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Número 906,

Internacional

EUA

Orlando: como usar um massacre

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 23/06/2016 04h48
Um desvario pessoal influencia campanhas e torna-se pretexto para bombardeios ou vigilância em massa
Joe Raedle/Getty Images/AFP
Amigos-e-Familiares-das-vítimas

Os motivos políticos ou religiosos são muito duvidosos. A homofobia é certa

O atentado à boate Pulse, em Orlando, é um desses acontecimentos capazes de se fazer duvidar da possibilidade de verdade objetiva em política e jornalismo. Ainda assim é preciso tentar.

Às 2 da madrugada do domingo 12, Omar Mateen entrou armado nessa boate para o público homossexual, onde se celebrava uma noite latina, com uma submetralhadora AR-15 e uma pistola Glock. Matou pelo menos 49, feriu outros 53 e manteve 30 como reféns por três horas, antes de ser abatido em um tiroteio com a SWAT.

Muçulmano nascido em Nova York e filho de imigrantes afegãos, era considerado suficientemente responsável para trabalhar como guarda desde 2007 para a grande empresa de segurança privada G4S, responsável pela guarda de prisões privadas, vários reatores nucleares e do Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, além de empresas, centros de detenção juvenil e condomínios.

Depois do atentado, soube-se que um colega na guarda de um condomínio queixara-se à chefia e pedira para deixar de trabalhar com ele por fazer comentários “homofóbicos, racistas e sexistas”, e falar de matar pessoas, mas foi ignorado pela G4S.

A ex-esposa, da qual se divorciou após quatro meses de casamento, o julgava “bipolar”. Segundo ela, o marido pareceu normal e divertido, mas depois passou a agredi-la e a impedi-la de se comunicar com a própria família.

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Um modo de vida alegre e livre pelo qual o terrorista demonstrou explosiva mistura de ódio e fascínio (Foto: Eric Babcock)

O pai mencionou um incidente em um centro comercial, no qual Omar se enfureceu ao ver um casal homossexual se beijar na frente da segunda esposa e do filho pequeno. Ambos coincidiram em não acreditar em motivação religiosa para seus atos. Bebia álcool, não usava barba e não usava roupas nem praticava costumes de muçulmanos tradicionalistas.

Minutos após iniciar o atentado, o assassino ligou à polícia e disse agir em nome do Estado Islâmico, e acrescentou: “Estou fazendo isso para protestar contra os bombardeios dos EUA na Síria e no Iraque e as mortes de mulheres e crianças e em solidariedade com os irmãos Tsarnaev e Moner Abu-Salha”.  

Em ocasiões anteriores bazofiara sobre ter conexões familiares com a Al-Qaeda e ser membro do Hezbollah, razão pela qual foi interrogado pelo FBI em 2013 e temporariamente incluído na lista de vigilância, mas os investigadores aceitaram sua explicação de que apenas reagira a provocações dos colegas e arquivaram o caso após dez meses. 

Em 2014, voltou a ser interrogado por frequentar a mesma mesquita que o citado Abu-Salha, militante estadunidense da Al-Nusra (grupo rebelde sírio filiado à Al-Qaeda) morto em atentado suicida contra tropas de Bashar al-Assad. Os agentes concluíram que o contato fora casual.

Salta aos olhos, para quem tem um mínimo de conhecimento do quadro do Oriente Médio, alguém ter alegado ligações tanto com a Al-Qaeda e Estado Islâmico quanto com o Hezbollah. Enquanto as duas primeiras organizações são fundamentalistas sunitas, mas rivais, a terceira é xiita e, como aliada de Al-Assad, enfrenta ambas diariamente na Síria.

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Mateen tem mais de uma foto com sigla e distintivos da Polícia de Nova York e nenhuma com emblemas do Estado Islâmico ou da Al-Qaeda

A Al-Qaeda é relativamente tolerante para com os xiitas, enquanto o Estado Islâmico os considera infiéis e os persegue e massacra rotineiramente. É muito estranho um “fundamentalista” dar tão pouca importância a seus fundamentos a ponto de desdenhar ou ignorar essas contradições. Seria como um evangélico ora se dizer filiado à Ku-Klux-Klan, ora ao Opus Dei. 

Por meio de um de seus órgãos de mídia, o Estado Islâmico endossou e assumiu o atentado. Em 24 de maio, a organização pedira a muçulmanos em geral por ataques solitários nos EUA e Europa durante o Ramadã.

Omar Mateen viu propaganda jihadista na internet, mas não há evidência de contato de sua parte com o Estado Islâmico nem sinais anteriores de radicalização. Até onde se sabe, a única pessoa a par de seus planos era a esposa, que diz ter tentado dissuadi-lo, mas o acompanhou na compra das armas e o levou à boate. 

Há provas de que visitou a Pulse e a Disney World durante dias de celebração gay entre 1º e 6 de junho, o que foi considerado pelo FBI um reconhecimento de terreno prévio à ação.

Além disso, clientes da Pulse afirmaram ter visto Mateen pelo menos uma dúzia de vezes na boate antes do atentado, ora bebendo sozinho, ora briguento e barulhento após beber demais, ora na aparente paquera de rapazes, como qualquer frequentador. Também dizem ter sido contatados por ele por meio do aplicativo de encontros homossexuais Jack’d por um ano.  

