pensar. Para o senhor eu faria uma salada generosa não apenas com algumas folhas, mas com muitas e muitas páginas, centenas delas. E não me fale em burrata porque esse termo é, definitivamente, pejorativo.

– Você não pode estar falando sério.

– Nunca fui tão. O que servimos aqui é uma muçarela com necessidades especiais.

– Posso pedir negroni pra começar, com gim...

– De novo, meu amigo?

– Eu não pedi nada ainda.

– De novo o mau uso das palavras, o preconceito, que coisa desagradável.

– Me desculpa, Gilmar, mas a conversa tá meio travada. Eu só quero um negroni.

– Basta! Se o senhor quiser posso lhe trazer um “afrodescendentoni”. Vai?

– Gilmar, pode se abrir. Eu frequento seu restaurante há anos. Que loucura é essa?

Gilmar respira fundo, puxa uma cadeira, senta ao lado do cliente, puxa um cigarro e grita para o bar:

– Major, desce uma caucasiana e suja com Fernet.

– Não pode fumar aqui, pode?

– O senhor se incomoda?

– Não. Até vou aceitar um.

– A coisa tá feia, Carlão. Posso te chamar de Carlão, doutor Carlos?

– Um prazer.

– Tô tentando sair da caixa pra enfrentar a crise. Andei participando de umas palestras com o Bernardinho, com o Shinyashiki, frequentando umas igrejas diferentes e vendo muito masterchef do mundo inteiro.

– Acho tudo válido, mas se me permite, acho que você tá fazendo certa confusão.

– Eu? Dá uma olhada no País, no mundo.

– É. Acho que vou provar o sushi de cabra à parmigiana.

– Posso sugerir um destilado de umbu pra harmonizar?