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Número 900,

Cultura

Papinho Gourmet

Os novos e alegres cozinheiros

por Marcio Alemão publicado 16/05/2016 05h00
Esqueceram como podia ser divertido cozinhar
Ilustração: Estella Maris / Foto: iStockphoto
Papinho-Gourmet

– É a turma que foi atrás do sabor que você extrai de boas matérias-primas sem se preocupar se ali existe uma inovação de processo

–A exemplo do chefe eu pensava com meus botões sobre essa rapaziada que se meteu na cozinha sem toga.

– Tipo quem?

– Falei outro dia sobre a casa de sanduíches Town, do Lucas Bassoleil.

– Lembro.

– E aí lembrei também da Z Deli sanduíches, do Julio Raw.

– Muito boa.

 – Também coloquei na minha lista outro sujeito admirável, o Rodrigo Oliveira do Mocotó.

– De fato, nenhum deles tá tentando fazer espuma.

– É a turma que foi atrás do sabor que você extrai de boas matérias-primas sem se preocupar se ali existe uma inovação de processo, se você descobriu uma reação química ou se está usando um ingrediente só conhecido pelas tribos Yuminhacarã.

– Quando você prova a comida dessa moçada fica muito claro isso. Fica claro que ao final da refeição ninguém espera que o elogio seja: muito interessante sua comida.

– Comida interessante, já disse milhão de vez, não dá vontade de repetir. Tô com muita esperança de que está chegando uma nova geração que já deu uma banana pras moléculas. Estão realmente interessados em fazer o melhor hambúrguer, o melhor dog, a melhor combinação de ingredientes que um pão pode abraçar. Tem preparação anterior, tem marinada, tem ragu de costela.

– E do lado do Rodrigo o sabor que a comida simples tem pra oferecer. Aliás, simples uma ova. Tudo ali é trabalhoso, e o que eu gosto de lembrar: é tudo prato conhecido.

– Verdade. Não tem aquele confit de formiga que ninguém no planeta tem a menor referência pra poder avaliar.

– Não dá pra não comentar que ele ganhou uma estrela do Michelin e que o Dalva e Dito também tem uma. Isso não faz o menor sentido.

– Sério que você vai entrar nessa? Nas estrelas do Michelin no Brasil?

– Tem razão. Esquece isso. Falar mais da nova geração que vem chegando com muito mais segurança e confiança.

– Eu acho que não erro em dizer que Ferran Adrià fez muito bem e muito mal ao mundo. 

– Muitos críticos no mundo dizem isso. Uma geração perdeu-se na tentativa de reproduzir o que o mestre catalão fez.

– Centenas de chefs brasileiros, aquela geração que descobriu a gastronomia como profissão e que o pai bancou tudo, inclusive a famosa passada pela cozinha do El Bulli.

– Perderam-se na procura da técnica, nas maravilhas da química, na tecnologia e deixaram de lado o básico porque o básico, na época, também andava sem prestígio.

– Esqueceram como podia ser divertido cozinhar. Fazer o rango que se fazia para os amigos nos momentos de larica.

– Mas isso tá voltando.