Várias narrativas podem ser concebidas a partir dessas informações, mas salta aos olhos a diferença em relação aos grandes atentados europeus, planejados e cometidos por militantes com contatos reais e duradouros com o Estado Islâmico e organizados em redes internacionais, com esconderijos e estoques de armas distribuídos por bairros muçulmanos de várias cidades.

Assim como Donald Trump, Mateen nasceu e foi criado no bairro nova-iorquino de Queens e viveu, morou e trabalhou ao lado de cidadãos de outras etnias e religiões.

Deu sinais ocasionais de agressividade, intolerância e homofobia, mas nada muito diferente do que se pode ler diariamente em redes sociais e caixas de comentários ou ouvir em mesas de bar. Salvo por frequentar mesquitas, não era muito diferente do típico apoiador de Trump, nem do típico perpetrador cristão ou laico de assassinatos em massa nos EUA.  

Nada indica que a conexão de Omar Mateen com o “Califado” fosse mais real do que aquelas com a Al-Qaeda, Al-Nusra e Hezbollah. Como a maioria das fuzilarias deflagradas quase diariamente nos EUA, o caso mais parece uma forma raivosa de suicídio com a qual se quer causar o máximo de impacto e estrago antes de morrer.

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Citados por Mateen, Abu-Salha e os irmãos Tsarnaev tiveram histórias muito diferentes, mas também pouco previsíveis (Fotos: AFP)

A invocação de motivos políticos e do Estado Islâmico no último minuto pareceu uma tentativa de chamar a atenção e dar uma aura de martírio a uma tragédia mais plausivelmente provocada por sentimentos pessoais. Os sinais de homofobia são muito mais claros e abundantes do que os de motivação religiosa. 

Talvez sua formação muçulmana e afegã lhe tornasse difícil suportar uma homossexualidade pela qual parecia sentir tanto ódio quanto fascínio, mas a formação ocidental e mais ou menos cristã de um WASP pode ter o mesmo resultado.

Aliás, mal o tiroteio se encerrava na Flórida quando a polícia da Califórnia prendeu um certo James Wesley Howell, a caminho de um evento de orgulho gay em Los Angeles, com três fuzis de assalto, munição e explosivos, um bissexual com o distintivo da Associação Nacional de Rifles (NRA) no carro. E, além do Estado Islâmico, os primeiros a elogiar o massacre foram a Igreja Batista de Westboro e um pastor da igreja batista Verity de Sacramento, Califórnia.

Entretanto, não só Trump imediatamente tuitou “apreciar as congratulações por estar certo sobre o terrorismo radical islâmico”, como pediu em seguida um aumento dos bombardeios ao Estado Islâmico: “Temos generais que acham que podemos vencer com força e rapidez, mas temos de ser furiosos por algum tempo e não estamos fazendo isso”.

Pior, Hillary Clinton o imitou: “Temos de aumentar a pressão e escalar a campanha aérea”. É duvidoso se isso é estrategicamente útil para apressar a queda do Estado Islâmico e, com certeza, em nada contribui para prevenir ataques como os de Orlando.

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Na mesma madrugada, foi detido Howell, como para provar que religião e origem pouco têm a ver com tais casos (Foto: AFP)

Ambos cortejaram a noção tão popular nos EUA de que armas e bombas são soluções para todos os problemas sociais e políticos. Assassinos em massa são, aliás, mais uma manifestação dessa convicção. 

Trump também prometeu “proibir a imigração de regiões onde há um histórico de terrorismo contra os EUA e seus aliados”, o que fecharia as portas a metade do planeta. Quanto à candidata democrata, só aparentemente suas propostas são mais sensatas.

“Como presidente, farei da identificação e detenção de lobos solitários uma alta prioridade. Leis de prevenção à violência com armas não podem deter todos os ataques, mas salvarão vidas. Acreditamos poder proteger os direitos da Segunda Emenda (sobre posse de armas), enquanto nos asseguramos de que as armas não caiam em mãos erradas. Não se pode entrar em aviões com garrafas de xampu cheias, mas vigiados pelo FBI por terrorismo podem comprar armas?”  

Boas intenções ou mero pretexto para expandir ainda mais a máquina de espionagem e vigilância interna? Casos de terrorismo propriamente dito são raros, mas sugestões de agressão e preconceito, denunciadas ou não, se contam aos milhões todos os dias e prever seu potencial de se transformar em violência real é impraticável.

Vedar armas a pessoas vigiadas teria sido tão inútil quanto bloquear a imigração, pois Mateen não estava mais nessa lista de 1,5 milhão de nomes. Nem sequer se pode acusar o FBI de negligência, pois, ante o resultado da investigação, parecia perfeitamente razoável desconsiderar as suspeitas iniciais. 

A proibição total do porte de armas atentaria menos contra a democracia e as liberdades pessoais do que uma vigilância permanente sobre todos os cidadãos e residentes para tentar identificar as “mãos erradas”.

E não teria resultado muito diferente, pois, se as armas forem vedadas a todos os que vociferarem ódio, ameaças e preconceitos, os únicos a poder comprá-las seriam aqueles que, para começar, jamais cogitariam de adquiri-las.

*Publicado originalmente na edição 906 de CartaCapital, com o título "Como usar um massacre"