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Número 889,

Saúde

Câncer

A fosfoetanolamina: esperança no rigor da ciência

por Miguel Martins publicado 02/03/2016 05h11
A substância é, enfim, alvo de dois estudos clínicos com seres humanos
Aderi Costa
Lidoka

"Só me resta acreditar no tratamento", afirma a ex-frenética Lidoka

No fim dos anos 1970, Maria Lidia Martuscelli, a Lidoka, ganhou fama como integrante das Frenéticas, grupo de cantoras-garçonetes formado em uma discoteca no Rio de Janeiro. Como nos versos de seu maior sucesso, Dancing Days, a cantora tem sentido, sofrido, dançado sem querer dançar nos últimos anos.

Em uma batalha contra o câncer desde 2006, Lidoka enfrentou uma cirurgia para a retirada de um melanoma, um tipo de neoplasia de pele, e foi submetida a quimioterapia para tratar um tumor no intestino. Em 2015, descobriu metástases no cérebro, glúteo e fígado. Seu oncologista receitou o remédio experimental Yervoy. O tratamento, no valor de 320 mil reais, provoca diversos efeitos colaterais: enjoo, diarreias e quedas hormonais capazes de levar à hepatite e a problemas na tireoide. “Não vou botar essa bomba dentro de mim”, disse Lidoka ao seu médico.

Nos últimos meses, a cantora tem buscado tratamentos paliativos. Além de mudanças nos hábitos alimentares, passou a utilizar uma substância polêmica: a fosfoetanolamina. Sintetizada por um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da USP em São Carlos, liderado pelo cientista Gilberto Chierice, o composto químico, originalmente produzido pelo próprio corpo humano, tornou-se a esperança de milhares de pacientes de câncer em estágio avançado no País.

Após obter 60 pílulas, fornecidas pela USP por meio de liminar, Lidoka afirma se sentir bem melhor e está esperançosa com o sucesso do tratamento. “Comecei com três cápsulas, agora tomo apenas uma por dia para não acabar.”

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Em animais e células, o composto mostrou potencial no combate à doença

Alvo de desconfiança da comunidade médica, a fosfoetanolamina deve deixar o terreno das incertezas neste ano. O composto será alvo de dois estudos clínicos com seres humanos. Até o momento, o composto havia sido submetido apenas a pesquisas com animais e células cancerígenas. Em 2007, o cancerologista Renato Meneguelo, integrante da equipe de Chierice, apresentou um estudo com resultados positivos para a regressão de melanoma em cobaias submetidas ao composto.

Embora a fosfoetanolamina tenha demonstrado potencial contra o câncer, a falta de critério na sua distribuição contraria qualquer recomendação médica. Fornecida pelos pesquisadores da USP de São Carlos informalmente, a substância teve sua produção proibida pela universidade em 2014. Pacientes como Lidoka recorreram então aos tribunais para obter o composto.

Em 2015, o TJ de São Paulo pediu a suspensão da entrega das cápsulas, mas reconsiderou a decisão após Edson Fachin, ministro do Supremo Tribunal Federal, conceder uma liminar a um paciente de câncer em estado terminal. Atualmente, a USP tenta atender à demanda de 13 mil processos relacionados à fosfoetanolamina, apesar de o Instituto de Química de São Carlos ser capaz de produzir apenas 2,4 mil cápsulas por semana.

Diante do crescente interesse de pacientes, o Ministério da Ciência e Tecnologia e a Secretaria de Saúde de São Paulo passaram a coordenar pesquisas distintas sobre a fosfoetanolamina. Por ora, cada frente realizará seus estudos de forma independente. Enquanto a pesquisa do governo paulista conta com a supervisão de Chierice na síntese da substância, o ministério obteve amostras da fosfoetanolamina com a USP no ano passado.

Segundo Celso Pansera, ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, resultados preliminares indicam que a substância não é prejudicial aos pacientes, embora não se saiba sua real eficácia. “Caso seja comprovado que ela não é tóxica, nosso objetivo é liberá-la para uso compassivo, medida adotada para medicamentos inovadores ainda não avaliados integralmente.” Como não há interesse do grupo de Chierice em obter dividendos com a patente, a eventual produção em série da fosfoetanolamina não deve sofrer entraves, avalia o ministro.

Para Paulo Hoff, do Instituto do Câncer de São Paulo, o estudo realizado em parceria com a Secretaria de Saúde de São Paulo será complementar ao do governo federal. Enquanto a pesquisa coordenada pelo ministério tem o potencial de garantir o registro da fosfoetanolamina na Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o objetivo do estudo paulista é analisar os efeitos do composto. “Ficarei muito feliz se os resultados forem positivos.”

Chierice acompanhará a síntese da substância no laboratório PDT Pharma, em Cravinhos, interior de São Paulo. Após a produção, a substância será encapsulada pela Fundação para o Remédio Popular, laboratório farmacêutico oficial do estado. Por outro lado, um relatório preliminar do Ministério da Saúde afirma que o químico não quis participar do estudo federal por conta da presença de entidades da indústria farmacêutica na pesquisa. O motivo soa contraditório, pois o laboratório PDT Pharma também é privado. 

Meneguelo diz não ter sido procurado por Chierice ou qualquer esfera de governo para participar dos estudos. Biomédico do Instituto Butantan e responsável por pesquisas com a substância, Durvanei Maria foi convidado pelo Ministério da Saúde para acompanhar a pesquisa federal. O biomédico também comprovou o potencial da fosfoetanolamina para estimular a morte programada de células cancerígenas.

Embora os estudos sejam realizados em frentes distintas, os dois grupos estimam que a avaliação de possíveis efeitos colaterais da substância será concretizada ainda em 2016. Lidoka aguarda ansiosamente para ter acesso livre ao composto. “Só me resta acreditar no tratamento e confiar no meu lado emocional e espiritual.” Se não restarem dúvidas sobre a ausência de riscos, antecipar a distribuição da fosfoetanolamina antes da conclusão dos testes terá ao menos um efeito benéfico: muitas vezes a fé na cura é a maior aliada de um paciente.

*Reportagem publicada originalmente na edição 889 de CartaCapital, com o título "A esperança no rigor da ciência"