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Número 905,

Cultura

Papinho Gourmet

Gente estranha

por Marcio Alemão publicado 17/06/2016 15h19, última modificação 19/06/2016 08h58
Ao levar o grande chef para sua casa, imediatamente a chibata passa para seu controle
Papinho-Gourmet

A nobre senhora, indignada, acrescentou que concordaria em pagar, mas nesse caso ele jantaria com a criadagem

–Acho que já comentei com você sobre a quantidade de pessoas estranhas que frequentam meu clube.

– Defina pessoas estranhas.

– Para ser bem franco com você, a minha vontade era ter dito cretinos.

– Essa é uma publicação elegante. Ficamos com pessoas estranhas e o perspicaz leitor saberá fazer a leitura.

– Pois uma dessas estranhas pessoas, abonadíssima em suas contas bancárias, paupérrima em suas falas e pensamentos, vive a divulgar suas extravagâncias em voz bem alta, posto que fazer segredo de seus estapafúrdios feitos não o interessa.

– Imagino que bem ao contrário.

– Volta e meia nos conta, por exemplo, que fechou um resort com mais 20 casais de amigos e levaram Alex Atala para cozinhar.

– Realmente é muito estranho que alguém consiga reunir 20 casais de amigos.

– Concordo. E o tal fulano estranho, em conversa franca com outro associado, dizia que já levou para cozinhar em sua casa os maiores e melhores chefs do Brasil.

– Algo contra os restaurantes desses chefs?

– E me espanta o amigo não ter notado. Ir ao restaurante não o deixa com o poder de “sinhozinho”.

– Claro! Que estranho sou eu. Ao levar o grande chef para sua casa, imediatamente a chibata passa para seu controle.

– Até que ponto isso chega a ser verdade, eu não sei, mas fui me lembrar de uma história cujo protagonista, se não me engano ou me enganaram quando me contaram, é o pianista russo Vladimir Ashkenazy.

– Sobre uma nobre que o convida para jantar, não é isso?

– Exatamente. Ashkenazy iria fazer um concerto numa determinada cidade da Europa. A tal nobre, com certeza uma pessoa estranha, decide organizar um espetacular jantar em homenagem ao célebre pianista, que aceita envaidecido o convite. Todavia, a estranha e esperta senhora acrescentou que, obviamente, esperaria que ele agraciasse os seletos convivas com algumas peças do repertório clássico.

– Agora me lembro. Ele teria dito que, se fosse para tocar, seria obrigado a cobrar.

– A nobre senhora, indignada, acrescentou que concordaria em pagar, mas nesse caso ele jantaria com a criadagem. Ashkenazy abriu um enorme sorriso de alívio e disse que, se fosse para jantar com os criados, ele tocaria de graça.