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Número 888,

Internacional

Europa

Frauke Petry, a nova cara da extrema-direita na Alemanha

por The Observer — publicado 11/03/2016 02h23
Sua juventude a ajudou a se destacar na política alemã, assim como sua proposta de atirar em refugiados que tentam entrar ilegalmente no país
Volker Hartmann/Getty Images/AFP
Frauke-Petry

Petry, nascida no lado oriental, catalisa as reações à política de acolhimento de refugiados

Houve um tempo no qual se alguém mencionasse uma política alemã com raí­zes no Leste comunista e doutorado em Ciência falaria de Angela Merkel.

Há, no entanto, uma nova mulher em cena. Frauke Petry, a jovem líder do principal partido de direita alemão, anti-imigrantes, a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla original), avança e lucra com a crescente insatisfação em relação à política de refugiados da chanceler, que estimulou a chegada de mais de 1,1 milhão de estrangeiros ao paí­s no ano passado.

Petry, de 40 anos, quase não sai dos noticiários desde que causou polêmica ao insistir recentemente que a polícia de fronteira da Alemanha deve ter o direito de atirar em refugiados que tentarem entrar clandestinamente no país.

“Deve-se impedir que os imigrantes cruzem ilegalmente da Áustria para a Alemanha”, disse em entrevista a um jornal regional. “Se necessário, deveriam usar armas de fogo. Não quero isso, mas o uso da força armada existe como último recurso.” 

Seus comentários, feitos imediatamente após um discurso aos seguidores do partido em Hannover, provocaram uma tempestade de protestos, no mí­nimo por lembrarem, com um calafrio, o tempo da Guerra Fria, quando seres humanos foram mortos a tiros ao tentar escapar da Alemanha Oriental comunista, onde Petry cresceu.

A líder do AfD, que terminou a Universidade de Reading, na Inglaterra, com um diploma de química em 1998, ascendeu ao comando do partido em julho de 2015, após a saída dos fundadores acadêmicos que criaram a legenda como um grupo antieuropeu no auge da crise grega, em 2013.

A partir daí, Frauke foi uma peça central nos esforços para conduzir o AfD a uma posição populista, anti-imigrantes, e uma das mais veementes – e perigosas – crí­ticas da decisão de Merkel de acolher os refugiados. 

Merkel recusou-se resolutamente a aceitar as exigências de fechar as fronteiras ou impor limite ao número de refugiados. Pesquisas de opinião mostraram recentemente que a AfD tem hoje até 12% de aprovação, o que a torna potencialmente a terceira força política da Alemanha.

Com eleições marcadas para o próximo mês em três estados, a legenda estaria prestes a obter ganhos consideráveis nos parlamentos de Baden-Wurttemberg, Alta Saxônia e Renânia-Palatinado.

O partido tem assentos em cinco parlamentos estaduais e observadores dizem que os representantes de legendas estabelecidas não podem mais continuar a ignorá-lo, como fizeram de modo geral até hoje. 

Habitualmente vestida com ternos bem-cortados, Petry tornou-se a face jovem da ascensão da AfD. Em um programa de tevê, em debate sobre a inclinação à direita da Alemanha, ela fincou o salto do sapato no tapete e insistiu ser errado rotular seu partido de populista e de extrema-direita. “Tem a ver com polí­ticos que reconhecem que precisamos de conceitos que levem a soluções ou não. Direita e esquerda são termos que não se encaixam há muito tempo.”

No passado, a AfD tentou distanciar-se do grupo de campanha anti-imigrantes e anti-islâmicos Europeus Patrióticos contra a Islamização do Ocidente (Pegida), que, como Petry, se originou em Dresden. Mas seu partido é cada vez mais citado como o braço polí­tico do Pegida. E Petry pouco fez para convencer alguém do contrário. 

Ambos utilizam linguagem semelhante, como “imprensa mentirosa”, um termo guarda-chuva para a mí­dia, ou “traidor”, para se referir a Merkel e outros defensores de sua política de asilo, que eles gostariam de ver revertida, com controles em toda a extensão das fronteiras alemãs.

Assim como nos comícios do Pegida, tornou-se comum ver cartazes da AfD a pedir que figuras do governo sejam linchadas como castigo. Recentemente, um funcionário da legenda sugeriu que a pena de morte seja adotada para o governo ser “encostado em um muro” e fuzilado. 

Refugiados
Deve-se impedir que os imigrantes cruzem ilegalmente da Àustria para a Alemanha. Se necessário, deveriam usar armas de fogo. ( Eric Kanalstein/ UN)

Jakob Augstein, colunista da revista Der Spiegel, disse a Petry no mesmo programa de debate: “Você é o sorriso amistoso no rosto das hordas que marcham por Dresden e espancam cidadãos (...). Você é o braço democrático daqueles que espreitam estrangeiros e incendeiam as casas dos asilados”. Petry continuou a sorrir quando ele prosseguiu: “Eu não a subestimo. Eu a levo muito, muito a sério”.

Há muito tempo não se escrevia e se falava tanto sobre um político alemão, à exceção de Merkel. Petry destaca-se de seus seguidores, na maioria homens grisalhos (estatísticas recentes mostraram que 71% dos eleitores da AfD são do sexo masculino), com sua aparência jovial e sorridente.

Mãe de quatro filhos, ela causou um escândalo razoável no ano passado quando anunciou que havia deixado seu marido, o pastor luterano Sven Petry, por Marcus Pretzell, deputado da AfD. Seu novo parceiro desde então trocou a AfD pela Democracia Cristã de Merkel.

Apesar disso, houve sugestões de que ele é responsável por Petry se sentir cada vez mais à vontade para manter o partido no rumo da direita populista. “Pretzell e Petry são o ‘amor louco’ da direita alemã”, escreveu Augstein em uma coluna recente. “Como Bonnie e Clyde, eles seguem um curso de emboscadas entre o público alemão.”

O sorriso da líder do AfD tem sido visto com suspeita por muitos. Ao chamá-la de “Frau Dr. Strangelove”, referência ao ex-cientista nazista que assessorava o presidente no filme de Stanley Kubrick de 1964, Hans Hutt escreveu no jornal de esquerda Freitag: “O sorriso de Petry é um código. Todo sorriso e toda expressão dão um sinal ao povo: os argumentos do outro são besteiras... Trazem o terror de volta à política alemã. Parecem tão simpáticos, tão insultantemente simpáticos”. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 888 de CartaCapital, com o título "Hitler de saias?"