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Número 891,

Cultura

Oscar

As fábulas do sufocamento do Oscar

por Rosane Pavam publicado 06/03/2016 10h02, última modificação 10/03/2016 12h42
A maior premiação do cinema espelha a ausência de representatividade social e do jornalismo investigativo, reivindicado por Spotlight
Kerry Hayes
Spotlight

Quando o jornalismo se enfraquece e a importância do espaço público decai, diversos grupos sofrem pela ausência de representação

Em 1823, o caçador de peles Hugh Glass foi atacado por um urso e sobreviveu para contar a história. Esta é a única linha de O Regresso que possivelmente se atenha aos fatos. Contudo, a obra que deu a Alejandro Iñárritu o bicampeonato de melhor direção deste ano pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas oferece-nos bem mais do que a verdade em torno do lendário personagem.

Nela vemos Glass proteger o filho nascido de sua relação com uma nativa, ambos inexistentes na vida do caçador. E a batalha final de Glass com o rival caçador, a razão de ser do filme, provavelmente não ocorreu. Ao saber que o inimigo se alistara no Exército americano, ele desistiu da vingança. Com 300 dólares na mão e a devolução de sua espingarda, Glass teria voltado a caçar sem medo de ser feliz.

Hollywood adora as histórias falseadas. A bem da verdade, ela prospera quanto mais as falseia. Iñárritu parece deliberado. O vencedor do Oscar de melhor filme e direção no ano passado ao descrever um anti-herói da indústria do entretenimento agora nos dá um herói às antigas, uma figura cinematográfica a simbolizar uma nação enfraquecida em sua glória, mas destinada a recolocar-se de pé.

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DiCaprio, dono de um intenso resfolegar, finalmente contemplado (Foto: Kevin Winter/Getty Images/AFP)

Seu novo filme é tíbio em argumentação dramática, inutilmente específico na carnificina, tedioso ao exibir os cartões-postais da natureza quase perdida, enquanto Birdman, a obra anterior, de 2014, parecia realizar um experimento interessante, musical, sua câmera sem cortes a propor uma atualização técnica para o cinema.

Em O Regresso (o título da versão brasileira faz sentido, se considerarmos que há uma regressão envolvida), os planos-sequência são aleatórios, sem motivação visível. E a ausência de sentido cinematográfico nos faz perguntar se Iñárritu o dirigiu por mais tempo que os dez minutos iniciais.

No último dia 28, quando se deu a cerimônia de entrega do 88° Oscar, no Dolby Theatre de Los Angeles, ficou subentendido por que o filme se encontrava em tão alta posição. Setenta e sete por cento dos 6 mil integrantes da academia pertencem ao sexo masculino. Noventa e três por cento deles, com direito a voto, são brancos.

Eles teriam aplaudido quase inconscientemente os esforços de um diretor mexicano para reconstruir a velha mitologia aventureira do caubói fundador. As histórias dos caçadores de peles no Oeste ajudaram os americanos a inventar uma identidade nacional.

Esse Glass não tem alma no filme de Iñárritu talvez porque o diretor jamais se preocupe em envolver o espectador na psicologia de seu personagem, um obstinado super-herói. O protagonista resfolega em geleira, inarticulado, antes que tenhamos tempo de experimentar a identificação com seu drama.

E o espectador que o aplaudiu ali possivelmente o fez em antecipação. DiCaprio perdera quatro oportunidades anteriores de ganhar o prêmio e, ao vencer o Oscar, naquela noite, nem o Twitter resistiu.

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Quincy Jones aplaude Ennio Morricone, que ganhou seu Oscar aos 87 anos (Foto: Mark Ralston/AFP)

Foram 440 mil tuítes por minuto a brindar sua conquista, superando as postagens (255 mil) naquela rede social em 2014, quando a apresentadora Ellen DeGeneres mostrou a selfie que tirara junto a um grupo de atores célebres. E o discurso de agradecimento de DiCaprio, tão comovente contra o aquecimento global, deve ajudar a promover os documentários sobre o assunto que o ator produz para o Netflix.

É incrível pensar na empatia de DiCaprio em relação aos fãs, inconformados porque, aos 41 anos de idade, ele tardava em ganhar sua estatueta. Richard Burton, intérprete shakespeariano, concorreu sete vezes e morreu aos 58 anos, em 1984, sem jamais ver de perto a espada que o boneco Oscar segurava entre as mãos.

