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Número 887,

Cultura

Exposição

Na Pinacoteca, a criação da paisagem de São Paulo

por Ana Ferraz publicado 13/02/2016 23h28, última modificação 14/02/2016 08h47
50 obras do Museu Paulista revelam as transformações da capital e do estado
Hélio Nobre/José Rosael
Pintura

Inundação da Várzea do Carmo (1892), a vista panorâmica do Centro por Benedito Calixto.

partir de um ponto geográfico privilegiado, o pintor descortina uma cidade em expansão. A monumental visão panorâmica tem como foco um problema recorrente na região central da São Paulo do século XIX, o transbordamento do Rio Tamanduateí sobre a área de forte comércio. A tela Inundação da Várzea do Carmo, pintada por Benedito Calixto em 1892, é um valioso registro histórico da província prestes a enriquecer com a indústria do café. Com minúcia, o pintor detalha o casario, os galpões, as chaminés a expelir fumaça. Azulado, o rio invade a parte baixa e deixa submersa boa parte da atual área do Parque Dom Pedro.

A tela de 4 metros de comprimento por 1,25 metro de altura é um dos destaques da exposição Coleções em Diálogo: Museu Paulista e Pinacoteca de São Paulo (Pinacoteca, até 29 de janeiro de 2017). A iniciativa dá continuidade à celebração dos 110 anos da Pinacoteca, instituição nascida a partir de 20 obras vindas da galeria de arte do museu fundado em 7 de setembro de 1895 com a vocação de entidade dedicada à história natural.

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Paisagem do Campo do Ipiranga (1893), de Antonio Parreiras, retrata o recém-construído museu, monumento solitário (Hélio Nobre/José Rosael)

“O Museu Paulista, conhecido como Museu do Ipiranga, nasce com caráter enciclopédico, voltado às ciências, à arte, à história. No momento de sua criação, na época da Proclamação da República, tem início uma discussão sobre a necessidade de se criar uma galeria de arte para São Paulo. Inicialmente ela é instalada no próprio museu, até a decisão por um novo espaço no bairro da Luz, no edifício onde funcionou o Liceu de Artes e Ofícios”, conta Fernanda Pitta, que divide a curadoria com Valéria Piccoli.

A proposta de Coleções em Diálogo é alimentar outro olhar para as mostras de longa duração da Pinacoteca. Além de ampliar os modos de apreciação, trata-se de grande oportunidade para ver ou rever obras que somente estarão expostas em 2022, bicentenário da Independência, prazo previsto para a conclusão da ampla reforma estrutural do Museu Paulista, cujo acervo tem cerca de 125 mil peças.

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Estudo de ânfora feito por Adrien H. van Emelen para a escadaria monumental do Museu Paulista (Hélio Nobre/José Rosael)

As pinturas itinerantes estão em quatro salas da Pinacoteca e vê-las exige passar por outras onde se exibe a coleção permanente. Um agradável roteiro de novas possibilidades. A visita começa pela estrela da exposição, a reconstituição da região central paulistana por Calixto. “Quem observa a pintura busca reconhecer sinais da cidade atual. A fábrica situada à esquerda da tela fica onde hoje é a Rua 25 de Março, região totalmente transformada”, diz Piccoli, curadora-chefe da Pinacoteca.

Outro ponto alto de Coleções em Diálogo são as pinturas que representam os ciclos econômicos brasileiros. “São telas enormes, fixadas na entrada do Museu Paulista, em lugares altos de difícil visualização de detalhes. A chance de avaliar essas obras de perto é única”, enfatiza a curadora. O transporte das telas até o segundo andar da Pinacoteca exigiu logística impecável, pois não cabem em elevadores e não podem ser carregadas por escadas. Foram içadas pelas janelas com o cuidado devotado a um piano caro.

As telas postadas acima da escadaria monumental do museu no bairro do Ipiranga foram uma encomenda de Affonso Taunay, diretor da instituição entre 1917 e 1945, com a intenção de mostrar o protagonismo paulista no desenvolvimento da nação. “Ele enfatiza o papel dos bandeirantes na constituição do País. Elege figuras e momentos históricos dentro da ideia de ciclos econômicos. Se em seu lugar de origem a ênfase é na monumentalidade, aqui podemos ressaltar o caráter da formação da encomenda, da atuação do artista. Por isso estão na sala anexa àquela dedicada ao ensino acadêmico. É quase como se fosse o desfecho dessa formação do artista até se tornar capaz de responder à encomenda pública de uma pintura histórica.”

