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Número 888,

Sociedade

Futebol

Antes que a bola role

por Mino Carta publicado 03/03/2016 05h08
Todo time habilitado à ambição haverá de contar com um técnico com vocação napoleônica e sensibilidade freudiana
Andrew Couldridge/ Reuters/ Latinstock
Ranieri

Na mão do italiano Ranieri, o Leicester exibiu força e talento absolutamente inesperados e lidera o campeonato inglês, já no returno, com autoridade

Quem, entre os aficionados do campeonato de futebol inglês, levava a sério o Leicester até escassos meses atrás? Talvez uns poucos iluminados. Pois se tornou a sensação do balípodo albiônico e até aprendemos a lhe pronunciar o nome, a soar Lester, com especial atenção ao deslizar sobre a segunda. Mastigar uma batata cozida ajuda.

Determinante a presença do técnico Claudio Ranieri na fulgurante campanha do time, servido por um elenco modesto. Na mão do italiano, a equipe exibiu força e talento absolutamente inesperados e lidera o campeonato, já no returno, com autoridade.

Ranieri, dotado da estampa de lorde e modos elegantes, de pronunciado cavalheirismo, está na iminência de encerrar em estado de graça suprema uma carreira digna, mas até hoje sem retumbâncias. E infinitamente mais barata do que a de um Guardiola.

Há bastante tempo, a função do técnico cresceu muito em importância no desempenho de um time de futebol, embora tenha sido cultivada em alguns casos a marcarem a história do esporte. Não é por acaso que o Uruguai, esse pequeno e sempre surpreendente país, tenha sido campeão olímpico em 1924 e 28, e campeão mundial em 30. Havia ali quem entendesse de bola antes ainda que alcançasse os pés dos jogadores.

No Brasil, indiscutível, extraordinário celeiro (perdoem a palavra) de craques, entendeu-se, sempre e sempre, que onde atuassem 11 desses demiurgos de técnica inata, a tática se desenvolveria naturalmente no gramado ao sabor das circunstâncias. Nem foi verdade quando, em 1958, os canarinhos finalmente venceram o seu primeiro Mundial ao decretarem em campo o fim da WM inglesa, que nós chamávamos de diagonal.

Brasil de 58.jpg
O Brasil de 58 se inventou por si mesmo. (AP/ Estadão Conteúdo)

Ao longo daquela taça, os brasileiros impuseram o 4-2-4, disposto a ser o 4-3-3, se preciso fosse, sem interferência do técnico Vicente Feola. Outro havia, porém, às suas costas, quem sabe sem que o percebessem. O húngaro Béla Guttmann veio ao Brasil em 1957 para treinar o São Paulo F.C. Alterou a concepção do jogo, mexeu com a alma dos jogadores e exerceu uma influência capaz de se cristalizar nos campos da Suécia.

Hungria e Áustria foram grandes escolas de futebol, e formidável técnico Vittorio Pozzo, campeão mundial em 1934 e 38, antes capaz de integrar a técnica de três argentinos filhos de italianos, Monti, Guaita e Orsi, em um time taticamente impecável, depois a categoria do uruguaio Andreolo dentro do mesmo esquema quatro anos depois. Contava também com um armador moderno, um regista, como Giuseppe Meazza, tanto em 34 quanto em 38.

Depois de 58, a mudança deu-se com a Laranja Mecânica de Rinus Michels, e dessas duas intervenções renovadoras surgiu o futebol de hoje, a assumir cada vez mais a importância da condição atlética e da capacidade de alterar a estratégia no decorrer dos 90 minutos. Engana-se quem acredita que com isso descurou-se da estética, do requinte técnico, do senso artístico que o futebol pode ter.

Todo time habilitado à ambição haverá de contar com um técnico com vocação napoleônica e sensibilidade freudiana, pronto a coibir individualismos exagerados e a promover qualidades escondidas, a cuidar paternalmente da paz do vestiário a vetar preciosismos inúteis em proveito da praticidade, a partir da óbvia necessidade de manter a todo custo a posse da bola, em detrimento dos recuos apupados pela plateia conquanto acabem por se mostrar benéficos. Surge daí o tique-taque barceloneta, aparentemente enfadonho, mas frequentemente tão rendoso.

Não falemos dos aspectos negativos gerados pelo negócio: o futebol chama dinheiro, muito dinheiro, daí a corrupção a cancelar de vez a ideia onírica da pureza do esporte. Recomenda-se assistir e apreciar, torcer até, presas das trajetórias da redonda, sem tentar imaginar as manobras desenroladas nos bastidores dos clubes, das federações, das empresas envolvidas no esporte, das televisões que o transmitem, da política em todas as suas manifestações.

Certo é que, além de Pep Guardiola, celebrado neste espaço, há muitos técnicos de valor. Aqueles que sabem inverter a rota na hora exata, com uma alteração tática de eficácia imediata, com a substituição tempestiva, com aquele toque genial que convoca a cavalaria para o ataque pelos flancos.

Não excluiria José Mourinho, a despeito das suas tendências apoteóticas. Excluiria um certo Benítez, este sim, dado a desastres. O mais recente no Real Madrid. Mais conspícuo o anterior, no Napoli que com ele não conseguia decolar.

No momento o Napoli lidera o Campeonato Italiano, guiado pelo técnico Maurizio Sarri, e está para enfrentar o segundo colocado, a Juventus, em uma partida decisiva que suponho valha a pena assistir. Sarri é de meia-idade e passou a vida de técnico na Segunda Divisão.

Na temporada passada treinou com sucesso o Empoli, clube toscano da província. Com Sarri, o time vesuviano passou a praticar outro futebol, eficaz e bonito de se ver. Quem apostaria em Sarri? Quem apostaria em Ranieri?

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