Peter O’Toole, a estrela de Lawrence da Arábia, concorreu oito vezes e ganhou uma estatueta, mas honorária, aos 71 anos. O ator italiano Marcello Mastroianni, morto em 1996, aos 72, concorreu três vezes sem levar nada, embora tenha ironizado o fato em uma entrevista: “Gostaria de interpretar um surdo-mudo em cadeira de rodas. Eu talvez ganhasse o Oscar, dois ou três, um pela cadeira de rodas, um porque representei sem falar, outro porque nada ouvi. A crítica é muito sensível a esse tipo de infelicidade”.

Ennio Morricone, seu compatriota, teve outra sorte. Herói da música para o cinema, autor, entre tantas outras, da trilha de Por um Punhado de Dólares (1964), levou o Oscar aos 87 anos por Os Oito Odiados depois de cinco indicações e uma estatueta honorária em 2007. A mais recente obra de Tarantino, a oitava, e que algo evoca o fato de Federico Fellini ter nomeado sua obra-prima com idêntico numeral, mistura western e suspense à moda de Agatha Christie em um huis clos de surpresas assassinas.

“Não há música importante sem um grande filme que a inspire”, disse Morricone ao dedicar seu Oscar à mulher Maria. Os odiados de Tarantino podem não ter sido os melhores do cinema mundial até aqui, mas, em vista da qualidade das interpretações, talvez merecessem ter recebido algum destaque entre os prêmios deste ano. Por que Samuel L. Jackson não levou sua indicação, ao contrário do que ocorreu com Sylvester Stallone, por Creed? 

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O apresentador Chris Rock: "Os negros estavam ocupados sendo linchados" (Foto: Kevin Winter/Getty Images/AFP)

O comediante Chris Rock sabe por quê. “Bem-vindos ao White People Choice’s Award”, disse ao adentrar o palco para apresentar o prêmio, vestido com summer branco e gravata negra. Rock fez um brilhante monólogo de abertura após ter sofrido a pressão de boicote à festa, que neste ano não indicou um único negro às estatuetas. “É o 88° Oscar, portanto em pelo menos 71 outras vezes não houve concorrentes negros ao prêmio”, ele lembrou.

“Naquelas ocasiões eles estavam ocupados demais sendo estuprados e linchados para se importar com quem levava o Oscar de melhor fotografia.” DiCaprio tem uma grande oportunidade, todos os anos, de se mostrar, Rock resumiu: “O que os negros pedem são oportunidades iguais”. 

Como acontece todos os anos, os filmes concorrentes representam um espelho social. Neste 2016, é como se a atmosfera de sufocamento (o urso simbólico) se fizesse sentir não somente sobre os negros, mas sobre diversos segmentos sociais. Até mesmo a belíssima animação brasileira O Menino e o Mundo, que perdeu o prêmio para Divertida Mente, e cujo empreendimento onírico se opõe à organização empresarial a que a Pixar submete nossas emoções, muito diz sobre essa busca de visibilidade.

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O produtor de Spotlight, vencedor de dois prêmios, pede ao Vaticano a apuração dos crimes de pedofilia cometidos por padres (Foto: Kevin Winter/Getty Images/AFP)

Os filmes concorrentes narraram a nação vitimizada pela fraude especulativa (A Grande Aposta), ouviram as mulheres abusadas (O Quarto de Jack) e clamaram pela diversidade sexual (A Garota Dinamarquesa). O que impede os americanos de respirar? Spotlight, de Tom McCarthy, vencedor como melhor filme e roteiro original, parece ter a resposta. Quando o jornalismo se enfraquece e a importância do espaço público decai, diversos grupos sofrem pela ausência de representação. 

O filme mostra como o Boston Globe, após o desinteresse inicial, passou a cobrir o acobertamento da pedofilia cometida por padres. É uma peça cinematograficamente serena, na qual a fotografia dimensiona a onipresença das igrejas nas ruas da cidade. Em seu discurso de agradecimento, o produtor Michael Sugar afirmou que a obra dá voz aos sobreviventes dos crimes. E disse esperar do Vaticano o atendimento ao clamor punitivo, de modo a restaurar a fé na instituição religiosa.

O jornal L’Osservatore Romano diria dois dias depois que a Igreja via com profunda dor os casos descritos no filme e que não o entendia anticatólico, embora nas horas posteriores à premiação, em outro artigo, houvesse lamentado a ausência de menção “à longa e difícil luta” do papa Bento XVI neste âmbito. Quem precisa de Hollywood para lembrar que a reportagem investigativa, enfraquecida após o esfacelamento dos jornais, deve prosseguir? Pelo jeito, todos nós.