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Número 899,

Sociedade

Recomeço

A segunda chance de Raquel de Oliveira

por Rodrigo Casarin — publicado 09/05/2016 03h49
Ex-mulher do traficante Naldo escapou da morte e trocou as drogas pela literatura
Paula Giolito/Agência O Globo
Raquel-de-Oliveira

Aos 54 anos, ela planeja novos livros e um mestrado sobre alcoolismo fetal

A polícia invadia a Favela da Rocinha. Preocupado, mas não assustado, Naldo, comandante do tráfico no morro do início dos anos 80 até aquele julho de 1988, pediu a Raquel para se esconder. Contrariada por deixá-lo para trás, ela esgueirou-se por vielas e se escondeu em buracos na encosta. Quando silenciaram as rajadas da Juvelina, apelido do fuzil HK de Naldo, ela teve certeza: a história de um amor bandido acabava ali, de forma trágica.

Aos 54 anos, Raquel de Oliveira reflete sobre aquele momento: “A vida foi gentil comigo. Olho para trás e vejo um rio de gente morta. Só me arrependi de não ter morrido ao lado do Naldo. Na minha mente tem aquela guerreira que gostaria de estar sempre com seu guerreiro amado, príncipe e princesa”.

“Não vou falar de crime”, continua, “pois fiz uma pesquisa para ver se o que fiz prescreveu, como a conivência com o tráfico, a formação de quadrilha. Não vou falar que matei, fiz, aconteci, mas também não vou falar que não. Todo mundo sabe que o envolvimento com o tráfico tem seu estatuto e coisas a cumprir. A gente acaba envolvida, não estava na igreja, mas na boca de fumo. ” Parte dessas histórias está em seu recém-lançado livro A Número Um.

A ex-primeira-dama da Rocinha conviveu com as drogas e a violência desde a infância. Aos 6 anos foi abandonada pelo pai, pedófilo que tentara sem sucesso abusar da filha em algumas oportunidades. Foi morar com a avó, que a venderia a um cafetão quando ela mal completara 9 anos. Garante ter escapado sem se prostituir. Começou a fumar maconha cedo. Ganhou o primeiro revólver na pré-adolescência.

Raquel cresceu no tráfico e chegou a comandar a atividade na Rocinha, com seus riscos e “glamour”. “Realizei fugas hollywoodianas, mas nunca fui pega.” Afirma ter experimentado praticamente de tudo. “Todas as drogas são ruins, não existe uma pior. O drogado é o único doente no mundo que não sabe estar doente. Fiquei muito mal por causa da maconha e do álcool. Apliquei heroína. Agora, o crack é a pá de cal do dependente químico.”

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Em A Número Um ela conta como escapou do pai pedófilo (Foto: Arquivo pessoal)e de um cafetão

Há dez anos ela trata o vício nas drogas, momento que coincide com sua volta aos bancos escolares. “Vivo na corda bamba até hoje, mas quer maior tensão do que voltar a estudar com 44 anos? Passei três dias surda com aquele burburinho.”

Por indicação do terapeuta, Raquel passou a transpor para o papel o que tinha vivido e tomou gosto pela escrita. Menos de três meses depois de iniciar o diário, arriscou-se na poesia. “Chorava muito quando escrevia, sentia muito desejo de usar drogas, e a literatura me deu força para continuar.” Hoje são mais de 500 poemas, nos quais ela expõe sentimentos e trata das “coisas do mundo”.

Nesse período, completou o ensino médio, prestou o Enem, ganhou uma bolsa de estudos na Unicarioca e se formou em Pedagogia. Em 2013, após participar da Festa Literária das UPPs, a Flupp, percebeu que escrever havia se tornado uma profissão. “Percebi como os meus escritos mexiam com os leitores. Passei a escrever contos com senso bem comum e ler para o pessoal da clínica, dava muito certo. Tinha final feliz, passava uma mensagem de esperança.”

O próximo passo é fazer um mestrado na Fundação Oswaldo Cruz, para se especializar na Síndrome do Alcoolismo Fetal. Além disso, projeta novos livros. Um deles será a história de uma criança que começa a experimentar drogas enquanto brinca com seus amigos (familiar, não?). A ficção é narrada a partir da perspectiva do protagonista.

Raquel ainda mora na Rocinha, em companhia de um dos três filhos. E tece críticas à política de pacificação das favelas. “É um retrocesso. Não somos selvagens para sermos pacificados. Vejo como um jogo por território que só agregou violência, que não tem proposta social alguma.” E a legalização das drogas? “Para o consumo controlado, sou a favor, mas liberar é impraticável. É impossível admitir a legalização do crack. O que tem de ser visto é a doença da dependência química, que não é tratada com o devido respeito.”

A ex-traficante tem uma visão bastante clara do papel da sociedade em sua trajetória de vida. “O sistema tem total responsabilidade sobre o produto que me tornei. O abandono era normal, a pedofilia, a prostituição, transformar menininhas em objeto para lucrar... Cresci em um lugar com muita bebida, muita puta, dinheiro fácil... Aquilo criava monstros, era nojento.” E reconhece a sorte de ter uma segunda chance. “Até que me saí muito bem nesse sistema maldito que continua a produzir as mesmas coisas. Apesar de tudo, fui feliz.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 899 de CartaCapital, com o título "Segunda chance"