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Número 889,

Cultura

Fotografia

Exposição destaca o trabalho de Luciano Carneiro

por Rosane Pavam publicado 26/02/2016 04h50
Para o correspondente que testemunhou a guerra nos anos 1950, o ser humano estava acima de tudo
Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles
Luciano-Carneiro

A parede para o nada na volta dos civis sul-coreanos

O estudante de Direito Luciano Carneiro tinha sonhos incomuns. Enquanto lia as obras de William Shakespeare, escrevia reportagens para os jornais de sua Fortaleza natal e tirava fotografias, planejava a viagem de monotor com três amigos até aquela Poços de Caldas onde seria diplomado, em 1948.

A revista O Cruzeiro se encantara por seu percurso, que realizara aos 22 anos, dono do brevê de piloto concedido pelo Aeroclube do Ceará. A viagem, realizada durante uma semana com paradas estratégicas, logo seria apelidada de “revoada de teco-tecos” por um colega da Cruzeiro, a publicação que o acolheria como repórter de texto naquele mesmo ano. 

Cordial, falante, alegre, agia como um “folião”, conforme o descreve Flávio Damm, fotógrafo gaúcho hoje com 89 anos que, à época, usufruía de ter relatado em primeira mão o autoexílio de Getúlio Vargas na Fazenda do Itu, após a queda de 1945. Carneiro era um “menino sem preconceitos, sem reservas mentais”, escreveu a ficcionista conterrânea Rachel de Queiroz. Quando adentrou na redação do Rio de Janeiro, o bicho de imprensa o picou de vez e ele deixou a advocacia para trás.

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Na Copa do Mundo da Suíça, 1954 (Foto: Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Somente em 1949 pôde publicar na revista um relato escrito acompanhado de fotos que ele mesmo fizera, sobre o Açude de Orós.

Carneiro, incluído no expediente da revista como fotógrafo e repórter textual, não visava à paisagem, mas aos personagens nela envolvidos, que naquele caso bebiam água de cuia na mão.

“Ele gostava de apanhar flagrantes das cidades na sua vida mais íntima, os velhos que aquentam ao sol, as crianças que empinam papagaios, as gordas patronnes por trás dos balcões, as moças que dançam nos cabarés”, escreveu Rachel de Queiroz na revista A Cigarra, em 1960.

Para o fotojornalista, ela diz, a imagem tinha de ser bonita, em primeiro lugar. Depois, dizer qualquer coisa, “ter conteúdo humano”, como definia. “A novidade, o sentido polêmico, a intenção política, até mesmo o furo, para ele, tinha importância secundária.”

Logo Carneiro sairia do País em busca de outras paisagens, como aquela suíça de 1954, onde seria retratado por fotógrafo desconhecido com duas máquinas penduradas no pescoço, durante a cobertura da Copa do Mundo.

Em Paris, revelou filmes nos laboratórios da agência Magnum e testemunhou o casamento do amigo fotógrafo Luiz Carlos Barreto numa igreja vazia. Da cidade partiu para incursões em áreas de conflito. E perseguiria a humanidade na guerra, ali onde ela justamente parecia se esconder.

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Paraquedista, Carneiro fotografou a descida americana em Munsan, 1951, a evocar Robert Capa (Foto: Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

As 180 imagens presentes na exposição Do Arquivo de um Correspondente Estrangeiro – Fotografias de Luciano Carneiro, no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, entre 21 de fevereiro e 19 de junho, trazem seu testemunho sereno para essas convulsões.

A parede de uma casa ergue-se solitária, a simbolizar a devastação da civilidade tanto quanto uma escada em caracol sobe para o céu num quarteirão arrasado, entre montes de caliça, sem que exista qualquer outro vestígio da casa de que ela fora parte. 

Carneiro aparentou-se a Robert Capa ao buscar a máxima proximidade com a situação para bem registrá-la. Em 1951, quando a Guerra da Coreia se encaminhava para a vitória do sul, fotografou a descida dos soldados americanos em Munsan. A imagem algo repetia aquela do artista húngaro, que clicara a bordo de um paraquedas o múltiplo salto sobre a Sicília em 1943.

