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Número 886,

Internacional

The Observer

Evo Morales, prosperidade e diversidade

por Jonathan Watts, em La Paz — publicado 09/02/2016 05h16
Uma década de presidência do líder indígena melhorou a renda e a autoestima da Bolívia
Bolivian Presidency/ Reuters/ Latinstock
Bolívia

A festa de Alasitas reflete a expansão média anual de 5% do PIB e a maior aceitação da cultura indígena

As ruas de La Paz estavam forradas de dinheiro no domingo 24, quando a Bolívia comemorava sua crescente afluência e o orgulho indígena com uma orgia de consumo nas festas anuais de Alasitas.

A extravagância ritual com miniaturas e imitações foi mais colorida e criativa do que nunca neste ano, impulsionada pela década de crescimento econômico e a incorporação das superstições aimará, antes rejeitadas, pela corrente dominante.

No mercado da Plaza Murillo, as “cholitas” com chapéus-coco e xales tradicionais anunciavam grossas pilhas de dinheiro falso expostas sobre as mesas: 500 mil dólares por 5 bolivianos (0,72 dólar) ou uma pilha de 100 milhões de dólares por 25 bolivianos (3,62). Na primeira hora de vendas, trilhões mudaram de mãos. Meras notas de 100 dólares eram pisoteadas no chão.

Multidões de consumidores compravam carros de brinquedo, pequenos caixotes de cerveja de plástico, sacos com bens domésticos, todos minuciosamente copiados de marcas existentes, modelos de terrenos e malas em tamanho bolso recheadas de notebooks, passaportes e cartões de crédito, tudo de papel.

Cada compra representa um desejo. Quem quer se casar compra uma galinha ou um galo de plástico, símbolos de uma noiva ou um noivo. Os estudantes pagam por pequenas reproduções de diplomas e licenças profissionais de importantes universidades. Os doentes e suas famílias adquirem cópias em escala reduzida de atestados de saúde de hospitais respeitados.  

“Comprei todas as coisas que queria neste ano”, disse Milenka Calderón, que carregava uma sacola cheia de dinheiro de brinquedo, um saco de comida e uma boneca bebê, esta na esperança de sua filha recém-casada engravidar logo. “Se você tiver fé, a coisa se realiza.” No ano passado, conta, pegou uma casa de brinquedo e depois comprou uma de verdade. 

Segundo o costume local, cada item tem de ser abençoado por um sacerdote indígena kallawaya com incenso e pós, em um santuário improvisado ao deus da boa fortuna, Ekoko. Mediante pagamento de uma taxa, dezenas praticaram o ritual. 

Para não ficar de fora, a Igreja Católica oferece bênçãos. Muitos nesse país espiritualmente eclético fizeram fila para seus sacos de dinheiro e bens falsos serem aspergidos com água-benta na catedral, ou para tocar seus brinquedos plásticos nas estátuas de santos.

Quem buscasse exclusividade espiritual ficaria desapontado. Assim como a Bolívia, o festival é muito um caso de arriscar para ver. Desde que a sorte venha, ninguém se preocupa muito com que forma ela tome. Os vendedores também oferecem gatos japoneses “manuki-neko”, com as patinhas erguidas para dar sorte, e macacos de cerâmica, animal deste ano no zodíaco chinês, que trazem barris cheios de joias. 

A festa, que ocorre nas cidades de todo o país durante duas semanas, a partir de 24 de janeiro, é diversão bem-humorada. As famílias vêm comprar, os adultos jantam nas barracas nas ruas, enquanto seus filhos brincam. Os festeiros entregam montes de dinheiro a estranhos, em sinal de boa vontade. 

A Alasitas também reflete os muitos desafios sociais e econômicos que transformaram a Bolívia na década, desde a ascensão de Evo Morales, primeiro presidente indígena do país, que usou a renda do boom de matérias-primas para aumentar os padrões de vida dos conterrâneos e reduzir a desigualdade. 

A festa teve origem nas crenças dos indígenas aimará, e por muito tempo ficou relegada à periferia da cultura boliviana. As miniaturas só eram disponíveis no Parque de los Monos. Morales colocou a festa no centro da vida nacional, ao permitir a instalação de barracas na Plaza Murillo, diante do Congresso e do palácio presidencial. Hoje, sua popularidade estende-se muito além da população aimará. 

“Há mais fé hoje”, disse Juan Carlos Ballón, um pajé ou xamã. “Antes, quando a Bolívia era um Estado católico, todas as nossas crenças eram escondidas. Hoje temos uma nação plurinacional e todas as crenças são respeitadas, por isso podemos praticar abertamente. É um bom tempo para nós.”  

A Bolívia, antes um dos países mais pobres da América Latina, desfruta, segundo Ballón, da maior prosperidade de sua vida. Os artigos à venda na festa demonstram esse sucesso e refletem as expectativas de uma população que se habituou com um crescimento médio de 5,1% nos últimos dez anos. 

Em vez de sacos de cereais em miniatura, os populares compram imitações mais luxuosas. Além de casas de brinquedo, adquirem prédios de apartamentos de plástico ou madeira, com plantas arquitetônicas e minidocumentos de propriedade.

“Eu comprei só uma casa hoje, mas no ano que vem talvez compre um condomínio”, brincou Merçelas Gómez, moradora local, enquanto comia um tradicional Plato Paceño com seu marido. 

Com a queda dos preços globais das matérias-primas, a Bolívia precisará de mais do que sorte para manter seu crescimento por mais 12 meses. Por enquanto, ao menos, o país está em um clima festivo e generoso. Quando eu saía da praça, uma mulher colocou três notas de 100 dólares em minhas mãos. “Tome, para dar sorte!”, disse. 

*Reportagem publicada originalmente na edição 886 de CartaCapital, com o título "Prosperidade e diversidade"