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Número 894,

Cultura

Papinho Gourmet

No teatro é diferente

por Marcio Alemão publicado 06/04/2016 04h20
Lanchonete de teatro é assim: não tem e o que tem não presta ou tá frio
AEG Live Rocky Mountains
Teatro

O povo do teatro gosta das coisas naturais

-Na semana passada eu falei sobre algumas coisas inexplicáveis no mundo da gastronomia.

– Lembro.

– Esqueci de uma bem interessante.

– Com certeza você esqueceu de muitas. Aquilo foi só uma pincelada.

– Concordo. Mas essa é notável e talvez você me ajude a encontrar possíveis explicações.

– Então diga lá. Sobre o que vamos falar?

– Lanchonete de teatro.

– O que tem?

– Não tem e o que tem não presta ou tá frio.

– Explica melhor.

– Você entra em qualquer teatro. Tem lá um balcão com uma estufa. E dentro dessa estufa o que você geralmente encontra?

– Agora tô me lembrando. Geralmente, tem dois pães de queijo deprimidos, já encontrei aquelas esfihas enormes com muita massa...

– Algumas arriscam um sanduíche natural com aspecto de cadáver.

– O povo do teatro gosta das coisas naturais. Tenho dúvidas se com aspecto cadavérico.

– Mas o que se pode dizer é que o povo do teatro não se incomoda com isso, porque isso não muda desde o tempo de Martins Pena.

– Mas você dizia que isso pode ter uma explicação.

– Não sei se uma explicação. Uma delas talvez você tenha dado: os frequentadores não ligam. Ninguém vai ao teatro pra fazer um lanche.

– Pronto. Explicado.

– Não. Por que, então, eles mantêm a lanchonete aberta e a estufa tristonha? Sabe o que eu acho que acontece?

– Me diga

– O camarada que toca a lanchonete tem um acordo com uma padaria próxima. E o acordo é o seguinte: “Seu Manoel, se sobrar algum salgado no fim do dia, manda pra gente”.

– Faz sentido. Tem dia que sobra, tem outros que não.

 – Outra possibilidade: o fornecedor mais em conta que acharam só faz entrega no período da manhã.

– Se fosse isso, teria um grande estoque. Frio, mas farto.

– O problema é que a menina que toma conta da lanchonete...

– Geralmente uma pessoa tristonha, né?

– Geralmente uma pessoa que perdeu totalmente a fé no ser humano e não vê o menor motivo para acordar no dia seguinte. Seu único sonho: que a peça comece logo pra ela se mandar e jogar as coxinhas, o quibe, o pão de queijo no reciclável. Pois essa pessoa, que é obrigada a chegar cedo, não tem outra fonte de alimentação que não seja a da estufa. É justo que ela coma alguns dos itens.

– Nem pensar em vale-rango. Teatro é pobre.

– Nesse caso, penso eu. Não seria melhor assumir a velha bonbonnière? Nada quente. Balas, bombons, chocolates e, quem sabe, umas barrinhas.

– É que... sei lá, as pessoas se afeiçoaram àquela imagem triste da estufa quase vazia.

– Pode crer. Tem toda uma leitura a ser feita disso. Fiquemos com ela. 

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