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Número 899,

Economia

Opinião

Caça às bruxas

por Thomaz Wood Jr. publicado 09/05/2016 03h49
Filme sobre roteirista perseguido pelo macarthismo é um alerta contra a submissão das ideias aos discursos de facção
Reprodução
Trumbo

Trumbo, filme de Jay Roach

Trumbo, filme do ano passado dirigido por Jay Roach, é uma obra mediana, melodramática e historicamente imprecisa. O drama é, entretanto, irresistível. A película é baseada na vida de Dalton Trumbo, um dos mais notáveis roteiristas do cinema norte-americano, vencedor de dois prêmios Oscar.

O autor do libelo pacifista Johnny Got His Gun nasceu em 1908, iniciou-se ainda jovem nas letras e escreveu mais de 80 contos e seis romances, quase todos rejeitados pelos editores. A sua persistência venceu. O jornalismo levou-o ao cinema e Trumbo tornou-se um dos mais requisitados e bem pagos roteiristas de Hollywood. Era um homem de esquerda, quando o rótulo ainda fazia sentido. O sucesso e o dinheiro não contaminaram suas crenças políticas.

Na segunda metade da década de 1940, com a Guerra Fria e a emergência do macarthismo, Trumbo e alguns colegas foram banidos dos estúdios e impedidos de trabalhar. Na cabeça delirante dos anticomunistas, eles integravam um complô para subverter os genuínos valores norte-americanos e eram penas a soldo dos arqui-inimigos soviéticos. 

Em 1947, o roteirista e nove colegas foram convocados a depor na comissão de atividades antiamericanas do Congresso. O grupo recusou-se a cooperar e foi processado. Trumbo foi condenado e preso. Seguiram-se anos de penúria, um desterro no México e trabalho clandestino. Trumbo e seus colegas escreveram dezenas de roteiros para filmes B, assinados com pseudônimos. Um deles, The Brave One, de 1956, rendeu-lhe um Oscar, oficialmente atribuído ao seu heterônimo Robert Rich.

Em 1960, o diretor de origem austro-húngara Otto Preminger interrompeu o banimento de Trumbo ao reconhecer publicamente o crédito pelo roteiro de Exodus. No mesmo ano, foi divulgada a sua autoria no roteiro do filme Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick, estrelado e produzido por Kirk Douglas.

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O personagem central é menos um esquerdista do que um defensor intransigente da liberdade de expressão (Foto: Reprodução)

Trumbo, o filme, concentra-se nas desventuras do roteirista e de seus amigos nas décadas de 1940 e 1950. Bryan Cranston interpreta o roteirista, papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Helen Mirren vive Hedda Hopper, uma colunista de fofocas sobre celebridades, fervorosa anticomunista. David James Elliott encarna John Wayne, outro fervoroso anticomunista, desmoralizado publicamente por Trumbo em uma cena memorável do filme. Ronald Reagan, ator e futuro presidente dos Estados Unidos, aparece em cena da época em uma brigada de caçadores de feiticeiras imaginárias.

O personagem central é menos um esquerdista do que um defensor intransigente da liberdade de expressão. O fio condutor do filme é o incorruptível apreço de Trumbo pela verdade e seus valores. Não lhe faltam excentricidades. O hábitat criativo do roteirista é a banheira, onde elabora suas tramas, movido a álcool e tabaco. Trumbo porta-se frequentemente como oráculo e parece exprimir-se por aforismos, como se suas falas fossem elas próprias trechos de um roteiro de cinema. Um de seus amigos chega a se irritar com a enxurrada de máximas que parecem ter sempre a pretensão de ser gravadas em pedra.

Em resposta a um repórter, que lhe pergunta se a lista negra se transformara em uma piada, Trumbo reage. Não vê graça no drama que atingiu dezenas de amigos e milhares de compatriotas. Afirma ter vivido o horror e a crueldade produzidos pela lista que os impedia de trabalhar, as terríveis perdas pessoais, e que as estatuetas do Oscar estavam banhadas no sangue de seus amigos.

Certos momentos históricos e determinadas configurações políticas parecem suscitar nas elites e nas massas comportamentos de manada, nas quais a racionalidade e o equilíbrio são subjugados. Tomam a cena emoções turbulentas, teorias conspiratórias, discursos desconexos e a afetividade exagerada, própria dos mais primitivos sentimentos.

O macarthismo foi um mofo da história, a embolorar mentes e decompor vidas. Outros delírios coletivos o seguiram, à direita e à esquerda, com líderes taciturnos ou carismáticos a vitimar o senso e a sensibilidade. O fascínio que exercem segue século XXI afora, aparentemente inabalado. Em muitos casos, paradoxalmente, nem as vítimas parecem percebê-los, perfilando-se com estandartes e alinhando-se com os discursos do momento.