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Número 887,

Internacional

Opinião

O caso Litvinenko revela a Rússia

por Wálter Maierovitch publicado 04/02/2016 17h54, última modificação 07/02/2016 09h04
Os russos têm tradição em eliminar inimigos por envenenamento
Presidência da Rússia
Vladimir-Putin

Inimigos de Vladimir Putin foram envenenados depois da sua chegada ao poder

Os espiões soviéticos sempre tiveram fama de preferir matar o inimigo por envenenamento. Esses venenos seriam preparados em laboratório químico instalado em Moscou, próximo à Praça Lubianca, onde, desde 1918, funciona a sede do serviço secreto, conhecido, no curso do tempo, pelos acrônimos Ceka, GPU, NKVD, KGB e, atualmente, FSB.

Na famosa obra intitulada Arquipélago Gulag, o dramaturgo Alexander Soljenítsin, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1970, contou sobre torturas e interrogatórios cruéis na Lubianca que vitimaram dissidentes políticos e espiões duplos.

Dois notórios inimigos de Vladimir Putin foram envenenados depois da sua chegada ao poder: o produto químico usado contra a jornalista Anna Politkovskaya não funcionou, mas o radioativo polônio-210, destinado a Alexander Litvinenko, ex-tenente-coronel da hierarquia KGB, o levou à morte em Londres.

O polônio foi uma descoberta da famosa física Marie Curie em 1902. Seu nome homenageia a Polônia, país de origem da cientista.

Em setembro de 2004, enquanto cobria o massacre em uma escola da capital da Ossétia do Norte, essa jornalista foi envenenada a mando dos serviços secretos russos. Logrou sobreviver e continuou as críticas a Putin.

Como se sabe por toda a Moscou, fora uma represália à sua luta em favor dos direitos humanos dos chechenos. Para se ter ideia, em 1999, Politkovskaya organizou, sob uma chuva de bombas, a evacuação de um asilo em Grozny e salvou 89 anciães.

No jornal Novaya Gazeta, acusou nominalmente Putin e o responsabilizou por permanentes massacres aos chechenos. Como o veneno anterior não havia funcionado, três sicários, em 7 de outubro de 2006, mataram a jornalista a tiros de pistolas, quando ela deixava o prédio da sua residência.

Depois de fugir de uma prisão russa, Litvinenko, no ano 2000, desembarcou em Londres sob as bênçãos de Boris Abramovich Berezovsky, muito conhecido dos torcedores do Corinthians e igualmente inimigo de Putin.

No governo do presidente russo Boris Yeltsin, o oligarca era conselheiro e uma espécie de ministro de Relações Exteriores. Acabou por entrar em confronto com Putin, primeiro-ministro e delfim de Yeltsin. Com a morte de Yeltsin, procurou e obteve asilo no Reino Unido. 

Litvinenko
Litvinenko teria relatado aventuras sexuais de Putin (Foto: Wikicommons)
Litvinenko, mediante remuneração e cidadania britânica, passou a colaborar com o M16, o serviço secreto britânico. Para melhorar o orçamento, vendia informações para a inteligência da Espanha.

Segundo os 007 europeus e norte-americanos, Litvinenko teria relatado aventuras sexuais de Putin. Mas a coisa engrossou quando revelou as conexões entre as máfias russas e o vértice do governo, com Putin a amealhar uma das maiores fortunas do planeta.

No outono de 2006, segundo conclusão da Scotland Yard, chegaram a Londres os russos Andrei Lugovoi, deputado, e o industrial Dmitri Kovtun. Ambos ex-companheiros de Litvinenko na KGB e apontados, em relatório do juiz instrutor inglês Robert Owen, como executores do homicídio.

A dupla havia convidado Litvinenko para um encontro londrino no bar do Hotel Millenium, onde se consumou o envenenamento, com a colocação de polônio numa xícara de chá. Litvinenko, internado em hospital com morte anunciada, morreu três semanas depois, não sem acusar Putin de ser o mentor de sua execução.

Por evidentes e tranquilos em Moscou, os suspeitos Lugovoi e Kovtun negam o crime e transferem as suspeitas para Berezovsky, supostamente alvo de chantagens de Litvinenko. Nos quartos do hotel de hospedagem dos dois russos suspeitos, a polícia londrina e a inteligência britânica detectaram resíduos de polônio.

Em meio a desencontros geopolíticos e geoestratégicos entre Londres e Moscou, incluídas as questões da Síria, do Estado Islâmico e da República Autônoma da Crimeia, apareceu, depois de nove anos da morte de Litvinenko, a conclusão do juiz Owen, aprovada pela Comissão de Investigação do homicídio do ex-espião da KGB.

Para Owen, foi um crime que envolveu espionagem de Estado, de responsabilidade de Nikolai Patrushev, chefão do serviço e, “provavelmente”, com conhecimento de Putin. O premier britânico David Cameron fez um discurso duro.

A ministra do Interior, Theresa May, advertiu sobre insuportáveis violações às leis internacionais e os jornais The Times e The Guardian cobraram providências. Já o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, negou a responsabilidade da Federação Russa e acusou os britânicos de realizar uma “pseudoapuração”. Acrescente-se: apuração com nove anos de duração.

*Coluna publicada originalmente na edição 887 de CartaCapital, com o título "Spy vs. Spy"