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Número 888,

Cultura

Cinema

No cinema, a luta das mulheres por igualdade

por Rosane Pavam publicado 19/02/2016 19h15, última modificação 20/02/2016 08h50
Para diretora de "Cinco Graças", o filme pode mudar a vida das meninas turcas, por ter grande efeito sobre o público
Cinco-Graças

Cinco Graças, concorrente ao Oscar, entre a sensualidade e a sordidez

Os cabelos das cinco meninas balançam soltos, como as crinas dos cavalos em galope. Os fios se colam aos corpos molhados, cobertos pela camisa alva e a saia azulada dos uniformes. O sol invade a aldeia Inebolu, na enseada do Mar Negro onde as irmãs mergulham, carregadas nos ombros pelos meninos. Estamos na Turquia contemporânea, oito décadas depois de o país ter estabelecido o voto feminino, mas, se desejarem liberdade, suas cidadãs terão de agir como corcéis, dispostas a queimar o chão na poeira, rumo à liberdade que lhes sugere o mar.

Deniz Gamze Ergüven, de 38 anos, filmou grávida seu primeiro longa-metragem, Cinco Graças (Mustang, no original), um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Estudante de cinema na França, país responsável pela produção deste projeto ficcional, a diretora turca desejou que o filme respirasse força e simplicidade.

A sequência na água repete uma situação de sua adolescência. Ela foi censurada por tomar banho vestida junto aos meninos, e aceitou que a repreendessem. Em seu filme, contudo, as garotas respondem à reprovação em tom elevado, dando início a um intenso confronto familiar.

O cinema comercial acolhe as causas femininas, quase a retroceder àquele 1934 em que ousadamente Frank Capra derrubou as muralhas de Jericó para a união de Claudete Colbert e Clark Gable, as estrelas de Aconteceu Naquela Noite. Os novos filmes lembram que viver em igualdade com os homens é um direito das mulheres.

Em Cinco Graças, tanto quanto em Alias María, do colombiano José Luis Rugeles, exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e próximo da distribuição no País, ou em As Sufragistas, da britânica Sarah Gavron, desde dezembro nos cinemas brasileiros, elas enfrentam um tiroteio moral.

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Karen Torres, escolhida para Alias María pela força do olhar

O filme turco traz personagens ruidosas, desejosas de vivenciar experiências que lhes são negadas, como assistir a um jogo de futebol, namorar ou conduzir automóveis. Estudante de cinema em Paris, a diretora voltou à terra natal para encenar o cerco físico e psicológico às meninas em um suspense constante. Por nove meses, testou aquelas que pudessem viver os papéis mesmo sem possuir formação profissional.

Nenhuma escolhida diz ter experimentado impedimentos sociais semelhantes aos mostrados no filme, reconhecíveis por elas, contudo, nas ruas, escolas e redes sociais. Para que interpretassem como irmãs, acostumaram-se umas às outras, vivenciando uma rotina de jogos sob a orientação de treinadores de elenco. Assistiram a clássicos como Monika e o Desejo, de Ingmar Bergman, e Alemanha Ano Zero, de Roberto Rossellini, nos quais a responsabilidade pela construção de um novo destino recaía sobre a criança e a mulher.

Ilayda Akdogan, por exemplo, que representa a mais velha entre as irmãs, assistiu aos títulos nos quais a sensualidade de Marilyn Monroe se fez por meio do sorriso, das pernas desnudas e dos olhos bem abertos. E procurou absorver seus gestos. O filme não abandona a insinuação de erotismo, porque tampouco a sociedade turca o faz, argumenta Ergüven. “Tudo o que diz respeito ao feminino é reduzido à sexualidade no meu país”, diz a diretora. “Por exemplo, houve casos em que meninas e meninos se viram expulsos da escola apenas por terem usado a mesma escada de acesso às salas de aula.” A cineasta assistiu a Saló – Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, em que “a luta contra o fascismo vem encenada sob a sordidez”, durante todo o período em que rodou seu filme.

Contudo, não se viu como uma militante ao dirigir esta obra contundente. “Um filme não é um discurso político”, ela acredita. “E eu sou como o escritor Romain Gary, que argumentava não ir a protestos porque sua prateleira de livros marchava por ele.” Aos 17 anos, contudo, sua atriz Ilayda Akdogan talvez não pense de modo idêntico. “Em Cinco Graças, as meninas nunca encarnam o papel de vítimas, elas são heroínas”, diz, ansiosa por desenvolver uma futura carreira como intérprete.

