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Número 892,

Diálogos Capitais

Infraestrutura

Rumo ao Norte

por Genilson Cezar — publicado 14/03/2016 11h10, última modificação 14/03/2016 11h10
O Pará tem tudo para se tornar a mais eficiente rota de exportação das commodities agrícolas

A agenda de investimentos em novos projetos de logística portuária, incluídos os leilões de arrendamento de áreas para terminais a partir de março, garantirá o protagonismo do Pará na consolidação do Arco Norte como alternativa para o escoamento da produção de grãos da Região Centro-Oeste.

A opinião é consenso entre autoridades, empresários da indústria e do agronegócio presentes no seminário Diálogos Capitais – Setor Portuário: Desafios e Oportunidades, promovido por CartaCapital na quinta-feira 3, em Belém. 

Para o ministro Helder Barbalho, da Secretaria de Portos da Presidência da República, “o governo está construindo um ambiente favorável ao investimento”. O Pará tem hoje uma carteira de investimentos na área de logística superior a 22 bilhões de reais. “Só no setor portuário, o montante a ser aplicado em obras e equipamentos chega a 5,3 bilhões.

Os restantes 16,9 bilhões serão destinados a rodovias, ferrovias e hidrovias”, afirmou o ministro na apresentação sobre a carteira de investimentos da SEP, incluído o leilão de arrendamento de seis áreas para terminais portuários marcado para o dia 31 de março na BM&FBovespa, em São Paulo. 

Durante o seminário, o ministro anunciou o ingresso de mais 167 milhões de reais de investimentos privados para o setor portuário no estado do Pará. No local do evento, assinou dois termos aditivos de expansão de futuros terminais portuários da Hidrovias do Brasil em construção no Porto de Vila do Conde, no município de Barcarena, e em Miritituba, distrito do município de Itaituba.

O projeto do corredor logístico da HBSA prevê um investimento total da ordem de 1,4 bilhão de reais, divididos em três pilares: a estação de transbordo de cargas de Miritituba; o terminal de uso privativo de Vila do Conde; e encomendas de barcaças e empurradores, que formarão os comboios de transporte de carga de grãos pela Hidrovia do Tapajós.

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O total de investimentos previstos para o Pará supera 22 bilhões de reais (Foto: Tarso Sarraf)

Com os novos investimentos, segundo o ministro, o Pará se fortalece como a mais competitiva rota logística para escoar a safra de produtores da Região Centro-Oeste. “A alternativa do Arco Norte está consolidada e é seguramente o caminho para o desenvolvimento da nossa economia”, assegurou Barbalho. A crise no setor portuário não existe, disse o ministro, muito menos no Pará.

O movimento é de crescimento continuado.” De 2003 a 2014, a movimentação portuária do Brasil aumentou 70%. Neste ano, deve crescer 4,8%. Miritituba foi o porto de maior crescimento do fluxo de cargas no estado, com expansão de 24,9% na movimentação de cargas entre 2010 e 2015, bem acima do porcentual de aumento de toda Região Norte, de 14,3%. 

O crescimento tem, entretanto, os seus problemas. De acordo com o Plano Nacional de Logística Portuária, está previsto um aumento de 103% na movimentação nacional de cargas entre 2015 e 2042, período das novas concessões.

Com a atual capacidade e a expansão projetada para a produção nacional de granéis sólidos, há perspectiva de se atingir um déficit de 7 bilhões de toneladas. Segundo Barbalho, “só no cluster de Maranhão-Vila do Conde, teremos 54,7 milhões de toneladas demandadas para a região nos próximos 25 anos, por isso temos de gerar novas operações de escoamento logístico. Se não conseguirmos colocar em funcionamento os novos portos, não atenderemos a essas novas demandas, fundamentais para o fortalecimento da economia”.  

Segundo o ministro, o portfólio de investimentos prevê a aplicação de 51,28 bilhões de reais, dos quais só 4,2 bilhões são recursos públicos, para obras de dragagem dos portos. O restante é investimento privado.

Serão aplicados 19,67 bilhões em novos terminais privados e 16,24 bilhões em novos arrendamentos, sendo 11,34 bilhões em áreas novas ou projetos greenfield, e 11,11 bilhões em renovações contratuais. “Além de gerar milhares de empregos na construção e na operação dos portos, os investimentos permitirão que o estado do Pará possa agregar diversas oportunidades de negócios à sua economia. Um exemplo são os investimentos em estações de transbordo, construção de barcaças, empurradores e de novos estaleiros”, afirmou Barbalho.

Trata-se de uma oportunidade singular para a economia do Pará, confiam empresários dos segmentos industrial e do agronegócio participantes do evento. “É de fundamental importância ter essa logística implantada”, segundo Carlos Xavier, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará. “Não só a logística de portos é importante, mas também a de ferrovias e rodovias.”

Para José Maria Mendonça, vice-presidente da Federação das Indústrias do Pará, “as regiões Sul e Sudeste podem fazer projetos para modernizar a logística de escoamento da produção, mas a saída é o Arco Norte”.

O Porto de Espadarte, no município paraense de Curuçá, tem localização privilegiada por ser o mais próximo do Atlântico Norte. “O nosso objetivo é implementar todos os esforços possíveis para sermos protagonistas, ao lado dos governos federal e estadual, na criação de uma infraestrutura logística que facilite a verticalização das nossas commodities”, afirmou o vice-presidente da Fiepa. 