Aqui estão trabalhos de quatro artistas convocados por Taunay, Rodolfo Amoedo, Henrique Bernardelli, Batista da Costa e Joaquim Machado, todos formados pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. As pinturas têm uma unidade e obedecem à concepção de Taunay de criação de um documento histórico. Para inibir a livre expressão dos artistas, o diretor da instituição acompanha e conduz cada passo da encomenda.

A primeira versão do painel Ciclo de Caça ao Índio (1925) desagradou a Taunay por exibir o bandeirante acompanhado de um cão e com um açoite na mão. O pintor decidiu iniciar nova tela, desta vez criticada por representar o personagem histórico em atitude pouco heroica, relaxado e com um cigarro aceso. A variante final traz o protagonista de semblante sério, arma na mão direita, como convém a um desbravador.

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A Colheita (1903), o olhar de Antonio Ferrigno sobre o ciclo do café (Hélio Nobre/José Rosael)

Do italiano de Salerno Antonio Ferrigno, que emigra para São Paulo em 1893 atraído por esse mercado florescente de arte na cidade, estão na exposição as seis conhecidas telas sobre o ciclo cafeeiro feitas a pedido dos proprietários da Fazenda Santa Gertrudes, no interior de São Paulo. “As pinturas mostram a colheita, lavagem, secagem do grão e transporte do café e foram enviadas para a Exposição Universal de Saint Louis em 1903. Era um modo de retratar o trabalho ordenado e eficaz não mais realizado por escravos”, explica Piccoli.

Diversas são as encomendas privadas e muitos os artistas brasileiros e estrangeiros dispostos a aproveitar essa fase próspera de trabalho. Henrique Manzo, pintor, desenhista e cenógrafo, integra a equipe de Taunay com a missão de documentar as principais fazendas no interior da província. Muitas haviam mudado a configuração e foi preciso recorrer a desenhos do século XIX como modelo. Entre as pinturas de Manzo expostas encontra-se Fazenda Monte Alegre, retratada em 1850.

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Baiana, intrigante pintura do século XIX (Hélio Nobre/José Rosael)

Na caminhada pelo acervo, parada para observar uma das obras mais intrigantes da Pinacoteca. Baiana, óleo sobre tela do século XIX, carrega o apelo do mistério. O autor é desconhecido e ninguém sabe quem é a bela negra jovem bem vestida, coberta de adornos de ouro. “Joias sofisticadas, luvas, semblante digno. Trata-se de uma tela muito especial para os historiadores de arte. Nada sabemos sobre ela, nem o motivo da escolha da personagem”, diz Piccoli. 

Na sala destinada às origens do Museu Paulista, a proposta é provocar a discussão em torno do modo como a instituição foi pensada para transformar São Paulo no centro da história do Brasil. Paisagem do Campo do Ipiranga (1893), de Antonio Parreiras, retrata a vegetação local em tons de ocre e ao fundo o personagem principal, o prédio recém-construído, monumento quase solitário sobre a colina batida pelo vento. 

No fecho da mostra, o traço elegante do pintor e escultor belga Adrien H. van Emelen. O artista radicado no Brasil concebeu as ânforas de bronze, ornadas com aves e plantas nativas, destinadas a conter água dos principais rios brasileiros. Os vasos com cubas de cristal, que celebram a grandiosidade do território e o processo de conquista por meio das monções, ocupam lugar nobre na escadaria de entrada do Museu Paulista. Para as curadoras da mostra, que demandou um ano de planejamento e dez dias de logística, o único desejo não realizado foi unir Independência ou Morte, de Pedro Américo, à conversa entre os acervos. “A obra foi feita para o edifício, está incrustada na parede. Sua retirada seria um risco, por isso é mais seguro mantê-la lá. Mas seria uma alegria trazer o quadro.”