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Número 897,

Sociedade

Futebol

Juiz de várzea

por Marivaldo Carvalho — publicado 29/04/2016 02h33
PC impõe sua autoridade no terrão e sonha em se tornar árbitro profissional
Marivaldo Carvalho
Juíz

"Maluco", definiu o pai ao saber da decisão do filho Paulo Cezar de apitar jogos da várzea

O Fiat Stilo prata estaciona perto do número 30 da Rua Fragata Constituição, no acesso ao campo de terra do CDC Parada de Taipas, extremo oeste de São Paulo. O som do pagode inunda as redondezas, enquanto o motorista sai do carro, põe a mochila nas costas e segue ao vestiário. “Vê direito, hein!”, grita um torcedor da arquibancada. Faltam 40 minutos para o início da partida entre o Real Brasília e o União Yadoya. 

Paulo Cezar Pereira da Silva, o PC, 34 anos, está acostumado. Há dois anos apita jogos na várzea paulistana. Aos sábados, do meio-dia às 6 da tarde, atua em quatro partidas seguidas, ora como árbitro, ora como bandeirinha. No domingo, a vida é um pouco mais tranquila: apenas dois compromissos. Pelo trabalho, recebe 80 reais por jogo (se é juiz) ou 40 reais (como bandeira). Nos dias de semana, comanda uma equipe de 80 motoboys.  “Jogador de futebol dá mais trabalho, reclama demais”, compara.  

Dez minutos antes do início da peleja, PC e os auxiliares esperam no centro do terrão. A temperatura passa dos 30 graus de um outono atípico na capital paulista. O confronto atrasa 20 minutos. O primeiro cartão amarelo sai aos 12 minutos do primeiro tempo. O faltoso não reclama, mas a torcida e o técnico pegam no pé. “Tá mentindo, hein professor.” “Não é pirulito isso aí não.” “Pô, juizão.” Quase no fim do primeiro tempo, um atleta que já havia recebido um amarelo reclama de forma acintosa. PC corre em sua direção e com a mão no bolso, cabeça praticamente encostada no rosto do jogador, vocifera: “Fala de novo”. Silêncio. Após dois tempos de 35 minutos, o União goleia o Yadoya: 5 a 2. O árbitro não influencia o resultado e termina a peleja sem maiores problemas.

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PC ganha 80 reais por partida como juíz. A metade, se for bandeirinha. (Marivaldo Carvalho)

Antes da próxima partida, PC sai do campo para fumar um cigarro. “Sempre procuro apitar bem para não sofrer agressão. A gente sabe como é.” O juiz já sentiu na pele. Em setembro de 2015, após anular um gol de mão na final da Copa Tan Tan, levou dois pontapés de reservas que invadiram as quatro linhas. O Arsenal vencia o Unidos por 2 a 1. O tumulto foi generalizado, torcedores invadiram o campo. Faltavam 20 minutos para o fim da partida. Diante da confusão, os organizadores decidiram encerrar o jogo e sagrar o Arsenal campeão do torneio.

Qual o efeito do episódio? Nenhum. “Nunca deixei me intimidar, se não tivesse pulso firme, já teria abandonado.” PC lembra que no duelo entre o Arvão e o Mano a Mano pela Copa Verão, realizada em fevereiro, expulsou um jogador aos 6 minutos e outro aos 20 do primeiro tempo, um de cada time.

Quando Marcos Vicente, pai de PC, recebeu a notícia de que o filho se tornara juiz de futebol na várzea foi monossílabo: “Maluco”. Mas apoiou a decisão, embora nunca tenha aparecido para assistir à atuação de PC. Este ainda nutre a esperança de ver o pai na arquibancada. 

Ele recorda-se de um grande erro: “Uma vez não dei um pênalti, chovia muito. Todo mundo me falou depois que tinha sido. Para minha sorte, a partida terminou 0 a 0 e foi decidida nos pênaltis. O time para o qual não marquei a penalidade venceu”.

Já passou por outro aperto? Literalmente, sim. Aos 30 minutos do primeiro tempo da Copa Peri, na Arena Brahma, zona norte de São Paulo, PC suava frio. Uma indisposição. O juiz pulou os acréscimos e, mal apitou o intervalo, correu até a comissão de arbitragem e avisou: “Preciso dar uma saída”. O segundo tempo começou com 10 minutos de atraso. Explica: “Só me alivio em casa”.

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“Tá mentindo, hein professor.” “Não é pirulito isso aí não.” “Pô, juizão.” (Marivaldo Carvalho)

PC confirma o senso comum de que todo juiz é um aspirante frustrado a jogador. A vida difícil na periferia o obrigou a optar entre insistir na carreira de boleiro ou ganhar a vida para sustentar os filhos que teve muito jovem, aos 21 e 24 anos. “Minha vida sempre foi uma vida sofrida, de muita luta, muita entrega, muito sacrifício.” Seus pais separaram-se quando ele tinha 9 anos. Por causa de um relacionamento difícil com o padrasto, saiu de casa aos 13. Casou aos 18 e separou-se algum tempo depois. Treinou várias equipes de várzea, mas o destino lhe reservava o apito.

Aos 34 anos, PC sonha agora com a carreira profissional de árbitro. E gostaria de segui-la passo a passo: da Copa São Paulo de Juniores às séries C e B, até chegar ao Paulistão (ou Paulistinha, como define o jornalista esportivo Juca Kfouri). 

Vontade não lhe falta. Nem paixão pelo futebol, seja ele jogado em um tapete verde, seja ele na aspereza do terrão.