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O movimento do Porto de Mirituba aumentou 24,9% entre 2010 e 2015, acima da média da Região Norte (Foto: Tarso Sarraf)

Segundo Luiz Fayet, consultor de infraestrutura e logística da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, aquela oportunidade pode ser a principal alavanca para a recuperação da economia brasileira, o aumento e a distribuição da renda para a população e a elevação do País a um patamar superior ao atual no mercado internacional.

O setor portuário tem defasagem média de 64 milhões de toneladas por ano, segundo dados de 2014, agravada pelos incrementos anuais de demanda entre 3 milhões e 5 milhões de toneladas. “No ritmo anterior em que se estava trabalhando na construção da infraestrutura de logística de escoamento, o País demoraria de 18 a 20 anos para equilibrar a oferta e a demanda.”

Com base em um estudo da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso, Fayet apresentou um comparativo das estimativas de perdas potenciais de renda da cadeia produtiva da soja no estado.

O estudo tomou o município de Sorriso, em Mato Grosso, como base média e mostrou que os custos logísticos nas exportações de 28 milhões de toneladas nas rotas Santos–Paranaguá chegavam a 126 dólares por tonelada, enquanto na rota Miritituba–Belém totalizavam 80 dólares por tonelada. “Em relação ao volume de 28 milhões de toneladas de soja exportadas pelo Mato Grosso em 2014, isso significa perdas de 1,2 bilhão de dólares por ano.” 

Com mais de 150 anos de operação no Brasil, a Cargill Agrícola considera fundamental continuar investindo para assegurar sua missão de prover alimentos aos mercados nacional e internacional, destacou Clythio van Buggenhout, diretor de Portos.

A empresa opera por meio de concessão com um terminal de grãos no Porto de Santarém, atualmente em expansão, e investe em melhorias e reestruturação do seu terminal em Porto Velho (RO). “As concessões portuárias são a solução para dar continuidade à curva de crescimento do volume exportado de grãos, sem interrupções”, apontou o executivo.

A Bunge Alimentos, terceira maior exportadora do País e líder do agronegócio brasileiro, espera também aproveitar as oportunidades de investimento em logística para acompanhar a expansão das exportações nacionais, que deram “um salto gigantesco” nos últimos cinco anos, segundo Niveo Maluf, diretor de relações institucionais.

“Saímos de um volume de 42 milhões de toneladas de soja, farelo e milho, exportadas em 2010, para cerca de 100 milhões de toneladas em 2015. Esperamos capturar as novas oportunidades e superar os desafios do crescimento das exportações.” 

O vice-governador do Amapá, Papaléo Paes, garantiu que o empresariado de seu estado também está disposto a investir para ocupar o espaço e as oportunidades de negócios na área de logística portuária, mas depende da decisão de construção do Porto de Santana.

O vice-governador de Roraima, Paulo Cesar Quartiero, disse que o seu estado tem um grande potencial econômico nas atividades mineral, madeireira e agrícola, além de alta capacidade de produção de energia, mas perde poder de competitividade por falta de investimentos na infraestrutura logística. “Assim como o Amapá, nós lutamos pela recuperação econômica e queremos participar do movimento de logística de portos.”

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Clythio (à esq.), da Cargill: As concessões portuárias são a solução para o crescimento da exportação de grãos (Foto: Tarso Sarraf)

Os avanços registrados nos últimos meses na concessão de portos devem-se a vários financiamentos, privados e governamentais, inclusive o Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC), que tem suas demandas de recursos vinculadas à agenda dos projetos de logística.

Segundo Maurício Muniz, secretário do PAC, a nova etapa de concessões do Programa de Investimentos em Logística conta com investimentos projetados da ordem de 198,4 bilhões de reais, dos quais 66,1 bilhões destinados a rodovias, 86,4 bilhões a ferrovias, 37,4 bilhões a portos e 8,5 bilhões a aeroportos.

“Temos duas ações estratégicas importantes para consolidar o papel do Arco Norte no desenvolvimento do País, a conclusão do trecho da Rodovia BR-163, entre Miritituba e Santarém, e o derrocamento do Pedral do Lourenço, que vai garantir a navegabilidade do Rio Tocantins.”  

A Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia  (Sudam) desempenha também um papel essencial para promover o crescimento econômico da região por meio de projetos estruturantes, avalia Paulo Roberto Correia da Silva, superintendente da instituição.

Em nove anos, o Fundo de Desenvolvimento da Amazônia, administrado pela Sudam, investiu cerca de 4 bilhões de reais, com a geração de investimentos totais de 21 bilhões, incluídos os recursos próprios e aqueles de outras fontes. Só no Pará, o volume de recursos atingiu 1,2 bilhão em projetos de produção de óleo vegetal, metalurgia e transmissão de energia. “Buscar eficiência nos instrumentos de logística será o nosso grande diferencial”, afirmou Silva.

O Banco da Amazônia, segundo Marco Aurélio de Queiroz Campos, diretor de análise e reestruturação, aplicou mais de 1 bilhão de reais em várias operações de logística no Arco Norte, inclusive em terminais de transbordo, unidades privadas, embarcações e empurradores.