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Número 898,

Cultura

Livro

Humilhados e ofendidos

por Rosane Pavam publicado 02/05/2016 04h14
Marcello Quintanilha, o mais celebrado desenhista brasileiro dos quadrinhos, examina os aspectos da culpa sobre o homem comum
Luciana de Oliveira
Marcello Quintanilha

Quintanilha foi premiado com com o maior e mais internacional entre os prêmios: Festival de Angoulême, na França

Pela cabeça de Marcello Quintanilha muitos pensamentos passam a cada segundo, à moda das imagens que se multiplicam por quadro em um filme de F. W. Murnau. Uma forma de pensar que, transformada em histórias em quadrinhos, significa mostrar, mas também contradizer os pensamentos. Um não dirigido às aparências, um sim às evidências.

A mais profunda dialética, apresentada como síntese no modo de expor o desenho e a palavra. Aos 44 anos, nascido em Niterói e residente em Barcelona há uma década, esse narrador que mescla a reflexão ao intenso realismo é um dos maiores artistas brasileiros, embora o seu ofício, como ele diz, o de contar os acontecimentos “através de quadros pequenos”, ainda o deixe por vezes fora da ribalta no País.

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Inspirado na fotografia, em Machado, em Chagall, o artista vê o drama cotidiano brasileiro

Em janeiro, Quintanilha ganhou o maior e o mais internacional entre os prêmios dedicados a essas novelizações, o Festival de Angoulême, na França. Sua HQ Tungstênio, lançada aqui há dois anos, em torno de personagens de Salvador, traficantes, policiais e sofredoras do amor, o fez saborear o ineditismo.

“Foi magnífico ter vencido, pela história da premiação e o que ela representa no meio”, ele diz a CartaCapital sobre a conquista mundial, que, segundo seu editor, Rogério de Campos, pode evocar no imaginário brasileiro a vitória pioneira da seleção de futebol em 1958, na Suécia. “Meu principal objetivo, fazendo quadrinhos, é o da comunicação, chegar ao maior número de pessoas possível”, afirma Quintanilha. Seu mais recente livro, Hinário Nacional (Hinário Nacional. Marcello Quintanilha. Veneta,136 págs.,R$49,90), chega para exemplificar essa peculiar grandeza. Trata-se de uma arte sem concessão. Às vezes ele pode separar em páginas diferentes o texto e os desenhos, sem perder, contudo, o ritmo da história, que funciona com meio, lógica e fim. Nos seis contos do livro, o artista traça um amplo espectro da sociedade brasileira de abusados, humilhados e ofendidos. Desde o primeiro conto, a submissão cala a mulher, o negro ou o velho, mas se trata de uma aceitação raciocinada, em que a vítima tem suas armas, pior que isso, sua culpa, e se serve delas na relação com seu opressor.  Hinário Nacional. Veneta, 136 págs., R$49,90

Em Ave Maria, Cheia de Graça, o Senhor É Convosco, por exemplo, a jovem nascida com uma mancha no rosto contesta a mãe, que, ao protegê-la e fazê-la sentir-se especial, levou-a enganosamente a se sentir aceita, enquanto o próprio namorado, em direção contrária, a diminui naquilo que pensa ou é. Ela cede aos filmes que ele quer ver. Ela gosta das histórias românticas, enquanto o namorado a quer ligada não em obras, mas em diretores. Nos quadrinhos de Quintanilha, a opressão parte de onde não se espera.

Desse homem que refreia o gosto cinematográfico da amada, mas também da amada, que aceita submeter-se. Dos pais que escondem o rosto e zangam-se com a filha, representada no início da história por uma lagarta atacada pela vespa, e que, abusada sexualmente na escola, não compreende por que os pais se zangaram, se seu abusador era um “amigo”. Do velho negro em Pai Doce que, humilhado no trabalho por ser negro, sonha semiacordado em se tornar o branco que manda na casa, violento, embriagado. Do motorista de táxi que, ao recordar sua juventude em Olhai pro Céu, vê nas suas passageiras, mãe e filha, a possibilidade de novamente experimentar um poder de sedução.

