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Número 901,

Sociedade

Brasiliana

Os atletas sem bandeira dos Jogos de 2016

por Germán Aranda — publicado 26/05/2016 15h39, última modificação 28/05/2016 08h34
Popole Misenga e Yolanda Bukasa sonham em representar os refugiados nas Olimpíadas do Rio de Janeiro
Judô

Misenga e Bukasa recebem apoio do Instituto Reação

Poucos dias depois de decidir permanecer no Rio de Janeiro como refugiado, Popole Misenga, de 23 anos, viveu uma experiência que o fez lembrar da infância marcada pela guerra civil no Congo. “Esse cara me trouxe aqui para me matar”, pensou ao ser levado por um novo amigo africano à Favela da Cidade Alta, em Cordovil, e ver as armas dos traficantes que dominavam a comunidade.

O medo diminuiu ao longo do tempo, sumiu até, e Misenga incorporou-se à rotina do morro. E está perto de ganhar certa notoriedade entre os moradores. Lutador de judô, o congolês tem grandes chances de integrar a equipe de refugiados que pela primeira vez na história vai competir em uma Olimpíada, justamente na cidade a qual ele escolheu para reconstruir a vida.

Em outubro de 2015, Thomas Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional, confirmou a formação de uma equipe de refugiados impedidos de competir por seus países de origem. O comitê pré-selecionou 43 candidatos em todo o mundo. Desses, entre cinco e dez participarão dos Jogos. Misenga está bem cotado, assim como a compatriota e amiga Yolanda Bukasa, de 28 anos, também judoca.

Em busca do sonho, Misenga e Bukasa contam com o apoio do Instituto Reação, do medalhista olímpico Flávio Canto. Desde 2003, o instituto ensina judô em áreas carentes. Quem dá as aulas é Geraldo Bernardes, participante de quatro Olimpíadas. Bernardes mostra confiança nos congoleses. “Ao todo eles treinaram por um ano e quatro meses. 

Parece pouco, mas a oportunidade de treinar com a seleção olímpica brasileira, em um nível mais alto, talvez tenha valido mais do que se estivessem em seu país de origem.” O Comitê Olímpico Brasileiro, por enquanto, fornece aos atletas uma bolsa de apoio técnico, material de treino e transporte. 

Quando participava do Campeonato Mundial de Judô, realizado no Rio de Janeiro em 2013, Bukasa decidiu fugir da concentração da equipe do Congo por causa dos maus-tratos aplicados, segundo ela, pelos representantes da federação do país.

Faltava comida, conta, e dinheiro para o transporte. Bukasa dormiu vários dias na rua. Não demorou muito para Misenga seguir o mesmo caminho. Faminto, acabou derrotado em uma luta do campeonato e decidiu fugir. Acomodou-se nas imediações do Maracanã, sede da competição.

“Comecei a caminhar, a chorar. Procurei por africanos na cidade, até que conheci um e ele me indicou a Cáritas. Ficava perto de onde eu perambulava. Ele me disse que lá me ajudariam a conseguir documentos de refugiado.” Misenga diz ter pensado: “Não tenho nada aqui, não tenho trabalho, mas sou homem, posso me virar”. 

Judocas
Nascidos no Congo, os judocas tentam recomeçar a vida no Rio de Janeiro (Foto: Germán Aranda)

A dupla de judocas congoleses se conheceu em um campo de refugiados na capital Kinshasa, em fuga de suas cidades natais destruídas pelo conflito. “Popole é minha família aqui”, diz Bukasa, não tão otimista em relação ao futuro nem muito satisfeita com a vida no Brasil.

“Não sei se estou melhor. No meu país sempre tive muito medo de morrer e aqui ainda tenho, vejo armas todo dia. Ainda não consigo pagar minha casa e moro na dos outros”, reflete de forma crua e direta e um olhar distante.

“Uma vez, estava há um mês no País, a polícia entrou na favela para fazer uma operação policial e eu fugi. Disseram-me que seria pior e agora entendo um pouco melhor como funciona. Mas, a cada dia peço a Deus para não levar um tiro, porque aqui morrem de bala perdida.” 

Casado com uma brasileira, Misenga sente-se mais adaptado e nutre a esperança de poder retomar o contato com a família por causa dos Jogos Olímpicos. “Talvez alguém me veja na tevê, me reconheça e a gente possa se encontrar em breve”, sonha.

“Espero juntar dinheiro para trazer o meu irmão para o Brasil. Preciso encontrá-lo antes, saber onde está.” A mãe e boa parte dos parentes morreram durante a guerra, que na fase mais sangrenta durou de 1997 a 1999, deixou perto de 11 mil vítimas e retirou cerca de 800 mil habitantes de suas casas.

A espiral de violência ainda não cessou completamente. Estima-se que 8 mil congoleses vivam atualmente no Brasil. Desses, apenas Misenga e Bukasa podem realizar o sonho olímpico. Os integrantes da equipe de refugiados serão anunciados em junho.

*Reportagem publicada originalmente na edição 901 de CartaCapital, com o título "Atletas sem bandeira"