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Número 888,

Internacional

União Europeia

Europa, um continente na encruzilhada

por Claudio Bernabucci publicado 23/02/2016 05h04
Para enfrentar a crise, Draghi lança a ideia de um ministro da Fazenda europeu
Fabrizio Bensch/Reuters/Latinstock
Draghi-e-Merkel

Que terá a dizer a senhora Merkel? Questão central: a ideia implica renúncias à soberania nacional

Mario Draghi, durante uma conferência organizada na semana passada pelo Deutsche Bank, lançou um sério alarme ao declarar que “forças da economia global conspiram para manter baixa a inflação” na área do Euro. Reafirmando a vontade de seguir a qualquer custo em direção ao objetivo de inflação a 2% (hoje é 0,4%), o presidente do Banco Central Europeu suscitou certa inquietação nos observadores ao evidenciar que “os riscos de agir tarde demais são superiores aos de agir cedo demais”.

Com argumentações muito persuasivas, ele quis lançar o recado de que todos os seus instrumentos monetários, a partir do quantitative easing (o chamado bazooka), estão se revelando insuficientes para superar a crise complexa que aperta a Europa e o mundo.

Faz tempo, a indicação clara de Draghi é o fortalecimento da integração política europeia e a acelerada cessão de soberania por parte dos Estados Nacionais. Ele entende que um superbanqueiro europeu, sem um parceiro único na direção da política econômica da área do Euro, é um projeto inacabado que ameaça se despedaçar diante de novas e maiores turbulências.

Poucos dias depois, no dia 8 de fevereiro, no meio da enésima tempestade nas Bolsas e do desabamento nas ações dos bancos, um artigo publicado no Süddeutsche Zeitung com assinatura dos dois banqueiros centrais da Alemanha e da França, Jens Weidmann e François Villeroy de Galhau, jogou na mesa do debate europeu a proposta de um ministro único da Economia e Finanças como resposta ao desafio de Super Mario.

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Weidmann discute a proposta e não a rejeita (Foto: Brian Snyder/Reuters/Latinstock)

Sabe-se que o presidente do Banco Central Europeu (BCE) está convencido de que uma medida desse porte não só seria uma resposta resoluta à crise atual, mas representaria um passo fundamental em direção aos Estados Unidos da Europa, ou seja, o projeto de uma União claramente federalista, como a única reorganização política do continente capaz de enfrentar os problemas da sociedade global.

Difícil imaginar, a esta altura, que as manifestações públicas dos três banqueiros não tenham sido concertadas e, além disso, que uma direção política até agora oculta não inspire o ambicioso desenho. A insólita aliança entre o italiano, o alemão e o francês é surpreendente também por outras razões.

O presidente do Bundesbank não é um defensor da política monetária expansiva que Draghi adotou no ano passado; muito pelo contrário, ele é o líder da minoria que foi derrotada pelo presidente do BCE. Quanto ao francês, ele é expressão do país que continua se embalando com o mito da grandeur, e que, portanto, representa o obstáculo talvez mais forte a uma perspectiva federalista. 

A mera hipótese de tal cessão de soberania representa para a política francesa um choque até agora inimaginável. O texto do documento franco-alemão é articulado e realista, e vale a pena a leitura completa para se obter uma adequada compreensão.

De todo modo, em benefício da síntese, é oportuno pôr o foco em sua afirmação central: “A assimetria entre soberania nacional e solidariedade comunitária constitui uma ameaça para a estabilidade da nossa União monetária. Maior integração e uma repartição da soberania e dos poderes em nível europeu da Zona-Euro envolve maior responsabilidade democrática”.

Os dois banqueiros centrais, e atrás deles Mario Draghi, formulam também a hipótese de que a proposta do ministro único da Fazenda não encontre o consenso dos países do Euro. Nesse caso, realisticamente, eles indicam que um sistema descentralizado, baseado na responsabilidade individual dos Estados Nacionais, resultaria em regras mais rigorosas (...) “Seguir nessa direção permite preservar a soberania nacional, com um nível de solidariedade inevitavelmente inferior e um reequilíbrio entre a responsabilidade e o controle.”

O recado é claro: sem renúncias de soberania, as regras em matéria de flexibilidade e dívida soberana se tornarão necessariamente mais rígidas e a austeridade será a resposta possível a novas turbulências externas ou desequilíbrios internos. 

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O banqueiro Villeroy também considera a ideia (Foto: Philippe Wojazer/Reuters/Latinstock)

Nestes dias, as declarações dos políticos europeus a respeito são bastante prudentes ou ambíguas, mas dá para entender que debaixo da cinza as polêmicas estão destinadas a explodir.

O possível cenário da renúncia à soberania representa um pesadelo para os países mais nacionalistas e os políticos mais fracos, mas é fato que o fortalecimento do Euro provocado por uma integração maior permitiria uma política geral de crescimento em todos os países da área, ou seja, uma política econômica, com ótica supranacional, de poderosos investimentos e utilização da enorme poupança europeia congelada, que até agora o Bundesbank e o governo Merkel recusaram.

A suspeita de que um eixo Draghi-Merkel tenha amadurecido nos últimos tempos a criação de um ministro único da Fazenda, equilibradamente fiel a Berlim e Paris, é muito forte. No mínimo, os três banqueiros, dos quais é reconhecida a autonomia do poder político, tiveram o mérito de trazer à tona um debate subterrâneo que por certo já se desenrolava nas principais capitais europeias.

Além disso, declarações recentes não podiam se aventurar, para não ser acusadas de ingerência política, mas o recado é claríssimo e aponta indiretamente para o âmbito político-institucional da Europa.

Os primeiros lances da longa partida de xadrez a que assistiremos, até alguma clara conclusão, confirmam certas intuições: o falcão Schäuble, adversário interno de Angela Merkel, se opõe ao desenho de seu aparente amigo Weidmann, enquanto, entre os inquietos italianos, o ex-premier Enrico Letta apoia o ministro único proposto por Draghi, e Matteo Renzi, atual primeiro-ministro, pisa no freio, declarando que é prioritária a mudança da política econômica e não quem será chamado a dirigi-la.

Diga-se que, aparentemente, Draghi e Renzi têm uma relação muito serena, mas por estilo e rigor cultural não poderiam estar mais longe um do outro. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 888 de CartaCapital, com o título "Um continente na encruzilhada"