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Número 900,

Sociedade

The Guardian

Dobram os sinos de Ranieri

por Paolo Bandini — publicado 19/05/2016 06h09
O estilo e o humor do técnico que levou o Leicester a um feito inédito
Michael Regan/ Getty Images/ AFP
Ranieri

Na nobiliarquia de Leicester, Ranieri aparece hoje à frente do rei Ricardo III, enterrado na cidade

Os jogadores do Leicester City não foram os primeiros a ouvir Claudio Ranieri tocar seu sino imaginário. Danny Drinkwater causou muita graça na mídia britânica no mês passado, quando revelou a técnica de o treinador dizer: “Dilly-ding, dilly-dong” para restaurar o foco sempre que os níveis de energia começavam a cair durante um treino. 

Na Itália, ao menos um observador teve uma reação diferente. Ivo Pulga jogou por três temporadas com Ranieri no Cagliari entre 1988 e 1991. Quando ele soube dos comentários de Drinkwater, sentiu uma onda de nostalgia. “Você precisa escrever que ele inventou esse sino no Cagliari”, diz Pulga. “Assim que eu vi a reportagem na Inglaterra em março, minha mente voltou imediatamente à temporada de treinos, quando isso aconteceu. Foi de manhã bem cedo, e nós jogadores estávamos meio sonolentos. Ranieri viu que mentalmente ainda estávamos na cama, então gritou: ‘Dilly-ding, dilly-dong!, o treino começou. Dilly-ding, dilly-dong’. Depois disso, tornou-se a chamada oficial de nossa temporada. No Natal, ele deu a cada jogador um sino com a inscrição ‘Cagliari Calcio, dilly-ding, dilly-dong’ e o nome dele. Ainda tenho o meu em casa.”

O despertador simulado de Ranieri não foi menos curioso para os ouvidos italianos três décadas atrás do que é para os ingleses hoje. Funcionou, porém, em ambos os países. O técnico não ganhou um título principal com o Cagliari, mas o conduziu a promoções consecutivas da Terceira Divisão até chegar à Série A. E o manteve lá por diversas vezes, antes de conseguir o emprego no Napoli no verão de 1991.

O sino foi com Ranieri para Nápoles, e parece que para todos os lugares onde ele trabalhou desde então. O ex-meio-campo da Itália Antonio Nocerino, hoje com o Orlando City na Major League, lembra que ele o utilizava ainda no Juventus. “Quando tínhamos uma sessão de treino de manhã e alguns jogadores estavam lentos, ele os chamava ao meio do campo e gritava: ‘Dilly-ding, dilly-dong’. Quando li essa matéria sobre o Leicester, comecei a rir, porque todos aqueles momentos engraçados vieram rapidamente à minha cabeça.” 

Que Ranieri tem senso de humor não é novidade. Quando treinava a Roma em 2010, encerrou uma tensa entrevista coletiva antes da partida contra a Lazio com uma resposta em inglês à pergunta de um jornalista norueguês sobre John Arne Riise. Ao se despedir, repórteres locais rugiram de raiva por ele não ter traduzido o diálogo. Ele exibiu um sorriso ao grupo e mentiu: “Contei a ele qual é a nossa formação inicial”.

O fato de as piadas virem naturalmente não significa que não tenham objetivo. Fale com os jogadores italianos que trabalharam com Ranieri e quase todos usarão a mesma palavra para descrever sua tendência às piadas. Ele faz isso para sdrammatizzare, diminuir e dissipar a tensão que sua equipe possa sentir em determinada situação. 

É uma estratégia adotada desde o início. Seu primeiro emprego de treinador, em 1986, foi com um time fora da Liga, o Vigor Lamezia, na Calábria. O então capitão do clube, Fabio Fraschetti, lembra-se de como Ranieri costumava chegar ao treino toda terça-feira com um pacote de jornais embaixo do braço. “Ele lia as notas dos jogadores e nos animava dizendo coisas como ‘Oh, Tizio, você só tem cinco e meio’”, diz Fraschetti. “Ele brincava e comentava em termos irônicos. Não estava usando as notas para nos envergonhar. Queria sdrammatizzare e mostrar que isso não importava. Transformar as críticas negativas em positivas.” 

Ranieri, claro, era mais do que isso. Sempre foi um pensador de vanguarda de táticas e técnicas de treinamento. Ele apresentou os jogadores do Vigor Lamezia à marcação por zona, ainda incomum na Península, e falou com eles sobre psicologia do esporte. 

Para o treinador, qualquer time de futebol de sucesso precisa ter em sua base um grupo unido que compartilhe o sentido de remar juntos para um objetivo comum. Simone Perrotta trabalhou com treinadores talentosos como Luciano Spalletti, no Roma, e Marcello Lippi, na seleção nacional italiana. Entre uma companhia tão honrosa, era a capacidade de Ranieri de unir os profissionais que o diferenciava. “Diversos treinadores sabem conseguir o melhor de seus jogadores de maneiras diferentes”, diz Perrotta. “O que Ranieri fazia de especial era dar um sentido de empatia ao time. Se você conseguir criar uma situação empática dentro do vestiário, nos momentos difíceis seus jogadores sempre lhe darão algo a mais.”

Se o Leicester acaba de conquistar um título inédito histórico, não foi só por ter ousado sonhar grande, mas também por pararem de cochilar e começar a se unir. Bastou ouvir o dilly-ding, dilly-dong do sino de Ranieri.