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Número 888,

Sociedade

Futebol

Pep Guardiola e os outros

por Nirlando Beirão publicado 26/02/2016 04h50, última modificação 29/02/2016 13h52
Mourinho, Van Gaal, Pellegrini, Löw, Sampietro. Quem é que trouxe o prazer de volta ao futebol?
Fredrik Von Erichsen/ AFP
guardiola

Impôs um padrão de elegância que no gramado é fúria, fora dele é gentileza

Ao desembarcar no complexo esportivo da Säbener Strasse, no chuvoso dia de São João de 2013, para iniciar sua primeira temporada como treinador do Bayern de Munique, Pep Guardiola tinha dois fantasmas a assombrá-lo – mais que isso, a desafiá-lo. 

O primeiro: assumia uma equipe que, sob o comando do agora aposentado Jupp Heynckes, havia conquistado todos os troféus que lhe passaram pela frente: a Bundesliga, a Copa da Alemanha e a Liga dos Campeões da Europa.

O que mais sonhava buscar o Bayern, trazendo Pep para uma azeitada máquina que já se movia triunfalmente por si mesma? E por que não José Mourinho, o português igualmente capaz de abiscoitar títulos onde quer que passe? Por que não um talento nativo como o promissor Jürgen Klopp, hoje no Liverpool? 

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O super-rival Mourinho impôs em campo uma fúria santa e, fora dela, um estilo grosseiro. (Oli Scarff/AFP)

O outro fantasma a perseguir don Pep: a mística do übercampeão Barcelona, a quem o ex-jogador servira como treinador por quatro fascinantes temporadas (de 2008 a 2012).

No Barça, onde vivera o esplendor de sua carreira dentro do gramado, como capitão do Dream Team de Ronaldo, Rivaldo, Stoichkov e Luís Figo, Pep Guardiola amealhou, de cara, treinador estreante, um extraordinário acervo de títulos (todas as disputas domésticas, dois títulos europeus, o da Champion’s League contra o eficiente Manchester United de Cristiano Ronaldo e Carlitos Tévez, e já se encaminhando para o Mundial de Clubes, em Abu Dabi, com os 2 a 1 em cima do Estudiantes de la Plata).

Nascia ali, sob a regência perfeccionista de um ex-volante esguio, incapaz de um pontapé e de um chutão, o lendário Barça de Messi, Iniesta, Xavi & Cia., com seu estilo de fluência elegante no afago à bola aliado a uma mortífera inteligência tática capaz de encantar quem gosta de futebol muito além do clichê do “futebol-arte”. 

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Guardiola deu luz ao lendário Barça de Messi, Iniesta, Xavi e Cia. (LLuis Gene/AFP)

Será que Guardiola conseguiria, ao chegar em 2013 ao Bayern, implantar no Fussball tedesco, robusto, físico, de muita velocidade, a linguagem inovadora “guardiolês”? Paixão alternando-se com paciência, coragem mesclada com sabedoria e o cultivo obcecado de uma virtude que jamais fez parte da cartilha de treinador de futebol (me apontem um único): a dúvida. 

“É um homem que duvida de tudo”, sintetiza o jornalista catalão Martí Perarnau, autor de Herr Pep (o título da edição em português, recém-lançada, é Guardiola Confidencial). “A origem dessas dúvidas não é a insegurança nem o medo do desconhecido: é a busca da perfeição. Ele sabe que alcançá-la é impossível, mas a persegue do mesmo modo.” Aí a gente se lembra dos treinadores nativos, donos de certezas blindadas e obtusas, e os 7 a 1 voltam a estapear a sofrida memória de nosso futebol.

Martí Perarnau ouviu do treinador  que não pretendia fazer do Bayern uma cópia do Barça. O 1% que talvez faltasse aos alemães tinha nome – magia. O jornalista catalão sabia que Pep conseguiria botar a cereja no bolo. Mas já arriscava, três anos atrás: “O futuro de Guardiola está no Bayern, mais à frente na Inglaterra e, dentro de oito ou dez anos, em uma seleção”. 

A profecia vem se cumprindo: enquanto encerra sua terceira temporada no Bayern, hoje, novamente com pinta de campeão, aliás tricampeão, 20 rodadas de um total de 34, 17 vitórias, dois empates e apenas uma derrota, com 8 pontos à frente do segundo colocado, o insistente Borussia Dortmund, Pep Guardiola prepara a mudança para Manchester, onde esperam por ele o City bancado pelo magnata Khaldoon al-Mubarak, de Abu Dabi, e espinhosos desafios (a última partida do City, que ainda disputa a liderança com o espantoso Leicester de Claudio Ranieri, terminou em 3 a 1 para os visitantes,). 

Jogadores do City de recursos burocráticos, como a dupla brasileira Fernando e Fernandinho, devem estar com as chuteiras de molho (ao subir para o comando do time A do Barça, em 2008, Pep tratou de dispensar os narcisistas Deco e Ronaldinho Gaúcho).

Indagado sobre como conciliaria as últimas rodadas da Bundesliga e a expectativa de se mudar para o City, Guardiola foi irônico: “Sou como uma mulher; sei pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo”. 

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O City de Aguero busca em Pep o que ele aprendeu em campo e fora dele. (VI Images/ Getty Images)

A ironia é outro fator a diferenciar aquele que é tido como o mais revolucionário treinador entre todos os outros que costumam se exibir, em uivos selvagemente inúteis e confusa coreografia de gestos, à beira dos gramados. Ironia e autoironia.

O fanático da exatidão Pep Guardiola, 45 anos, filho de um pedreiro de Santpedor, na Catalunha, tem à cabeceira Saber Perder, do amigo e cineasta David Trueba (foi o pai, diz Pep, quem lhe ensinou a jamais transferir a culpa para os outros).

