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Número 884,

Cultura

Memória

O que dizem seus olhos

A arte de David Bowie caminhou por máscaras e enigmas
por Rosane Pavam publicado 16/01/2016 06h34
François Duhamel

O enigma mora em nós. Morava em David Bowie. Mas o músico inglês, morto de câncer no fígado dia 10, aos 69 anos, prezava cultivá-lo e entregá-lo a quem o presenciasse. 

Batalhou de banda em banda para que, a partir dos 21, seu interior iniludível pertencesse a todos, transformado pela criação pop. Desenvolveu máscaras semelhantes às dos cômicos clássicos, uma mais insatisfeita que a outra, e a aceitação de suas ideias pareceu rápida, às vezes imediata.

Estudou teatro e mímica. Fez funcionar como uma biruta das tendências o corpo magro, os gestos, os olhos. Estudou as canções dos outros. Misturou jazz, rock e blues.

Nunca parou de ler, de clássicos como Madame Bovary a verbetes do Dicionário OxfordSeus enigmas se esclareciam aos poucos. Desprezava a ironia. Olhava nos olhos.

O tempo pode me mudar, mas eu não posso rastrear o tempo, disse em Changes. Vagabundo sexy que tanto amo (Rebel).  É hora de deixar a cápsula, se você ousar (Space Odity). Calce os sapatos vermelhos e dance o blues (Let’s dance).

Ou, talvez mais do que em todas as canções, pediu em Heroes que seu ouvinte, à moda de um golfinho, pudesse nadar, um ato metafórico: “Embora nada nos mantenha juntos, nós podemos batê-los indefinidamente. Podemos ser heróis por um dia.” 

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O artista desenvolveu máscaras semelhantes às dos cômicos clássicos (Mark Jeremy/Flickr Commons)

Tinha o intento de mobilizar. Mas quem acompanhasse suas canções caminhava por esses mistérios como se fosse o único a entendê-los. Em 8 de janeiro, Bowie fez aniversário e lançou o último disco, Blackstar.

Uma semana antes, apareceu atado à cama de um hospital, o rosto enfaixado, tendo por cima uns olhos colados, no atordoante vídeo que promovia Lazarus.

Mais um enigma que nem era tão grande, esclarecido com sua morte inesperada, dias depois: “Olhe aqui pra cima, estou no paraíso. Tenho cicatrizes que não podem ser vistas. O drama vive comigo, não pode ser roubado. Todos me conhecem agora”. 

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