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Número 884,

Cultura

Cinema

A câmera esquecida do cinema russo

por Rosane Pavam publicado 22/01/2016 05h46
Retrospectiva traz os filmes pós-soviéticos que encenaram a prostituição, o gangsterismo e a arte a partir da perestroika
Prostituas, garota internacional

As prostitutas encaram com paciência irônica a polícia em Garota Internacional (1989)

O escritor Leon Tolstoi a entendia como um paraíso. Ialta destinava-se ao sol. Nas praias da Crimeia, os trabalhadores soviéticos estancavam suas dores da labuta e exerciam o sonho acalentado pela revolução. Em 1988, porém, os raios solares sumiam nas nuvens e uma chuva cortante mal respeitava a barragem dos capotes. Viver significava insistir.

Pela enseada, na cabana transformada em habitação, o jovem Bananan construía pequenos objetos de arte e ousava interpretar um gênero degenerado de música popular, o rock. A reconstrução, que os russos intitularam perestroika, chegava com a promessa de melhorar a vida de todos. “Mas eu não vivo a vida”, argumentava o protagonista da trama ficcional Assa, de Sergei Soloviev, à mulher amada, amante de um gângster. “Viver a vida é triste. Do trabalho para casa, do trabalho para o túmulo. Eu moro no íntimo mundo dos meus sonhos. E a vida, o que é a vida? Uma janela pela qual de vez em quando enxergo as coisas embaçadas.”

Soloviev foi um dos responsáveis, nos anos 1980, por renovar o cinema do país ao reacender a fantasia russa estacionada entre a grandeza imperial e a desilusão revolucionária. Assa, sua obra central, tem a marca das grandes composições cinematográficas do país, como será possível conferir na Mostra de Cinema Russo Contemporâneo, promovida até o dia 27 pela Caixa Cultural de São Paulo, no Cine Belas Artes. O diretor abre a câmera aos grandes contextos, como fizeram seus predecessores Sergei Eisenstein ou Andrei Tarkovski.

Tecnicamente impecável, a fotografia encena o momento nebuloso, a interpretação se apoia em bons atores e a trilha sonora ousa instrumentalmente nos momentos em que é preciso ilustrar o processo de loucura de um soldado. Sobretudo se trata de um filme nítido, realista, para além da inquietude indefinível presente na cinematografia de Wim Wenders, com quem Soloviev às vezes se assemelha. Assa pede mudanças sociais rápidas, condena a burocracia política e ridiculariza o gangsterismo, em apoio à arte livre.

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Em 'O Assassino do Czar' (1991), a trama para a eliminação do soberano.

Os 13 filmes a serem exibidos na mostra, que se dá um mês após a bem-sucedida retrospectiva do estúdio Mosfilm na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, jamais hesitam em analisar o momento vivido. Apenas agora, tempo considerável desde essas realizações, é possível conhecer uma produção soviética que à época totalizava 150 filmes ao ano, financiados pelo governo ou em raras coproduções, muitas delas italianas.

Grande parte dos filmes russos permanece disponível na íntegra, com legendas em inglês, no site oficial da Mosfilm (www.mosfilm.ru). “Soloviev continua a linha de Tarkovski e reflete a nostalgia da intelligentsia soviética sobre a beleza da antiga Rússia pré-revolucionária”, diz o maior crítico cinematográfico do país, Andrei Plakhov, que fará quatro palestras gratuitas durante a programação. “Até Assa, ele exerceu esse realismo poético ambicioso. Mas no Japão e na Colômbia, anos depois, começou a fazer um cinema que incluía os elementos da subcultura dos jovens e gêneros populares, mesmo kitsch.”

 A mostra caminha por diversos estilos, alguns deles aproximados à técnica televisiva, como Garota Internacional, sem que a discussão de um instante turbulento se perca. A ficção de 1989, centrada no personagem de uma prostituta que, enfermeira em um hospital público, luta por se casar na Suíça, teve de ser encarado com obstinação por Pyotr Todorovski, antigo cineasta de formação soviética.

