Você está aqui: Página Inicial / Revista / Petróleo e crise / O foco no ensino
Número 885,

Sociedade

Opinião

O foco no ensino

por Thomaz Wood Jr. publicado 01/02/2016 05h21, última modificação 01/02/2016 05h40
Iniciativa no Reino Unido pretende renovar o ensino e a aprendizagem na universidade
USP Imagens
Ensino-Usp

Se atendido, o objetivo de conferir transparência aos resultados exigirá mudanças no ensino

A educação universitária é foco permanente de debate no mundo todo. As universidades são esteios da civilização e bastiões do humanismo, além de constituírem motores do desenvolvimento científico e econômico.

Nos últimos anos, multiplicaram-se os rankings de universidades, criados por jornais, revistas, websites e instituições governamentais. O topo das listas costuma ser frequentado por instituições estadunidenses e inglesas, os suspeitos usuais: Harvard, Oxford, Stanford, Cambridge e MIT. Universidades de elite europeias, canadenses e japonesas seguem o pelotão de frente. Instituições sul-coreanas e chinesas estão em ascensão. As universidades paulistas USP e Unicamp frequentam alguns rankings, mas costumam ficar distantes do topo.

Nos últimos anos, o Reino Unido foi palco de iniciativas pioneiras e polêmicas de mudanças no ensino superior. Em 2014, foi implementado o Research Excellence Framework, método amplo para avaliar as atividades de pesquisa das universidades da Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A avaliação é relevante por determinar a alocação de verbas entre as universidades. Além disso, provê transparência para o investimento público feito em pesquisa e os resultados gerados.

Por meio da REF, foram avaliadas 154 universidades, inclusive quase 200 mil resultados de pesquisa, como artigos, e cerca de 7 mil estudos de casos de impacto, uma grande novidade. Tais casos registram como as pesquisas geram, ou podem gerar, benefícios para a sociedade.

A iniciativa não ficou livre de críticas, focadas principalmente nos estudos de caso. A primeira crítica refere-se ao estabelecimento do critério de impacto da pesquisa, externo à academia. Alguns cientistas o qualificaram como ameaça à liberdade acadêmica. A segunda crítica relaciona-se à dificuldade para estabelecer medidas justas e imparciais para identificar o impacto da pesquisa, considerando a diversidade dos campos avaliados.

alusala_rj.jpg
A qualidade do ensino é frequentemente associada ao desempenho do professor (Alessandra Coelho/PMRJ)

O Reino Unido iniciou agora uma segunda onda de mudanças no ensino superior, dessa vez focada na qualidade do ensino. A nova iniciativa foi denominada Teaching Excellence Framework. O ponto de partida é a constatação de que muitos estudantes não recebem o ensino de qualidade que merecem. O objetivo é fazer as universidades responderem de maneira mais assertiva às demandas dos estudantes. Instituições que obtiverem bons resultados terão mais liberdade para ajustar suas anuidades.

Segundo um texto publicado no periódico britânico The Guardian, a ênfase no ensino foi recebida positivamente por muitas universidades. Como no caso da REF, o ponto crítico do novo sistema será provavelmente a questão da medição. Afinal, estabelecer critérios e indicadores para medir o ensino e a aprendizagem não é trivial.

A excelência em ensino é com frequência associada a professores carismáticos, que marcam de alguma forma a trajetória de seus estudantes. Tais professores tendem a ser bem avaliados por seus pupilos. Alguns desses professores têm inegáveis méritos e sabem unir substância e estilo. Outros, porém, abusam da pirotecnia e substituem o conteúdo pelo espetáculo.

O aprendizado depende de muitos outros fatores, além do carisma do professor: a orientação geral do curso, a organização das disciplinas, a definição dos conteúdos, a articulação desses conteúdos com a prática futura e os métodos de ensino e aprendizado adotados. Depende da criação também de uma verdadeira cultura do conhecimento, a unir estudantes, professores e gestores universitários em torno de ideais e projetos comuns. Caso o novo modelo se restrinja à avaliação dos alunos, poderá estimular comportamentos de faz de conta e prestar um desserviço à causa do aperfeiçoamento do ensino universitário.

Polêmica como a primeira onda, a segunda iniciativa tem potencial para provocar mudanças relevantes. Se atendido, o objetivo de conferir transparência aos resultados permitirá aos estudantes fazer melhores escolhas entre universidades e exercerá forte pressão sobre os departamentos e professores resistentes a atualizar suas práticas pedagógicas. Com seus possíveis acertos e erros, a experiência merece ser acompanhada.

registrado em: , ,