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Número 902,

Internacional

EUA

Bill de Blasio, e o caixa 2 à americana

por Eduardo Graça — publicado 31/05/2016 04h42
O prefeito de Nova York entra na mira do FBI
Eduardo Munoz Alvarez/Getty Images/AFP
Bill de Blasio

Alvejado pela mídia conservadora, o antes popular e promissor democrata afunda nas pesquisas de opinião

Um governante ameaçado por denúncias de montar um esquema de corrupção na máquina pública e fraude no financiamento de campanhas eleitorais. Deputados e senadores denunciados em casos de corrupção e lavagem de dinheiro. Brasil? Não, Estados Unidos.

O FBI e mais cinco agências públicas investigam a administração de um dos nomes mais importantes da esquerda norte-americana, até então com altos índices de popularidade. E a mídia conservadora martela diariamente as suspeitas, em busca de ligações entre os presos e o chefe do Executivo.

Quem atravessa essa tormenta conhecida dos brasileiros é o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, eleito em 2013 com 72% dos votos e uma plataforma de defesa da transparência nas contas públicas. O prefeito nega: “Agi sempre de forma clara e dentro da lei”.

Sua maior dor de cabeça chama-se Campaign for One New York, organização criada para apoiar políticos afinados com seu projeto político, com doadores que vão de sindicatos a construtores, interessados em influenciar nas mudanças na legislação do estado e da cidade.

Em abril, a Comissão Eleitoral Estadual de Nova York acusou o prefeito e um grupo próximo de auxiliares de não ter declarado todo o montante doado a candidatos democratas e se negado a informar o nome de importantes doadores durante o esforço, fracassado, de tirar dos republicanos o comando do Senado estadual.

A denúncia reverteu-se em uma investigação formal do FBI. Uma visita-surpresa foi feita no raiar do dia à casa, no Brooklyn, do tesoureiro da campanha do democrata à prefeitura, Ross A. Offinger, diretor-financeiro da One New York.

Até o momento, os empresários do setor imobiliário Jona Rechnitz e Jeremy Reichberg, da JSR Capital, que doaram à campanha, são os principais alvos da investigação. Parte do financiamento privado, suspeitam os investigadores, era maquiada como fundos dos comitês democratas de várias localidades no estado. Em troca, a JSR recebia vantagens da prefeitura. 

Até o momento foram presos dois coadjuvantes da história, ligados a Rechnitz e Reichberg, mas uma investigação paralela busca descobrir se uma organização de defesa dos animais cujas contribuições legais à campanha do atual prefeito foram de 125 mil dólares, a Nyclass, cujos donos também atuam no mercado imobiliário, recebeu vantagens nos últimos dois anos. 

Foi, porém, a tentativa de influenciar o balanço político estadual (a capital do estado fica em Albany, a 242 quilômetros ao norte de Nova York) que despertou a suspeita do FBI. O ambiente político estadual é considerado um dos mais sujos do país e De Blasio apresentava-se como um antídoto aos “vícios de Albany”.

Neste mês o presidente da Assembleia Legislativa, o veterano deputado democrata Sheldon Silver, foi condenado a 12 anos de prisão por comandar um esquema de lavagem de dinheiro, extorsão e corrupção. O ex-líder da maioria, o republicano Dean Skelos, recentemente havia sido sentenciado a cinco anos pelos mesmos motivos.

 A mídia conservadora, notadamente o diário Wall Street Journal, o tabloide New York Post e o canal de notícias Fox News, todos pertencentes ao empresário Rupert Murdoch, tem enfatizado o que seria a contradição moral de uma candidatura defensora da ética ser acusada de participar de esquemas de corrupção ao lado do que há de mais atrasado na política de Nova York.

O prefeito, por sua vez, diz que só decidiu investir nas disputas estaduais para influenciar decisões importantes em favor da cidade: “Quando fui candidato, a quantidade de dinheiro contra mim foi avassaladora.

Não é surpresa, e observamos isso em muitas outras situações, que quando um chefe de Executivo progressista tenta implantar o programa de governo pelo qual foi eleito, interesses poderosos juntam-se para confrontá-lo”.

Há um ano o canal local de televisão NY1, do Grupo Time-Warner, entrou com um pedido público na Justiça para ter acesso às trocas de mensagens entre De Blasio e um de seus principais colaboradores, Jonathan Rosen, dono da firma BerlinRosen, especializada em relações públicas, finalmente negado pela Justiça. A BerlinRosen foi a responsável pela estratégia de campanha do democrata. 

Em 2014, de acordo com registros da prefeitura, Rosen reuniu-se 20 vezes com De Blasio em seu gabinete e há suspeitas de que tenha participado de decisões importantes, incluído o formato final da bilionária transformação da antiga fábrica de açúcar Domino, à beira do East River, em um complexo imobiliário de luxo no valorizado bairro de Williamsburg, na zona norte do Brooklyn.

Rosen tem entre seus clientes a Two Trees, responsável pelo empreendimento e que conseguiu, após a eleição do democrata, modificar o plano inicial de construção para incluir menos unidades de baixo custo.

As conversas mantidas em sigilo, alega a prefeitura, não envolveram “eventuais clientes de Rosen”, mas o dano à imagem do prefeito foi enorme. Em abril, apenas 35% dos eleitores se diziam satisfeitos com sua administração, de acordo com pesquisa encomendada ao Instituto Marist pelo Wall Street Journal em parceria com a Rede NBC.

Outrora apontado como possível postulante da esquerda do Partido Democrata à Casa Branca, De Blasio se vê na defensiva, sem participação destacada na campanha de Hillary à Presidência, acusado de instaurar um “governo paralelo”, formado por auxiliares cujos nomes não aparecem na folha de pagamento da prefeitura e cujos interesses de clientes com dinheiro de sobra para investir em campanhas eleitorais se sobrepõem àquele da maioria dos cidadãos em decisões cruciais para a cidade.

Qualquer semelhança com o Brasil é mera coincidência. Ou não. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 902 de CartaCapital, com o título "Caixa 2 à americana"