Desastres acontecem na trajetória de quem corre riscos e o futebol não é uma exceção – a exceção é um treinador de futebol que seja capaz de se responsabilizar por eles, como dolorosamente concedeu Pep Guardiola após a catastrófica eliminação do Bayern na semifinal da Champion’s League de 2013-2014. A decisiva partida foi no Allianz Stadium, em Munique, contra um clube que reverberava para o treinador o mais agudo sentido da palavra rivalidade: o Real Madrid. 

O Bayern perdera por 1 a 0 no Santiago Bernabéu, mas tinha time para tirar, em casa, qualquer diferença. Guardiola, com um elenco reduzido por lesões, teve de improvisar na escalação do time. Improvisou demais – admitiu, depois de um acachapante 4 a 0.

Carlo Ancelotti, o técnico do Real, deu um nó tático em Guardiola. Aproveitou aquele que era, até então, um dos trunfos táticos do Bayern: compactar a equipe, para facilitar a troca de bola, tanto que a zaga joga adiantada, muito distante do goleiro (o que acabou transformando Manuel Neuer num improvisado líbero). 

O Real de Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos passeou no espaço livre “Desse tombo só se sai de duas formas”, desabafou Pep. “Ou você fraqueja ou se levanta com mais força. Eu me levanto com mais energia e mais convicção. Hoje acredito ainda mais nessa maneira de jogar.”

“É o fim do tiquitaca”, decretaram os críticos convencionais. Acontece que se há alguém que jamais chamaria de tiquitaca – apelido dado àquele lentíssimo ziguezague no qual o Barça se especializou a fim de exasperar o adversário – é o próprio Guardiola. “O tiquitaca é uma merda”, diz sempre. “É puro desperdício. É passar a bola por passar.”

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Virtudes raras: assumir os erros e cultivar dúvidas. Agora pensem no Dunga, no Felipão. (Reuters/Latinstock)

 

O que é preciso, ensina, é que os zagueiros e o volante (habilidoso, afetuoso com a pelota, diferente do truculento meio-campista à moda de Felipão, incapaz de um rasgo de criatividade) saiam com agressividade e rompam as linhas do rival. 

Outro dogma que Pep ajudou a demolir: o centroavante trombador e trapalhão, ainda que goleador. Sempre prefereiu jogar com um falso 9, capaz de aparecer e confundir os zagueiros adversários. Joachim Löw, treinador da Seleção de 2014, teve seus méritos, mas dá para ver que os alemães aprenderam muito com a “contracultura” de Guardiola (expressão dele).

Dá para sentir o toque de Pep no escorreito e energético balé protagonizado pelo Bundesteam – de Schweinsteiger, de Müller, de Kroos, de Boateng, de Lahm, de Neuer, meio time do Bayern – no Mineirão, no 8 de julho da eterna vergonha, diante dos meninotes chorões da família Scolari. 

Guardiola é homem de atitude e de integridade. “Arrasou com toda a farsa e a mentira”, festejou outro cruzado da ousadia criativa, o treinador da Argentina campeã de 1978, Cesar Luís Menotti. Trouxe um padrão de profissional que não se envergonha da delicadeza, envergonha-se é da grosseria.

Meio intelectual, meio de esquerda, leitor de poesia, sabe que Kaváfis não é zagueiro da seleção grega e que aquele Quixote que uniu a Espanha em torno de um ícone nacional, delirante, apaixonado, tinha sempre a seu lado, um pragmático, essencial Sancho Pança. 

É sincero quando, de fé independentista, se apresenta como catalão – e não como espanhol. Ficou registrada como se fosse um manifesto político sua entrevista coletiva em Tóquio, após o massacre que o Barça impôs ao Santos de Neymar, em dezembro de 2011, na final do Mundial de Clubes: 4 a 0, sem constrangimento, sem piedade.

Às perguntas dos jornalistas internacionais, ele respondia em inglês. A quem se lhe interrogasse em espanhol, replicava em catalão. Pep nunca quis esconder o que pensa, de que lado está. Mais próximo  de Maradona, mais distante de Pelé.

Como observou Afonsinho, colunista desta CartaCapital, até o figurino dos estádios Pep Guardiola ajudou a apurar. Por modéstia, atribui o chique e fino de seu estilo sartorial à mulher Cristina, cuja família vem do ramo de confecções e tecelagem na Catalunha.

Ao longo das partidas, sua gesticulação intensa e frenética parece a de um possesso. Terminado o confronto, o obcecado da bola tenta voltar ao normal com pratarrões de pastas calóricas que ele não consegue deglutir antes dos matches. 

Mantém-se cortês e cool mesmo quando a ocasião não é propícia. José Mourinho – a quem os tietes chamam de the special one – perdeu para ele, e para o Bayern, com o Chelsea, a Supercopa da Uefa-2013. Tinham sido parceiros no Barcelona – Mourinho como auxiliar técnico, Pep como jogador.

Furioso, o português não cumpriu a regra básica de cavalheirismo e não lhe estendeu a mão. A imprensa percebeu. “Conheço o José”, aliviou Guardiola. A partir daquele momento até as pedras entenderam que, se há um special one atuando fora das linhas, ele é Pep Guardiola. 

* Reportagem publicada originalmente na edição 888 de CartaCapital, com o título "Pep e os outros"

** Ao contrário do que dizia o texto inicialmente, a Supercopa da Uefa e o Mundial de Clubes não foram conquistados pelo Bayern de Munique sob o comando de Jupp Heynckes, mas já sob o comando de Guardiola

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