Hinário Nacional condensa meu assombro diante da violência que perpassa as relações interpessoais em todos os níveis, e com o fato de o quão frequentemente podemos assumir voluntariamente o papel de vítimas dessa violência”, explica o artista. “Mas também é sobre as estratégias que elaboramos para conviver com sentimentos como a culpa, sobre como somos induzidos a desejar reescrever toda nossa história de vida em determinado momento. A culpa nos dá a medida da nossa humanidade. Sob meu ponto de vista, ninguém deveria viver sem uma avassaladora dose de culpa.” 

Nos livros de Quintanilha, como ele diz, “absolutamente tudo poderia ser classificado como árduo”. Neste trabalho, duas histórias, Ave Maria e Pai Doce, haviam sido publicadas antes. Mas os quatro outros contos produzidos especialmente para o livro foram concluídos relativamente em pouco tempo, dois meses. “Não penso nem trato o desenho, a escrita e o argumento como elementos separados no processo de criação, de modo que seu desenvolvimento se define, de certo modo, por uma única etapa.” Na maioria das vezes, diz, tem uma ideia bastante clara do que quer fazer e de como expressá-la graficamente. “Assim, parto de uma linha básica, que engloba começo, meio e fim. Logo, à medida que vou trabalhando e, consequentemente, adentrando o universo dos personagens, sou conduzido por eles através da história, só a partir daí definindo sua extensão e ritmo.”

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Extensão e ritmo

Ele nunca pensou em ser um escritor de romances, mas muitos autores o inspiraram a escrever histórias, menos pelas histórias, mais pela maneira com que o fizeram. Porque a literatura brasileira, lembra Quintanilha, não se construiu a partir de um mercado. Antes, foram os autores a equacionar suas vidas em torno da motivação em escrever. “Não é desacertado pensar, portanto, que a literatura brasileira se fez no funcionalismo público, no jornalismo.” Ele não se entende um profissional ao fazer quadrinhos, nem considera o profissionalismo “um paradigma necessariamente positivo”.

Entre os escritores que mais o inspiram, está Machado de Assis, e “me sinto infinitamente afortunado por ter podido caminhar pelas ruas que aparecem em vários de seus romances”. Lima Barreto é outra grande influência, além de Mário Filho, cuja forma de encadear as palavras sempre lhe soou como música, e Clarice Lispector.

Na pintura, Chagall, Degas, Francis Bacon e Caravaggio. E, na fotografia, o fotojornalismo. “Me interessa sobretudo a figura capturada em um instante fotográfico, despida de qualquer intencionalidade”, diz. “Minhas noções básicas e o posterior entendimento da dinâmica do movimento vêm precisamente da observação das fotos publicadas na imprensa dos anos 1970, especialmente as de futebol.”

Os quadrinhos o maravilharam por toda a vida. Os de John Buscema, François Boucq, Cabanes, Roy Crane, Hugo Pratt, García-López e Frank Jacobs ele coloca em um “panteão sagrado”. Nunca, contudo, motivou-se pela ambiguidade. Suas histórias, como diz, prescindem do desdobramento linear apenas para chegar profundamente ao cerne do que se propõe a contar. “Isso só pode ser alcançado através de uma relação de absoluta confiança entre o autor e o leitor, um dos pontos fundamentais da construção do meu trabalho.”

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Em Tugstênio, vencedor do Festival de Angoulême, as vidas brasileiras a partir de sua base

Gosta de dizer que nossa casa está onde se localiza nosso coração. Barcelona e Niterói são os lugares onde se sente à vontade. “Sobre voltar ao Brasil, embora nunca faça planos, sob nenhuma circunstância, para absolutamente nada, todas as portas estão abertas.” Mesmo que seja para retornar agora, quando, ele crê, a população historicamente alijada do processo da discussão política passa a fazê-lo, estimulada pelo modo como a informação passou a circular. “Sem um profundo processo de estruturação em nível nacional, sem a revisão periódica da eficiência na aplicação dos recursos públicos, qualquer avanço social se vê comprometido a longo prazo.” O Brasil não enfrentou ainda sua questão de infraestrutura, acredita. Eis por que, a seu ver, parece provável que continuemos a passar por períodos de avanços e recuos intermitentes ao longo dos anos.