O curador da exposição, Sergio Burgi, tem elementos documentais para atestar que Carneiro fotografou desde o chão, apesar de ter descido de paraquedas, para cujo uso fora treinado poucos meses antes, durante uma reportagem sobre a atividade na escola de Charles Astor.

Damm, contudo, desconfia “dessa história de paraquedismo na Coreia”, embora Carneiro não pudesse ter chegado àquele ponto de outro modo. “Ele me disse que não havia sido aprovado na primeira demonstração para provar que se formara paraquedista”, relata. “Não creio nesse salto com tropas americanas. Mas sei que, no chão, ele fez um belo trabalho.”

Fotografaria o Japão ainda impactado pelo conflito mundial perdido. Na África, acompanharia o trabalho do doutor Schweitzer, quatro meses após a célebre sequência de W. Eugene Smith, em 1948, sobre a saga de um médico de família no interior americano.

Em Moscou, veria mulheres no museu, com raro humor. Caçador dos flagrantes da rua, mas também presente nos eventos de interesse da revista, não se importava quando seus personagens o olhavam diretamente, como fizera Salvador Dalí no Metropolitan de Nova York, durante a abertura da exposição de sua obra conforme a concebera o Museu de Arte de São Paulo. 

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Dalí e a mulher Gala durante vernissage no Metropolitan (Foto: Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Esteve na tomada de Havana por Fidel Castro, em 1959. Damm conta que esperava obter a autorização para essa viagem de seu chefe imediato, mas o amigo obtivera a aquiescência à cobertura diretamente da direção da revista, antes dele. São essas as histórias que o fotógrafo cea-rense não conta na coluna a ele concedida pela Cruzeiro para que narrasse suas peripécias, e que leva o mesmo título da exposição no IMS.

Em 1954, Do Arquivo do Correspondente Estrangeiro descreve seu encontro com Henri Cartier-Bresson. “Como define a reportagem fotográfica?”, perguntou ao francês. “É uma operação conjunta de olhos, coração e inteligência”, respondeu-lhe Bresson. “Você fotografa o que vê, Carneiro, mas o que você vê, isto depende de quem você é.”

O jovem demasiadamente humano veria os combates como a negação da humanidade. “Mas por que a guerra não especifica que primeiro morrerão os que a provocam nos gabinetes, e só depois os que a ela são arrastados?” – perguntou-se em uma coluna de 1956.

Três anos depois, antes do Natal, à espera de que nascesse seu segundo filho, partiu para Brasília, onde cobriria o primeiro baile de debutantes na nascente capital federal. Na volta, ele que amava aos aviões desapareceria em um Viscount abalroado.

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O comício de Fidel Castro na entrada em Havana, 1959 (Foto: Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

“Ele faleceu no dia 24 de dezembro de 1959, num estúpido choque causado pela imperícia do piloto do pequeno avião militar que colidiu com a aeronave de carreira que vinha ao Rio de Brasília. Nasci em fevereiro de 1960. Não conheci meu pai”, diz o veterinário Luciano Carneiro Filho, que, autor de dois livros técnicos, nunca fotografou. Há quatro anos ele entregou ao IMS, por insistência da filha Thais, uma parte importante da memória profissional do pai.

As 150 cópias deterioradas iniciais, sem os negativos correspondentes, vinham acompanhadas de recortes das matérias que o grande fotógrafo guardara em pastas. O instituto coordenou o processo de restaurá-las e contextualizá-las. Na sede do jornal Estado de Minas, que recebeu os arquivos da revista finda, podem repousar neste momento os negativos de uma vida. A história de Luciano Carneiro, que nos anos 1940 batizou a Praia do Futuro de Fortaleza em uma reportagem, mal começou a ser contada. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 889 de CartaCapital, com o título "O ser humano acima de tudo"