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Número 891,

Saúde

Tecnologia

Telefones e tablets contra a deficiência intelectual

por Rogério Tuma publicado 15/03/2016 00h47
Mas ainda faltam programas e atividades dirigidos a esses indivíduos
IstockPhoto
tablets na saúde

"O homem é um lobo para seu semelhante"

Pessoas com deficiência intelectual (DI) enfrentam enormes desafios rotineiramente para manter as suas atividades de vida diárias e até para conquistar um convívio social. O principal e justo objetivo dessas pessoas e de suas famílias seria, portanto, que a tecnologia mudasse suas vidas para melhor, ajudando a incluí-las em nossa sociedade, que lhes é frequentemente hostil e cruel.

A Universidade de Concórdia, Canadá, publicou na revista Social Inclusion estudo da cientista Ann-Louise Davidson, que trabalhou com oito indivíduos com DI para gravar depoimentos sobre suas vidas.

Com tablets, essas pessoas montaram um script destacando aspectos importantes de sua história, filmaram seus depoimentos e editaram vídeos que foram assistidos por um grupo que fez comentários, com posterior reedição pelo próprio autor – desde que a crítica e as sugestões fossem aceitas. Os vídeos montados foram publicados em um canal público do YouTube.

Segundo a autora, quando portadores de DI assistiam aos filmes, com os depoimentos enxergavam pessoas como eles que descreviam vitórias em suas vidas, pessoas capazes de manter uma rotina agradável, indo ao trabalho e se divertindo. Isso os inspirava. Porém, raramente um filme ou uma novela inclui um personagem com DI ou que tenha em sua narrativa a contribuição de alguém com DI.

O outro feito da autora foi incluir como coautores do estudo todos que montaram os vídeos, criando pesquisa com eles e não sobre eles. Só existem outros 17 estudos na história da ciência que foram desenvolvidos com a participação de pessoas com DI.

O uso de tecnologia por essas pes­soas é extremamente comum, elas não se intimidam com vídeos, teclados de computadores e manipulam tablets e smart­phones com muita habilidade. O que falta são programas e atividades dirigidos a esses indivíduos. O que a autora sugere também é que essas pessoas sejam autoras de seu próprio conteúdo educacional. 

Nossa política nacional de escola inclusiva não cumpre seu papel, quase todas as ações das escolas não são planejadas, são isoladas e adaptadas. Frequentemente não existe um tutor disponível para acompanhar a criança na escola, ali ela fica praticamente abandonada, vagando a esmo, exposta ao isolamento social ou ao bullying.

Existem questões fundamentais sobre as quais nossa sociedade precisa refletir. Por exemplo, se desenvolvemos tecnologias para comércio, indústria e até treinamento e educação, por que não o fazemos para inclusão? As comunidades virtuais desenvolvidas são amistosas a elas? Existem propostas educacionais e de treinamento dirigidas para os grupos de todas as idades, programas governamentais, por exemplo, o Educação de Jovens e Adultos (EJA); por que tais programas não visam pessoas com deficiência intelectual?

Políticas erradas, como a negligência no combate ao mosquito Aedes e a consequente epidemia de vírus Zika, vão produzir uma legião de pessoas com DI. Devemos nos preparar para isso.

O abismo entre as crianças normais e as com alguma deficiência pode ser muito reduzido com a priorização desse grupo na política educacional do País. Capacitar professores e educar os alunos contra o bullying e a favor da inclusão é um passo fundamental para nos tornarmos um país civilizado. 

*Coluna publicada originalmente na edição 891 de CartaCapital, com o título "A tecnologia que faz pensar"