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Número 888,

Saúde

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Vírus de exportação

por Rogério Tuma publicado 22/02/2016 04h46
A microcefalia, um mal visível e assustador, é apenas a ponta do iceberg
Ilustração: Estella Maris/Foto: Shutterstock

A ONU declarou a epidemia de zika vírus como emergência pública, por causa da associação de sua infecção e a síndrome de microcefalia e uma inflamação aguda das raízes nervosas à síndrome de Guillain-Barré.

O vírus ganhou o nome que significa “crescido demais” da floresta zika, em Uganda, onde foi descoberto em 1947. De lá para cá, algumas epidemias na África e na Ásia ocorreram, mas nada se compara com o que está acontecendo na América Latina e no Caribe. 

Pouco se sabe sobre o zika, provavelmente porque os governantes africanos são tão desleixados quanto os nossos, e não notaram a gravidade da doença, deixando-a tomar as proporções de agora.

Por ora, as informações são precárias, apesar de perto de 80% das infecções serem assintomáticas e outras tantas provocarem apenas conjuntivite, dores articulares e febrícula. Algumas pessoas podem desenvolver uma fraqueza que começa nas pernas e mãos e vai progressivamente subindo até atingir o tronco e, às vezes, os músculos da face e os respiratórios, tornando o paciente incapaz de se mover e respirar. 

Esse quadro pode durar de dias a semanas e levar à morte ou então, por sorte, regredir lentamente. O perigo vem de uma inflamação das raízes nervosas desencadeada pelo próprio sistema imune, o qual, ao atacar o zika vírus, acaba produzindo anticorpos também contra a mielina, a proteína que encapa os nervos, destruindo-a.

Hoje são dezenas de milhares de casos no Brasil sob forte suspeita de ser infectados pelo vírus. Como a grande maioria é assintomática, no período de transmissão aumenta-se o risco de epidemia, ainda mais porque agora sabemos que ele pode ser transmitido sexualmente, sem precisar da picada do mosquito.

Aedes-Aegypti
O governo disponibilizou apenas 30 milhões de reais para combater o zika (Foto: ONU Brasil)

Se o zika infectar grávidas em qualquer estágio da gestação, atravessar a placenta e atingir o feto, o que acontece é que, como o período de desenvolvimento do sistema nervoso dura toda a gravidez, o vírus acaba causando uma encefalite com consequente atrofia cerebral ou lesões com calcificações. 

Devem existir outros milhares de crianças que sofreram a infecção durante a gestação – com sequelas menos graves, mas ainda assim importantes o suficiente para provocar convulsões, atraso no desenvolvimento neurológico e déficit cognitivo.

Esses casos não estão sendo computados. Hoje, são mais de 4 mil casos de microcefalia relatados no Brasil desde outubro, um número 50 vezes maior que o usual. Mas a microcefalia é apenas a ponta do iceberg.

A catástrofe está anunciada. Enquanto a Organização Mundial da Saúde vai gastar 500 milhões de reais, o governo brasileiro disponibilizou apenas 30 milhões de reais para combater o zika. Isso não paga sequer os deslocamentos do ministro da Saúde para explicar por que a situação chegou a esse ponto.

Faltam o custo dos testes diagnósticos, nos casos suspeitos, o auxílio de parto e pós-parto para as mães infectadas e o tratamento de recém-nascidos com epilepsia ou com incapacidade de se amamentar de forma natural. Isso cheira a descaso. 

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