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Número 885,

Cultura

Memória

A poesia particular de Ettore Scola

por Rosane Pavam publicado 22/01/2016 12h25, última modificação 23/01/2016 08h33
O diretor italiano viu a condição humana com humor e drama
Stefania D'Alessandro/Getty Images
Ettore-Scola

Scola não partilhava do temos de outros diretores diante da decisão de onde colocar a câmera. Escrevia com ela

Os seus eram filmes poéticos a interpretar um tempo e um lugar. Suas obras reflexivas, nas quais a imagem e a palavra se complementavam em ritmo natural, tiveram início quando, formado em Direito, passou a criar situações humorísticas para o periódico Marc’Aurelio, conforme descreveu no seu último filme, Que Estranho Chamar-se Federico (2013).

Morto em Roma aos 84 anos, dia 19, após uma parada cardíaca, Ettore Scola dizia que ser cineasta era um dos ofícios mais tediosos a ter experimentado em vida.

Ele achava o jornalismo muito mais divertido. E adentrara na direção sem ânimo especial, por indicação do ator Vittorio Gassman, que em 1964, diante do produtor Mario Cecchi Gori, apontou-o como o tipo ideal para conduzir Fala-se de Mulheres.

Entre tantos outros filmes de sua carreira como roteirista, Scola havia escrito aquele com a indicação precisa dos personagens no espaço. Eis por que, para Gassman, não seria difícil ao amigo que passasse à direção recusada por Dino Risi. Scola não compartilhava o temor dos outros diretores diante da decisão de onde colocar a câmera. Escrevia com ela.

Assim, o sucesso se fez desde seu primeiro trabalho, embora ele tenha considerado Dramma della gelosia (1970), em torno do triângulo amoroso formado por Marcello Mastroianni, Monica Vitti e Giancarlo Giannini, seu verdadeiro início como cineasta. Desde então parecia não haver experimentado outro ofício em vida.

Seu olhar poético era quase um estranhamento dentro da implacável e revolucionária commedia all’italiana.Para romper o tédio, Scola se lançava às experimentações.

A bela câmera que se vê na abertura de Um Dia Especial (1977) hesita entre a direita e a esquerda pelo pátio, até chegar ao apartamento em que mora a dona de casa interpretada por Sofia Loren.

Vítima do fascismo familiar, ela se vê atraída à culta sensibilidade do vizinho interpretado por Mastroianni, um homossexual. Não apenas as duas interpretações são esplendorosas.

Scola parecia saber de tudo ou mais, ao encarar a briga amorosa do garçom de Gassman com o cozinheiro Ugo Tognazzi no episódio Hostaria!, em Os Novos Monstros (1977). As duplas encenavam igualmente o drama, e em Concorrência Desleal (2001) dois rivais do comércio enfrentavam a injusta presença do antissemitismo.

O diretor escarnecia da falta de escrúpulos do italiano médio interpretado por Alberto Sordi em La Più Bella Serata Della Mia Vita (1972). Colocava brutalidade e humor na miséria vestida por Nino Manfredi em Feios, Sujos e Malvados (1976).

Em Nós Que nos Amávamos Tanto (1974), três amigos que haviam provado de maneiras diferentes, pela vida, seus ideais revolucionários, reencontravam-se na maturidade. A condição humana submetida à prova histórica, como ele a viu em O Baile, A Família ou O Terraço, era o material enriquecido de sua poética.

*Publicado originalmente na edição 885 de CartaCapital, com o título "Uma poesia particular"

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