Você está aqui: Página Inicial / Revista / A promoção do caos / O Rio do "João do Rio"
Número 893,

Sociedade

História

O Rio do "João do Rio"

por Nirlando Beirão publicado 05/05/2016 04h03
O que o Rio Olímpico de 2016 tem a aprender com o Rio convulsionado da belle époque
Malta
Avenida-Central

O flâneur e seu bulevar (a Avenida Central, hoje Rio Branco, em 1913)

simbiose do cronista e da cidade era tão perfeita que, de todos os pseudônimos que usou, ao longo de uma prolixa produção de 2,5 mil textos, foi aquela grife “João do Rio”, possivelmente calcada num certo Jean de Paris, do Le Figaro, que acabou conferindo a ele sua identidade literária e reafirmando seu status de cidadão de curiosidade voraz, transeunte, pedestre e flâneur, numa metrópole em convulsionada transformação. 

Ao optar pelo jornalismo, aos 18 anos, o autodidata Paulo Emílio Cristóvão Barreto, nascido em 1881, carioca da Rua do Hospício (hoje, Buenos Aires), filho de pai gaúcho positivista e mãe mulata, foi também “Caran d’Ache”, “X”, “Claude”, “Joe”, “Paulo José”, alternando-se no conveniente exercício de sua polivalente pena, como dramaturgo, crítico de arte e de literatura, contista, tradutor e romancista. A bela caixa que acaba de ser editada pela Editora Carambaia, com três volumes, testemunha toda sua versatilidade. 

Mas foi no João do Rio das crônicas urbanas, etnógrafo das artérias, demiurgo da “alma encantadora das ruas” (expressão dele), que o articulista polêmico, mulato, calvo, gordote e homossexual, exercendo a desprezada escrita das “coisas miúdas” (definição de Machado de Assis para a crônica, inclusive as suas próprias), foi obstinadamente buscar um difícil acolhimento social e artístico. 

João do Rio crédito Reprodução.jpg
Vestia-se como um dândi inglês. Mas curtia o lado B da metrópole (Foto: Reprodução)

Sua morte súbita, em 1921, mostrou quão popular era aquela figura excêntrica, abraçado que foi, no féretro, pela cidade que ele abraçara. O Paíz – cujas páginas ele frequentara entre 1915 e 1917, com a coluna Pall-Mall, inventário dos costumes frívolos do grand monde nativo à moda de um Marcel Proust resignado à nobiliarquia rastaquera dos trópicos – noticiou uma multidão de 100 mil pessoas no cortejo. O Rio, à época, não chegava a ter 1 milhão de habitantes.  

“O Rio civiliza-se!” – definiu, com direito à interjeição, um colunista da época. A metrópole da virada do século “sorria para o progresso que levava estampado na nova bandeira”, escreve Julia O’Donnell (De Olho na Rua – A cidade de João do Rio; Zahar, 2008). “A modernidade, que outrora batia à porta, agora arrombava a cidade sem pedir licença.” O poeta Olavo Bilac, apóstolo da transfiguração, renegava a “cidade colonial, imunda, retrógrada” e se extasiava com “o hino claro das picaretas – as picaretas regeneradoras!”  

A República, com Rodrigues Alves na Presidência (1902-1906), impunha seu projeto civilizatório de ruptura com o passado de uma monarquia bonachona e abúlica. A capital tinha de ser o espelho de uma nação vertiginosamente moderna. Melhor assim para um narrador como Paulo Barreto, disposto a, com sua prosa em movimento, acompanhar a cirurgia urbanística de olhos bem abertos, com postura basicamente acrítica, sem emitir altos juízos de valor ainda que com verniz progressista (o que fez o crítico Antonio Candido analisar nele seu “radicalismo de ocasião”).  

Rodrigues-Alves.jpg
Rodrigues Alves arquitetou uma capital europeia para a República que nascia (Foto: Reprodução)

O governo Rodrigues Alves – anota João Carlos Rodrigues, na introdução à Vida Vertiginosa, coletânea de crônicas em que o império do automóvel, da velocidade, da pressa, da correria e do frenesi circulatório reflete, em 1911, a mesma obsessão manifestada simetricamente pelos futuristas italianos – assumiu com os cofres cheios, graças à política de austeridade financeira do antecessor Campos Salles. “O novo presidente reuniu em seu ministério uma equipe de notáveis.

 

Osvaldo Cruz na Saúde Pública e Pereira Passos na Prefeitura Municipal foram os dois principais agentes dessa transformação urbana, que não se deu por formas suaves e democráticas, mas autoritárias, como a vacina obrigatória e as demolições no centro da cidade, com as respectivas violações dos direitos civis da população pobre.” Nesse contexto, a vacinação compulsória contra a febre amarela, decretada em 1904 e executada sob o comando de Osvaldo Cruz, a despeito de violenta reação popular, não obedecia apenas a um imperativo higienista; era também como se a ex-Corte quisesse purgar as moléstias alegóricas do renitente provincianismo.