A prostituição, ainda que em tempos de tolerância, era assunto proibido. “Antes da perestroika, os cineastas sabiam contornar a censura usando a linguagem de Esopo (fabular e metafórica), mas, mesmo assim, muitos de seus filmes foram abandonados em prateleiras”, diz Plakhov. Durante quatro anos, em meio à reestruturação, Plakhov presidiu a Comissão de Conflitos, que liberou à exibição 250 filmes interditados, entre eles os de Alexander Sokúrov e Tenguiz Abuladze, autor de Penitência (1987), presente na mostra e um dos marcos da nova cinematografia ao mostrar o sofrimento de três gerações de uma família de artistas condenada pelo totalitarismo.  

Além da censura, a televisão limitou a produção extensa. “É interessante observar que a influência total da tevê começou com a exibição de telenovelas brasileiras no início dos anos 1980”, afirma Plakhov. Na Rússia, até que o Brasil entrasse de tal modo em suas vidas, os espectadores iam ao cinema em família. O número de filmes estrangeiros no circuito comercial era limitado e não existiam séries significativas de tevê em exibição.

Os filmes de grande bilheteria atingiam, assim, 100 milhões de espectadores. E se um longa conseguisse 5 milhões, vinha classificado como fracasso comercial. “Hoje, os russos assistem aos filmes na internet, e somente uma publicidade poderosa, a que se permitem os títulos de Hollywood e os nacionais de grande orçamento, os levará aos cinemas.”

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O gângster e sua amante, sob o acusado cenário do rock em Assa (1988)

Plakhov considera melancólico que o mundo conheça pouco o principal cineasta russo dos anos 1990 e 2000, Alexei Balabanov, um poeta e analista do país, morto em 2013, aos 54 anos. Seu Mercadoria 200 (2007), incluído na retrospectiva, dá-se durante a guerra do Afeganistão, ápice de um estilo poético em prosa.

E um filme como O Assassinato do Czar (1991), de Karen Shakhnazarov, falado em inglês e protagonizado por Malcolm McDowell, sobre a trama em torno da eliminação do último soberano e sua família, conhecerá algum público brasileiro pela primeira vez. “O cinema russo abarca uma amplitude de fenômenos, é difícil delimitá-lo”, considera o crítico. “Por exemplo, agora, um diretor sério como Andrei Zvyaginstev une a tradição poética de autor às tarefas do cinema social e crítico, exemplar em Leviatã, concorrente a melhor estrangeiro no Oscar do ano passado.” 

Elmer Back
Elmer Back em 'Que Viva Eisenstein!", de Peter Greenway

A cinematografia do país sofreu com a entrada do capital privado, atesta Plakhov. “No início dos anos 1990, quando foi permitido às empresas privadas que financiassem filmes, a Rússia chegou a apresentar 300 títulos por ano, em sua maioria obras de baixa qualidade, compostas a partir de pequenos orçamentos. Logo, em razão do pouco interesse do público, esse número caiu dez vezes. Hoje em dia, as produções, com financiamento público parcial ou integral, são cerca de 80 ao ano na Rússia, quase o mesmo a ocorrer antes da perestroika.”

O crítico vê com olhos encantados as possibilidades, raras entre os russos, de que seus ídolos da cultura sejam observados sem excessiva submissão. Eis por que diz ter gostado muito da forma livre, “até insolente”, com que o britânico Peter Greenaway encarou os dez dias que abalaram a vida de Sergei Eisenstein no México, em 1931.

O país representou para o diretor de 33 anos mais do que o Brasil para Orson Welles. Ali o russo teria se relacionado sexualmente pela primeira vez com seu guia mexicano. Pleno de cores e ambientação teatral, Que Viva Eisenstein! – Dez Dias que Abalaram o México, em circuito comercial no Rio de Janeiro e em São Paulo a partir do dia 21, esmera-se no bom humor. Os nus frontais de Eisenstein, interpretados pelo ator Elmer Bäck, são constantes nesta obra provocadora, que parece ter fechado as portas às coproduções russas para o diretor britânico.

“Este filme não tem de ser levado muito a sério”, diverte-se Plakhov, para quem ainda não se fez uma boa peça cinematográfica sobre o diretor de O Encouraçado Potemkin em seu próprio país. “Que Viva Eisenstein! é uma fantasia, não uma biografia, com certa justificação. E me parece importante que Greenaway ironize o tabu neste momento em que a Rússia aprova as leis anacrônicas contra a chamada ‘propaganda do homossexualismo’.” 

*Reportagem publicada originalmente na edição 884 de CartaCapital, com o título "A câmera esquecida"