“Quem assistir ao filme potencialmente encontrará uma rota de fuga. Descobrirá dentro de si o ímpeto de se salvar da prisão.” Günes Sensoy, hoje aos 14 anos, igualmente nascida em Istambul, interpreta a mais nova entre as irmãs. Ela sabe que Cinco Graças representa apenas uma parte da realidade de seu país. “Mas, ainda assim, o filme pode mudar a vida das meninas turcas, porque parece ter um grande efeito sobre o público, ele move sua coragem e suas esperanças.”

Em um caminho contrário ao escolhido pela diretora, o colombiano José Luis Rugeles procurou a protagonista de seu filme entre as meninas de 13 anos matriculadas nos colégios de regiões com altos índices de violência. Eram 1,2 mil delas no início, selecionadas posteriormente para um grupo total de 20. Elas se submetiam a exercícios curtos de atuação, nos quais concediam falsas entrevistas. “Foi então que nos demos conta da força e da sinceridade contidas na maneira de Karen Torres atuar”, conta Rugeles sobre a escolha final. “Sua capacidade de escuta lhe permite transmitir oceanos e seu olhar é perfeito para a tela grande, uma vez que a faz expressar-se sem a necessidade de palavras.”

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Carey Mulligan em As Sufragistas, um destino transformado pela ação direta

A guerrilheira María executa o combate à perfeição enquanto namora um soldado da guerrilha. Ele a presenteia com as contas que farão suas pulseiras e colares, mas desconhece que a namorada espera um filho. Aos três meses, as gestações das combatentes são necessariamente interrompidas. E enquanto María parece desejar prossegui-la, o comandante de seu grupo a designa para uma missão.

A menina deverá entregar em segurança, a uma família de camponeses, o bebê que a mulher do chefe teve em segredo. O filme narra agilmente, atento às expressões e aos gestos. É como se as lições ensinadas em obras como Sciuscià, de Vittorio De Sica, sobre a má sorte de dois engraxates, tivessem sido suficientemente aprendidas, embora o cineasta se diga influenciado por Andrei Tarkovski, Rainer Fassbinder e Terry Gilliam ao dirigir filmes.

Rugeles fala a um público colombiano com hábitos literários, que agora começa a experimentar uma onda de produções cinematográficas (28 filmes anuais, para uma população de 46 milhões de habitantes, enquanto o Brasil, no ano passado, fez 128 filmes). O diretor resolveu enfrentar a temática da guerrilha, embora ela seja rara no cinema do país.

O Abraço da Serpente, filme concorrente pelo país ao Oscar estrangeiro deste ano, explora, por exemplo, a relação entre um índio da Amazônia e dois cientistas rumo à obtenção de um medicamento. “Temos muito medo de falar de maneira profunda sobre nossa violência”, acredita Rugeles. “Mas acho que é hora de exteriorizar esses mais de 50 anos de guerra. De certa forma, María quer transformar seu destino por amor.”

Ele crê que na Colômbia exista “uma espécie de matriarcado” com força impressionante para transformar o estado das coisas. “São mães que encabeçam as famílias, empurram os filhos para a frente, trabalham e enfrentam com valentia o machismo milenar, possuidoras dessa força quase animal que, diga-se, reside em todo o gênero feminino.”

Uma força visível em As Sufragistas, filme de Sarah Gavron que mostra a luta pelo direito ao voto encarnada por mães como Maud Watts, interpretada pela atriz Carey Mulligan. Integrante da organização londrina União Social e Política das Mulheres, a WSPU, a empregada de lavanderia enfrenta a polícia no início do século XX por meio da ação direta.

“E uma de minhas maiores dificuldades ao escrever este filme foi justamente incorporar a sensação de ser desigual”, conta a roteirista Abi Morgan. Quando abordam as mulheres, os novos filmes precisam olhá-las desde o chão onde se encontram. “Em Alias María não abordamos a guerra como um espetáculo de onde saem grandes heróis”, diz Rugeles. “Mostramos um panorama desolador cotidiano onde é possível revelar a humanidade de nossos combatentes.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 888 de CartaCapital, com o título "A hora da combate"