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Número 899,

Política

Operação Lava Jato

Meire Poza, a infiltrada da Polícia Federal

por Henrique Beirangê publicado 04/05/2016 04h36, última modificação 04/05/2016 18h34
Novos documentos mostram como Meire Poza, aliada de Alberto Youssef, atuou como infiltrada da força-tarefa no Paraná
Cassiano Rosário/ Futura Press
Meire Poza

A contadora grampeou a esposa de Youssef e entregou nomes de diretos da Camargo Corrêa

CartaCapital revelou na última edição uma ampla troca de mensagens entre delegados, agentes da Polícia Federal e integrantes do Ministério Público com Meire Poza,  ex-contadora e braço direito do doleiro Alberto Youssef. Os diálogos e e-mails foram trocados entre maio de 2014 e setembro de 2015, durante o auge da Operação Lava Jato. As conversas tratam desde uma busca e apreensão armada para validar provas a informações confidenciais vazadas para a imprensa. 

Os diálogos ainda revelam que parlamentares foram alvo das investigações no início de 2014, quando o STF não havia dado autorização para detentores de prerrogativa de foro serem investigados e que a cúpula da força-tarefa em Curitiba trocava mensagens sobre a segurança da contadora, tratada como uma espécie de agente infiltrada pelos investigadores.

Como benefício pelo trabalho, a contadora nunca foi indiciada pela Polícia Federal e denunciada pelo Ministério Público. CartaCapital teve acesso a novos diálogos com mais detalhes das conversas. Poza nega-se a prestar esclarecimentos à revista.

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O delegado Anselmo trocava informações com Meire Poza. (Vagner Rosário/ Futura Press)

A contadora passou a contribuir com a força-tarefa no início de 2014, após a primeira fase da operação. No fim de abril, Poza trocou e-mails com o agente Rodrigo Prado a respeito de documentos apreendidos em poder de Youssef. Ela estava encarregada de tentar decifrar o significado de siglas e apelidos em uma tabela em posse do doleiro. Foi Poza quem esclareceu que “Leitoso” era Eduardo Leite, diretor da Camargo Corrêa.

Por consequência, Leite virou alvo da operação e foi condenado em julho do ano passado a 15 anos de prisão, mas vai cumprir apenas 24 meses em razão de um acordo de delação premiada.

Os diálogos revelaram que uma busca e apreensão foi armada para 1º de julho de 2014 entre o delegado Márcio Anselmo, o agente Prado e a contadora com o intuito de validar documentos que já haviam sido entregues por ela à força-tarefa.

Tratava-se de papéis das empresas de fachada de Youssef usadas para receber propina de construtoras investigadas na Lava Jato. O dinheiro era repassado a partidos e políticos ligados ao esquema. Um diálogo entre o delegado Eduardo Mauat e a contadora, de 20 de outubro de 2014, deixa claro que os agentes falavam com a contadora a respeito da devolução de parte desses objetos.

Durante a busca, um celular de Poza também acabou apreendido. A contadora questiona: “Boa tarde!! Alguma notícia do meu celular??” O delegado responde: “Hj foi complicado. Vejo amanhã, ok?” O diálogo a respeito da devolução do aparelho continua no dia 28. “Vc vão ficar chateada, mas tenho que te dar uma.ma notícia”, afirma Mauat.  E continua: “Teu telefone vai ter que ficar apreendido....te explico qdo vc vier a Curitiba”.

O trabalho da informante rendia à força-tarefa informações privilegiadas, inclusive da defesa dos investigados. Em junho daquele ano, a contadora confidenciou à Polícia Federal que Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa haviam decidido fechar suas delações premiadas. 

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O delegado Eduardo Mauat também mantinha troca de informações com a contadora Meire Poza. (Fábio Queiroz/ Agência AL)

Em uma das conversas com Prado, em 25 de junho de 2014, Poza diz ter sido informada por alguém próximo aos investigados de que os dois aguardavam apenas o retorno de férias do advogado do doleiro para avançar na discussão da colaboração com a Justiça.

“Hmmmmmmm... Tem uma boa... [Ela] disse que o Beto e o Paulo Roberto estão só esperando o Adv do Beto voltar de férias pra tentarem um acordo.” Os depoimentos da cooperação judicial do ex-diretor da Petrobras foram iniciados em agosto e os de Youssef, em outubro daquele ano.

O diálogo entre os dois continua. Poza diz que deverá se encontrar com Joana e pretende gravar a conversa. Trata-se de Joana Darc Fernandes Youssef, então esposa do doleiro. O agente responde: “Tenta gravar com teu telefone”.  Mais tarde, ela volta a falar sobre o assunto com o delegado Márcio Anselmo.

Ele pergunta: “O q ela falou de bom”. Poza responde: “Ela contou coisas e eu tbm contei”. E acrescenta: “E ela vai nas construtoras cobrar”.  O delegado fica intrigado: “Sério. Cobrar o que?” Meire explica que Joana iria até as construtoras UTC e Camargo Corrêa. A contadora explica as razões que levariam a então esposa do doleiro a procurar as construtoras, mesmo com o marido preso. “Disse que é por causa das filhas. E porque metade eh dela.” O delegado afirma: “Vai ser presa tb”.

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Em e-mail, Poza identifica diretor Camargo Corrêa em tabela de Youssef

Um e-mail trocado entre Prado e Poza em agosto de 2014 mostra que a função da contadora como infiltrada foi definida dentro da Polícia Federal. Na mensagem à informante, o agente anota: “Na reunião no térreo da PF, antes do seu primeiro depoimento, conversamos sobre isso. Que se fossemos frios e calculistas, seria muito melhor você infiltrada e nos passando informações. Mas deixamos claro que aquilo tinha que parar por causa da sua segurança”.

Mas a contadora Poza não ficou satisfeita com o tratamento da força-tarefa ao longo da operação. Em uma conversa com o procurador Andrey Borges de Mendonça, ela reclama por não ter firmado nenhum acordo oficial e diz sentir-se abandonada. O integrante do MPF fala das dez medidas propostas pela entidade de combate à corrupção. Ela reclama: “Faltou o item 11: o que é que se ganha denunciando, provando, testemunhando... Eu só perdi. Bjs”.

O procurador diz entender a insatisfação e afirma que as propostas foram pensadas para tentar mudar estruturalmente o sistema e a consola: “Mas seu lugar na história está reservado, como quem ousou enfrentar e mudar, mesmo tendo que pagar um alto preço por isto. Espero que no futuro o preço não tenha que ser tão alto”.

Usar infiltrados em operações da Polícia Federal foi alvo de nulidades pela Justiça brasileira. Em 2008, o Superior Tribunal de Justiça considerou que a utilização da Agência Brasileira de Inteligência na Operação Satiagraha foi ilegal. Toda a investigação foi anulada pela Corte. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 899 de CartaCapital, com o título "Cartas de Curitiba"