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Número 891,

Política

São Paulo

Prévias do PSDB revelam entranhas do partido

por Miguel Martins publicado 15/03/2016 00h47
Na escolha do candidato tucano à prefeitura em 2016, o fogo amigo é a regra
Adriano Vizoni/Folhapress
Prévias-do-PSDB

No ponto de votação do Tatuapé, militantes do PSDB entraram em confronto

Apresentador em 2011 do programa televisivo O Aprendiz, versão brasileira da franquia idealizada por Donald Trump para descobrir novos talentos no mundo dos negócios, João Doria Júnior procurou adotar um tom menos agressivo em comparação ao do megaempresário norte-americano, famoso por humilhar os participantes do reality show a qualquer custo.

Ambos envolvidos em uma pré-campanha a cargos no Executivo em seus países, Trump e Doria diferem no estilo também na política.

O primeiro, à frente na disputa para se tornar candidato pelo Partido Republicano às eleições presidenciais nos Estados Unidos, cresceu na legenda ao adotar uma postura ultraliberal agressiva e valer-se de discursos de ódio contra minorias.

O segundo, bem mais contido, apega-se a seu principal padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, para se tornar o candidato tucano à prefeitura de São Paulo, embora seja acusado por diversos correligionários de abuso de poder econômico. Nos dois casos, a oposição interna dos partidos às candidaturas multiplica-se, a despeito de suas vitórias parciais nas prévias partidárias.

 No domingo 28, Doria largou na frente para se tornar o candidato tucano nas eleições municipais. Vencedor do primeiro turno das prévias com 43,13% dos votos, ele superou o vereador Andrea Matarazzo, preferido de José Serra e Fernando Henrique Cardoso. Após terminar a disputa em terceiro lugar, o deputado federal Ricardo Tripoli indica que apoiará Matarazzo no segundo turno, previsto para 20 de março.

Os aliados de Tripoli e Matarazzo entraram com uma representação a pedir a impugnação da candidatura de Doria, por suposta compra de votos de militantes. No início de fevereiro, o vereador tucano Adolfo Quintas, aliado do segundo colocado nas prévias, afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que o empresário tem “cooptado” filiados da legenda por meio de pagamentos mensais de 2 mil reais. 

A acusação acirrou os ânimos. No domingo 28, o ponto de votação do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, foi invadido por um grupo de militantes que quebrou computadores e tentou roubar uma urna. Após a confusão, apoiadores de Tripoli e de Doria trocaram sopapos em frente à sessão, que teve a votação encerrada. À polícia, o militante Albino José Seriqueira, o Bininho, afirmou que transportou eleitores de Doria até o local de votação antes de ser agredido por filiados de outras tendências. 

O pedido de impugnação da candidatura de Doria, de autoria do ex-governador Alberto Goldman e do ex-deputado federal José Aníbal, foi considerado “absolutamente ridículo” por Alckmin. O governador criticou ainda a confusão no Tatuapé. “Não estamos acostumados com prévias. Somos acostumados com partido-cartório, de livro de ata, que decide em restaurante, em mesa de vinho importado. ” 

Embora a crítica do governador proceda, é curioso lembrar que Doria tem o hábito de oferecer jantares extravagantes a seus correligionários. Em 2014, o empresário organizou um banquete para Alckmin, com a participação do então candidato a presidente Aécio Neves, FHC, Serra e outros tucanos graúdos. O encontro serviu para a organização de uma força-tarefa pela candidatura de Aécio, que à época estava em terceiro na disputa. 

A veemente defesa de seu candidato revela o cálculo político de Alckmin, que aposta todas as fichas em Doria para se consolidar como principal alternativa tucana à disputa presidencial em 2018.  

Na avaliação do cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas, se Alckmin impuser uma derrota a seus aliados em São Paulo nas prévias, se fortalece internamente para a corrida presidencial.

