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Número 894,

Internacional

The Observer

Bélgica, uma destilaria de extremistas

por The Observer — publicado 08/04/2016 03h50
As autoridades pagam por ignorar o país no jogo do terror
Carl Court/ Getty Images/ AFP
bruxelas

Bruxelas: o país virou fonte de combatentes para o Estado Islâmico

Por Jason Burke

A Bélgica parece um local improvável como polo de violência extremista na Europa. Mas há bons motivos para a concentração de atividade radical naquele pequeno país. Muitos dos problemas que levam à militância são comuns a todo o mundo, desenvolvido ou em desenvolvimento e, embora possam diferir em gravidade, têm as mesmas consequências.

Esses incluem uma minoria muçulmana de tamanho considerável e mal integrada, altos níveis de desemprego jovem nessa comunidade, a disponibilidade de armas, uma rede de comunicações e transporte altamente desenvolvida que atravessa o país, autoridades muitas vezes complacentes e sempre mal financiadas e a instabilidade política interna. 

Como outros países, a Bélgica viu a aparentemente inexorável disseminação de uma ideologia violenta por meio das redes sociais e entre pares, o que, se não incentiva diretamente a violência, sem dúvida promove uma visão de mundo cheia de ódio, intolerante e profundamente conservadora.

As raízes históricas do problema atual são profundas. Assim como outros lugares da Europa, a Bélgica sofreu ondas de terrorismo nos anos 1980 e 1990 ligadas à instabilidade social no Oriente Médio. “Há uma longa história de conexão entre a Bélgica e a França no reino do terrorismo”, disse Rik Coolsaet, especialista no assunto da Universidade de Gent.

Nos anos 1990, a militância no norte da França ligada à guerra civil na Argélia espalhou-se para a Bélgica.

Ao menos um pregador expulso da França chegou a Bruxelas. Quando os moradores manifestaram preocupação, as autoridades lhes disseram que o religioso era “marginal”, relatou em novembro Johan Leman, veterano ativista contra o racismo em Molenbeek, o bairro de Bruxelas de onde vieram muitos dos acusados dos atentados de Paris e onde Salah Abdeslam foi preso.

Na primeira metade da última década, enquanto os serviços de segurança europeus lutavam para compreender a nova ameaça que enfrentavam e bombas explodiam em Madri e Londres, a Bélgica foi amplamente ignorada, apesar das crescentes evidências da existência de redes extremistas baseadas no país.

Apenas algumas dezenas de belgas foram ao Iraque, mas isso foi um contingente considerável em termos relativos. Os voluntários incluíam uma convertida de Charleroi, que morreu em 2005 ao bombardear um comboio dos EUA no Iraque e tornou-se a primeira mulher europeia a praticar um ataque suicida. 

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Abdeslam foi preso na sexta 18.

Outros viajaram ao Afeganistão. Em 2008, uma rede que enviava jovens belgas muçulmanos para campos de treinamento da Al-Qaeda foi desbaratada.

Muitos pareciam decepcionados com o que encontraram na zona de combate, mas isso não pareceu conter o fluxo. Vários retornaram com a intenção de cometer atentados em seu país, afirmaram os promotores. Nas cidades belgas, floresceram redes radicais ostensivamente não violentas.

Entretanto, assim como em outros países europeus, a guerra na Síria catalisou os profundos problemas existentes. Segundo algumas estimativas, a Bélgica forneceu o maior número per capita de combatentes entre todos os países europeus.

Especialistas dizem que perto de 450 convertidos viajaram para lá, de uma população total de 11 milhões e menos de 500 mil muçulmanos. Uma estimativa do pesquisador belga Pieter van Ostaeyen é de 562. A maioria adere ao Estado Islâmico, enquanto alguns optam pela Jabhat al-Nusra, afiliada da Al-Qaeda. Mais de 80 foram mortos, muitos em batalhas recentes no leste da Síria. 

Molenbeek, distrito de 90 mil habitantes na capital belga onde algumas áreas são 80% muçulmanas, é considerado por muitos um problema especial. Comentaristas afirmaram que Molenbeek é virtualmente uma área de exclusão, onde “a polícia tem pouco poder”. Mas entrevistas de campo revelam uma comunidade diversificada que luta para enfrentar um sério problema. 

Segundo Leman, que também trabalha lá, os recrutadores muitas vezes dizem aos adolescentes que seus pais não conhecem “o verdadeiro Islã”. “Eles dão uma dimensão islâmica a um típico processo adolescente de rebeldia.”

Uma pesquisa da Universidade de Oxford confirma a importância das redes sociais: amigos ou colegas tiveram um papel básico no recrutamento de três quartos dos combatentes estrangeiros do EI. Parentes representaram um quinto dos recrutas, enquanto as mesquitas foram consideradas responsáveis por apenas um em cada 20.

Montasser AlDe’emeh, pesquisador em Molenbeek que aconselha antigos e atuais combatentes, disse conhecer pessoalmente dois deles que lutaram na Síria e foram mortos em janeiro em um tiroteio com a polícia belga na cidade de Verviers. “Costumavam frequentar o café aonde vou de vez em quando. Todo mundo conhece todo mundo aqui. Eles falam, trocam vídeos, fazem planos. Funciona assim.” 

AlDe’emeh acredita haver dois perfis de militantes: os idealistas ingênuos, integrantes da primeira onda a viajar à Síria, e os extremistas muito mais violentos, da segunda leva, preparados para atacar em seu país. O último frequentemente tem uma longa história de envolvimento em crimes às vezes sérios.  

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Os atentados em Bruxelas deixaram dezenas de mortos. (Carl Court/ Getty Images/ AFP)

Os serviços de segurança belgas pareciam sobrecarregados, apesar da qualidade individual de muitos oficiais. Revelou-se que algumas centenas de agentes deveriam vigiar milhares de potenciais militantes. “Estamos simplesmente exaustos”, disse um oficial graduado da segurança em um e-mail. Um pacote antiterrorismo de 200 milhões de libras (cerca de 1 bilhão de reais) foi anunciado em fevereiro. Tarde demais. 

Mais uma vez, aquele que escapou pode ter levado a muitas outras mortes. Salah Abdeslam, francês que cresceu em Molenbeek, foi o único sobrevivente do grupo enviado a Paris. Ele fugiu, voltou à Bélgica e finalmente foi apanhado na sexta-feira 18. Nos próximos dias e anos, as autoridades terão de explicar por que não conseguiram deter um ataque que sabiam próximo. 

*Publicado originalmente na edição 894 de CartaCapital, com o título "Uma destilaria de extremistas"