A abertura da Avenida Central (atual Rio Branco), arborizada como se fosse um daqueles bulevares de Paris rasgadas pelo Barão Haussmann, 1,8 mil metros de extensão e 33 metros de largura, cortadas por um passeio público ao meio e bordeadas por calçadas de 7 metros, nos moldes dos Champs-Élysées, demoliu mais de 1,6 mil construções residenciais e desalojou 20 mil moradores – principalmente de cortiços. O resultado é que, incapazes de fazer frente às despesas da consequente especulação imobiliária, os desterrados subiram os morros e criaram as primeiras favelas do Rio.

A Avenida Central, a mais atraente fachada da operação bota-abaixo conduzida, no solo, pela marreta do engenheiro Paulo de Frontin, anunciava-se como novo ponto nevrálgico da urbe, ligando o cais do porto a uma estratégica Avenida Beira-Mar a ser inaugurada em 1906, inteligente antevisão de um futuro que conduziria o Rio em direção à sua zona sul (coincidentemente, o mais reluzente frontispício do Rio Olímpico de 2016 exigiu uma profunda incisão na atual Avenida Rio Branco e trouxe de brinde uma conflagração urbanística na Praça Mauá e na região do cais do porto).    

1285615649929-620x264.jpg
A transformação urbana não se deu por formas suaves e democráticas, mas autoritárias (Foto: Reprodução)

Dos escombros do bota-abaixo floresceu a ilusão da cidade francesa, em simulação de belle époque, “a Paris dos Trópicos”, logo, logo, “Cidade Maravilhosa”. João do Rio tinha com o que se esbaldar. O novo espaço público exprimia uma sacolejada cultural, dizia ele. Numa curiosa reflexão sobre o calçamento da Rua Direita, escreveu: “Não esqueçamos, meus amigos, de que o homem é produto do meio. O país faz o cidadão – e o calçamento faz o transeunte”, Gazeta de Notícias, 23/9/1903, citado por Julia O’Donnell. 

O espaço do flâneurque em Paris teve em Baudelaire seu mais sensível apologista – se abria no Rio em busca de seu melhor tradutor e embora candidatos outros houvesse, a começar pelo decano Machado de Assis, o promissor Lima Barreto e os já consagrados Joaquim Nabuco, Raul Pompeia e Coelho Neto, não coube a ninguém senão a João do Rio esta primazia. “É vagabundagem?” – ele próprio se perguntava. “Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência.” Candidamente, escreveu: “Um dos deliciosos prazeres da vida é ver passar a gente nas ruas”, O Paíz, 08/7/1916. O footing dos elegantes estava, no novo bulevar, definitivamente instaurado. 

Francisco Pereira Passos (O prefeito Pereira Passos posando para Rodolpho Bernadelli - Fonte - Foto Malta. Arquivo IHGB, Rio de Janeiro).jpg
O prefeito Pereira Passos (Foto: Malta)

Não que João do Rio se deixasse levar a esmo pela embriaguez da modernidade, como era o caso de Olavo Bilac. Também não se colocava ao lado dos moralistas nostálgicos, como Lima Barreto. Conseguia ser distante e até sarcástico, como quando flagrou na Rua do Ouvidor, onde se alinhavam salões de chá e butiques de luxo, “a fanfarronada em pessoa”, “a artéria da futilidade”, “inferno de pose, de vaidade”.

A verdade é que, mesmo depois de fazer derreter, a duras penas, a intolerância que os esnobes de sangue e de dinheiro lhe devotavam, a ele e a seu ofício, a ponto de só ser enfim aceito pela Academia Brasileira de Letras em 1910, após duas tentativas fracassadas (por ironia, sendo ele quem era, foi a primeira posse em que se usou o fardão), o cronista da metrópole nunca conseguiu se desligar daquele lado B do Rio, sua face miserável, impermeável à modernização – o Rio africano dos saraus da Tia Ciata, das primeiras rodas de samba e das “casas de feitiço” nas quais ele se demora em seu best-seller As Religiões do Rio, cidade que ele chamou de “Babel da Crença”.

“O cronista visitava o mundo dos morros, da criminalidade e da mendicância”, narra Julia O’Donnell, “decidido a desvendar uma cidade que a República deixara bastarda. Nas noites, longe dos brilhos dos salões, João do Rio esgueirava-se pelas ruas e falava aos seus leitores sobre a vivência urbana dos fumadores de ópio, tatuadores, crianças criminosas, prostitutas e trabalhadores da estiva”. Esse seu lado decadentista aproximava-o de seu ídolo das palavras, Oscar Wilde; sua compaixão realista lembrava Charles Dickens e Émile Zola.  