Se Doria for confirmado como candidato, o governador depende do sucesso da campanha do empresário para se consolidar como principal nome do partido para 2018. “Se Doria não chegar sequer ao segundo turno das eleições, seria um fiasco para Alckmin, mas quem não arrisca não petisca.”

Apesar das acusações contra Doria, as prévias partidárias são a melhor forma de Alckmin emplacar seu candidato sem ter de se indispor em mesas de jantares com outros caciques. Instrumento comum em democracias consolidadas, entre elas Estados Unidos e França, a escolha de candidatos de uma legenda por filiados é pouco frequente no Brasil.

PSDB
Serra apoia Matarazzo, enquanto Alckmin tenta emplacar Doria (Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo e Nelson Antoine/Ag. O Globo)

Em eleições presidenciais, o PT foi o único a adotar a prática na história recente, quando Lula venceu em 2002 o concorrente Eduardo Suplicy por ampla vantagem. 

Nas eleições municipais em São Paulo, os tucanos passaram a adotar prévias a partir das eleições de 2012. Naquele ano, não houve polêmica. José Serra, derrotado nas eleições por Fernando Haddad, do PT, foi aclamado candidato sem a necessidade de segundo turno. 

Quando não há consenso em torno de um nome, adotar ou não prévias costuma ser motivo de confusão. Em 2009, Aécio apresentou-se como pré-candidato à Presidência e defendeu a realização de uma eleição interna no partido. Sua intenção foi tratada com desprezo pelos aliados de Serra, que foi confirmado como candidato nas eleições de 2010 sem a necessidade de passar pelo crivo dos filiados.

Uma das principais críticas a Doria por parte dos aliados de Matarazzo e Tripoli é a sua pouca experiência como administrador. Um dos líderes do movimento Cansei, que se transformou em um grupo de oposição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o empresário não ocupa um cargo público desde os anos 1980, quando foi secretário de Turismo na gestão municipal de Mário Covas e presidente da Embratur no governo do presidente José Sarney. 

Matarazzo tem experiência maior. Foi subprefeito da Sé, secretário de Serviços e de Coordenação das subprefeituras, além de ter sido ministro-chefe da Secretaria de Comunicação do governo FHC. Na esfera estadual, ocupou as secretarias de Cultura e de Energia. 

Embora seus aliados encampem acusações contra Doria, Matarazzo não está livre de investigações. Em 2013, o vereador foi indiciado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção passiva no caso Alstom, em acusação relativa à sua gestão à frente da Secretaria de Energia em 1998. Não houve denúncia do Ministério Público, mas a Justiça autorizou a abertura de um novo inquérito contra o tucano. Matarazzo nega envolvimento no esquema.  

Couto afirma que os conflitos entre candidatos nas eleições internas do PSDB revelam uma enorme dificuldade do partido em aceitar resultados eleitorais. “Isso ocorre em relação à disputa presidencial de 2014, e agora no plano municipal, dentro do próprio partido.” 

O cientista político lembra, porém, que o PSDB paulistano tem sido um dos poucos a adotar prévias nos últimos anos. “Em sua fase heroica, anterior a 2002, o PT realizava eleições internas com muita frequência, mas no momento em que se profissionalizou tornou-se menos propenso a uma participação das bases”, argumenta, ao apontar para uma falta de cultura partidária no Brasil.

“Nos Estados Unidos, as primárias promovem uma grande discussão na sociedade, não são fechadas apenas aos filiados. Neste ano, há casos de democratas que têm votado nas primárias republicanas para tentar inviabilizar a candidatura de Trump.” 

Resta saber se os esforços de Serra e FHC serão suficientes para frear Doria. Em um pleito no qual as investigações da Lava Jato e o veto às doações de contribuições empresariais devem diminuir sensivelmente o financiamento eleitoral, ao menos o empresário tem uma vantagem: não há limites para um candidato doar para sua própria campanha. Além do apoio de Alckmin, sua fortuna pessoal pode ser um de seus principais trunfos.

*Reportagem publicada originalmente na edição 891 de CartaCapital, com o título "Bicadas em família"