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Número 892,

Cultura

Exposição

As Américas, do fogo ao gelo

por Ana Ferraz publicado 18/03/2016 02h59, última modificação 18/03/2016 12h23
A Pinacoteca paulista une-se a instituições do Canadá e dos EUA para mostrar a paisagem do continente
Doação da Fundação Burnett
Século XXI

Black Mesa Landscape, de Georgia O´Keeffe

O primeiro encontro de Georgia O’Keeffe com a fascinante paisagem do Novo México deu-se em 1917. Doze anos depois, aos 42 anos e uma carreira reconhecida, estabeleceu-se no lugar de afinidade artística e anímica. A paisagem árida do Sudoeste dos Estados Unidos, o azul profundo do céu, os tons ocre e as texturas variadas da terra, a vegetação, as montanhas sinuosas. Aquele era o seu pedaço no mundo, onde pedras, carcaças de animais, flores, tudo servia de inspiração. 

O’Keeffe mergulhou na voragem do cenário com ímpeto. Antes de conceber Black Mesa Landscape, New Mexico/Out Back of Marie’s II (1930) recriou inúmeras vezes a mesma montanha. A obra só ficou pronta ao se sentir de tal modo conectada para exprimir uma certeza, “esta é a minha montanha”. E ela brota da tela em gomos ondulados em tom de terracota, num forte contraste com o fundo azul. 

Black Mesa Landscape pode ser vista na Pinacoteca do Estado de São Paulo graças a uma parceria inédita firmada em 2010 com a Art Gallery of Ontario, Canadá, e a Terra Foundation for American Art, de Chicago. O acordo possibilitou reunir pela primeira vez telas das três Américas jamais expostas num mesmo espaço. Paisagem nas Américas: Pinturas da Terra do Fogo ao Ártico, em cartaz até 29 de maio, traz 105 obras que vão de 1820 a 1940. 

“Há quatro anos desenvolvemos esse projeto, cuja premissa é criar outro eixo de comparação para a arte brasileira que não seja somente olhar para a Europa, mas estabelecer um diálogo com nossos vizinhos americanos”, diz a editora-chefe da Pinacoteca, Valeria Piccoli. Muitos dos quadros nunca foram exibidos no Brasil, como o monumental Valle de Mexico desde el Cerro of Santa Isabel (1875), óleo de José María Velasco, um dos mais expressivos pintores mexicanos do século XIX, capaz de captar a força hipnótica da natureza. 

Neste idílico panorama pastoral, o santuário de Guadalupe, referência à forte religiosidade, e em primeiro plano a figura de uma mestiça reafirmam este como o lugar da cultura mexicana. Tantas foram as reproduções dessa região de vulcões coroados de neve feitas por ele que nas últimas vezes Velasco pintou de memória.

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Século XXI: São Paulo, por Tarsila do Amaral (Isabella Matheus)

A dividir com o mexicano a sala dedicada ao tema Terra Ícone Nação está o pintor de origem alemã Albert Bierstadt, cujas telas reforçam a ideia da expansão norte-americana para o Oeste. Yosemite Valley (1868) oferece uma visão quase operística da topografia da área compreendida pela Cordilheira de Serra Nevada. Um cenário envolto em bruma filtrada pela luz difusa do ocaso. 

“À medida que os países se tornam independentes escolhem um lugar para representar essa identidade e para nós obviamente é o Rio de Janeiro, então sede do Império. Em Baía de Guanabara Vista da Ilha das Cobras (1828) Félix Émile Taunay, diretor da Academia de Belas Artes, representa a paisagem a partir do porto movimentado, uma cidade europeia nos trópicos com vegetação exótica, bananeiras, mamoeiros.” 

Na condição de professor da Academia Imperial e tutor do imperador Pedro II, o artista francês exerceu papel de destaque no processo de construção de ícones da paisagem brasileira, escreve a historiadora de arte Claudia Valladão de Mattos em ensaio publicado no bonito catálogo editado em inglês, espanhol e português, com 260 imagens coloridas e análises de especialistas. A Ilha das Cobras era ponto estratégico de defesa e o quadro de Taunay exemplifica a relação entre paisagem, história e poder. 

A conexão entre arte e ciência, marcante no século XIX, traz nomes importantes como o alemão Johann Moritz Rugendas, que entre 1821 e 1825 viajou pelas Américas na condição de ilustrador da Expedição Langsdorff. E Carl Friedrich Philipp von Martius, cuja enciclopédica obra Flora Brasiliensis, de 15 volumes divididos em 40 partes, está representada por cinco obras que contemplam a Caatinga, o Cerrado, as florestas de Araucárias, Atlântica e Amazônica. 

Perto do grande naturalista está o norte-americano Martin Johnson Heade, fascinado por orquídeas e beija-flores e capaz de tornar sublimes os pântanos de Newburyport, Massachusetts. Por 45 anos o artista reproduziu com delicada paleta as regiões alagadas, os montes de feno, os descampados solitários. O óleo sobre tela Newburyport Marches Approaching Storm (1871) capta a serenidade da paisagem momentos antes de perder a luminosidade para a tempestade que se aproxima.

Na conexão entre as Américas, destaque para dois marcos de paisagem e de fronteira. Niagara Falls (1878), do norte-americano William Morris Hunt, que passou um mês na região num esforço para captar a beleza impactante do cenário, compartilha o espaço expositivo com Cataratas del Iguazú (1916), do uruguaio Pedro Blanes Viale. 

A sala denominada Batalhas Fronteiras Territórios Conflitos mostra como a arte interpretou momentos históricos. No óleo sobre tela Passagem do Chaco (1871), Pedro Américo coloca em cena o Exército brasileiro a se aproximar das Forças Armadas paraguaias. O momento precede a batalha e o artista, que nunca esteve no local da disputa, estabelece a fronteira por meio da paisagem. 

A passagem para o século XX e o avanço da modernidade ganham a representatividade da brasileira Tarsila do Amaral, do mexicano Juan O’Gorman e do uruguaio Joaquín Torres García. São Paulo (1924), uma das primeiras imagens da metrópole na linguagem utilizada pela pintura modernista, elege como protagonistas bombas de gasolina, um prédio em construção, uma ponte de ferro, ícones do progresso, pontua a professora de história da arte Regina Teixeira de Barros. 

A curadora da Art Gallery of Ontario, Georgiana Uhlyarik, entusiasma-se com a possibilidade de unir obras de Tarsila à do canadense Lawren S. Harris, “o grande pintor moderno do Canadá”. E conta como os visitantes em Toronto gostaram do trabalho de Von Martius sobre a natureza brasileira. “A grande estrela da exposição foi, contudo, Tarsila do Amaral. Não a conheciam e foi uma surpresa.”

*Publicado originalmente na edição 892 de CartaCapital, com o título "Do fogo ao gelo"

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