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Número 901,

Cultura

Papinho Gourmet

Chatos, mas necessários

por Marcio Alemão publicado 25/05/2016 02h50
Você sabe pedir cerveja?
Ilustração: Estella Maris. Foto: iStockphoto e Shutterstock

– Acho que foi na semana passada. Leio em um caderno especializado no assunto gastrô: “Você sabe pedir cerveja?”

– E aí? Você sabe?

– Provavelmente, não. Não li e não pretendo, nunca mais, chegar perto desses novos professores. Essas pragas que surgiram nos últimos anos e estão tentando nos ensinar a comer e a beber.

– Me impressiona a insistência, posto que o assunto já deu.

– E já faz tempo. Veja que interessante: na sexta à noite, em uma reunião, um sobrinho chega perto de mim com uma garrafa e uma taça de vinho. A garrafa já pela metade. E ele me pergunta: “Tio, este vinho é bom?” Olhei para o rótulo, não conhecia o vinho, olhei para ele, para a taça e perguntei: “Você tá gostando?” Ele disse-me que estava. Pronto. Esse é um bom vinho.

– Te juro que essa levantada de bola que deram na cerveja eu ainda não entendi.

– Cerveja custando 27 reais faz sentido? Continuo apostando forte na falta de assunto.

– Não entendi. O camarada desenvolve uma cerveja especial por falta de assunto?

– Não. Esse um tá na levada do “agregar” valor a um produto que, no Brasil, não chegava a ter nenhum diferencial significativo, ou bonito de se dizer. Aqui havíamos atingido o ápice da síntese sincera: Essa presta e aquela não presta. Gosto dessa, mas não gosto daquela. 

– Ou ainda, a definição que faz o maior sentido: começo tomando umas três da minha marca predileta e depois, meu chapa, a mais barata serve pra manter o meu teor alcoólico elevado.

– Concordo. Mas a história da falta de assunto eu já cansei de falar por aqui. Você está numa festa, uma reunião, 99% dos presentes são chatos. Você adoraria estar fazendo qualquer outra coisa, nem que fosse ver a simpática Carolina dando suas receitas ou ficando constrangido com as dancinhas da Rita, enquanto espera algo assar.

– Menos, vai!

– Que seja. Mas lá está você, observando como ficou bom o batente da porta. Ou folheando a conta de gás que o dono da casa recebeu. E eis que ele chega e te oferece uma triple malte pale ale lager ma non tropo pilsen que um maluco na Bélgica fabrica na casa dele só para parentes.

– Primeira pergunta a fazer: você é parente dele?

– A resposta sabemos: não. Mas ele tem um amigo que é.

– O mesmo amigo que conhece todos os caçadores de tartufo do Piemonte, aquele produtor de bordeaux que envasa apenas 100 garrafas a cada 10 anos e manda 90 pra ele...

– E então você está salvo. Pode passar toda a noite fazendo 1 milhão de perguntas sobre os maltes, a água, as filtragens, o lúpulo, a cevada, o clima. 

– Ou seja: no fim da conta até devemos agradecer aos professores.

– De certa forma, sim.