02224_gg.jpg
O que Pereira Passos derrubava, Lima Barreto ironizava (Foto: Malta)

E havia sempre um ou outro desafeto pronto a fazer lembrar, ao dândi enfatiotado, de “terno bem talhado, camisa de seda, gravata fina, colete, colarinho alto e rígido, plastrom, chapéu de bico, monóculo, bengala” (segundo um contemporâneo seu), suas origens sem pedigree, a ponto de Antônio Torres, opositor inclemente, chamá-lo de “manta de toucinho com dois olhos – que se diz fidalgo, apesar de sua beiçorra etiópica e de seu prognatismo camítico”. 

Lima Barreto, para quem o estrepitoso bota-abaixo era espetáculo de purpurina aos olhos dos iludidos, fez da Avenida Central a mais dura comparação: uma “mulata apertada em vestido francês”. Profetizava que, com o uso, o vestido importado acabaria esgarçado pela realidade hostil da nação tropical. Não custou muito para um desafeto estender a metáfora de Lima Barreto ao próprio João do Rio, inconformado ao ver aquele mulato todo encasacado à francesa chafurdando, com suas polainas, na poeira levantada pela barafunda das obras, pagando ali o pecado de ser brasileiro (e mestiço, faziam questão os adversários de lembrar, o tempo todo) em meio ao delírio de inviável cosmopolitismo. 

Gilberto Amado, que era amigo dele, atribui à mãe de Paulo Barreto, “uma morenona alegre e vivedora”, a transmissão ao temperamento do escriba de “todos os dengues, molezas e ademanes que o tornaram repugnante aos austeros”. A elite torcia o nariz, mas a posteridade o acolheu.

Interdicao-de-tres-faixas-da-avendia-Rio-Branco-causa-transtornos-no-centro-do-Rio-de-Janeiro-foto-Fernando-Frazao-Agencia-Brasil_201412020013.jpg
O Rio Olímpico volta a cavoucar o eixo da modernidade (Foto: Fernando Frazão/ ABr)

João do Rio testemunhou visceralmente duas décadas de civilização em marcha, “a vida vertiginosa de metrópole”, como escreveu o escritor Ribeiro Couto, “com suas vaidades, as suas virtudes, os seus vícios, a sua loucura, o seu lirismo, os seus ridículos, os seus tédios, os seus entusiasmos, a sua dor, a sua beleza”. As ruas têm alma – ele reiterava (cabia ao cronista auscultá-la). O Rio de João do Rio e da belle époque tinha alma. O Rio de hoje ainda tem? 

 

O Sr. Patriota

Por João do Rio

Encontrei ontem o Patriota. O Patriota é um homem considerável. Ninguém sabe por que o cerca um tão curioso prestígio, mas ninguém lhe nega a grande consideração a quem têm direito personalidades de monta. Conheço-o há muito tempo. De físico varia às vezes. É em certos momentos jovem, com a cara suarenta, o cabelo por cortar, o olhar cintilante. Em outros surge velho, de grandes barcas, brandindo o guarda-chuva. Quase sempre, porém, aparenta ter de quarenta a cinquenta anos. Mas o seu moral não varia como não variam as roupas, que segundo o filósofo têm uma secreta correspondência com o moral. Veste mal, muito mal. Parece esfregado d’óleo tão reluzente está, e com dignidade, com ênfase, como um profeta clama em favor da pátria.

É no país inteiro o único homem que compreende o patriotismo sem interesse e ama verdadeiramente o Brasil. Como? Sabendo tudo sempre péssimo e clamando por medidas de extrema violência. Depois de ouvi-lo – e toda gente já o ouviu – ninguém se atreve a considerá-lo menos que intangível, porque para eles todos são perdidos, devassos e desonestos, ninguém ousa pensar no progresso do país porque ele o corta com o gládio negro do impossível; ninguém tenta uma palavra que não seja de aplauso às suas ideias porque ele fala como inspirado por um poder superior. É radical, é esplêndido, é divino.

É o único homem que pensa sempre da mesma forma, o único homem coerente porque pensa sempre mal dos outros homens, das outras coisas, só compreendendo uma intenção boa e honesta: a própria (...) Não há um homem que preste, não há um ato de governo que não seja considerado um verdadeiro desastre para a causa pública. O Brasil, que ainda não se bateu com todos os países dos quais já devia ter saído vencedor, é levado à ruina pelos seus estadistas, uns ladravazes desavergonhados.

Então a cidade iluminada a luz elétrica?

– Diz os estrangeiros, sr. Patriota, que é a cidade mais iluminada do mundo.

– Também com tantos ladrões, quanto mais luz, melhor. Vejo porém nisso uma verdade.

– Qual, sr. Patriota?

– As ladroeiras da Light. As batotas do governo, essa miséria de nossos governantes...

(De Vida Vertiginosa, reunião de crônicas, 1911)

*Publicado originalmente na edição 893 de CartaCapital, com o título "O Rio do João"